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Suplementos alimentares: Mais-valia ou perda de dinheiro?

Dois nutricionistas revelam toda a verdade sobre os suplementos alimentares.

suplementos alimentares

Perder peso, acelerar o metabolismo, combater a queda de cabelo, fortalecer as unhas, travar o cansaço, colmatar uma carência nutricional, ter melhor memória, estar mais concentrado, dormir melhor, treinar mais, ganhar músculo, aumentar a performance. O que têm em comum cada um destes objetivos? A tentação de recorrer a suplementos alimentares.

Os suplementos alimentares são já parte integrante do dia-a-dia da população mundial, mas parecem escassear as evidências científicas da sua eficácia – e prova disso é o recente estudo que deita por terra o ‘poder’ dos suplementos à base de ómega-3 na saúde cardiovascular (ideia que perdurou e encheu rótulos durante décadas e décadas).

Mas comecemos pela definição. De acordo com a legislação portuguesa (Diretiva 2002/46/CE), por suplementos alimentares entendem-se os “géneros alimentícios que se destinam a complementar e ou suplementar o regime alimentar normal e que constituem fontes concentradas de determinadas substâncias, nutrientes ou outras com efeito nutricional ou fisiológico, estremes ou combinadas, comercializadas em forma doseada, tais como cápsulas, pastilhas, comprimidos, pílulas e outras formas semelhantes, saquetas de pó, ampolas de líquido, frascos com conta-gotas e outras formas similares de líquidos ou pós que se destinam a ser tomados em unidades medidas de quantidade reduzida (alínea a do artigo 3º. do Decreto-Lei nº. 118/2005).

De uma forma mais simplificada, o “suplemento alimentar é algo que pretende complementar uma alimentação diversificada. O que se pretende é fazer o complemento daquilo que não conseguimos obter na alimentação do dia-a-dia. É, sobretudo, um produto manipulado com o intuito de satisfazer um requisito específico”, clarifica a nutricionista Magda Serras.

 

Suplementos Alimentares vs. Medicamentos

Apesar de ser vendido em farmácia, o suplemento alimentar não é um medicamento e nem tão pouco requer uma receita médica no ato da compra. Ao contrário dos fármacos – que passam pela avaliação minuciosa do Infarmed (que traça a fronteira entre medicamento e suplemento) e por uma série de testes e estudos que comprovem a sua eficácia e determinem os seus riscos –, os suplementos alimentares podem ser colocados no mercado após uma notificação enviada à Direção-geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), cabendo, posteriormente, à Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) fazer a fiscalização e devida análise em caso de suspeita ou queixa.

Segundo Magda Serras, e contrariamente ao que acontece com um medicamento, “o suplemento é de venda livre e pode ser tomado na proporção em que é recomendado, mas que, no fundo, não tem um estudo por detrás para [justificar] a sua comercialização”.

De acordo com o nutricionista Rui Jorge, “existe uma série de aspetos legais que são obrigados a cumprir, mas, do ponto de vista de definição, [os suplementos alimentares] é como se fossem parte de um constituinte de um alimento que é apresentado sob uma forma doseada e para ingestão em pequena quantidade. Supostamente devem ter um efeito fisiológico ou nutricional, mas muitas vezes não têm”.

 

em alguns casos, para algumas pessoas, podem apresentar uma mais-valia porque as pessoas estão conscientes de que estão a tomar algo. É o dito efeito placebo

 

Existem riscos? Sim!

Apesar de se propor a melhorar a condição física e mental das pessoas (mas sempre sem a capacidade de curar doenças), a toma de um suplemento alimentar pode representar um risco para a saúde.

Em primeiro lugar, diz a nutricionista Magda Serras, pode ser um risco “na medida em que, muitas vezes, pode ser tomado e interagir com outra medicação que se está a fazer ou com outras condições clínicas em que não se deve tomar determinados suplementos e, por isso, pode haver situações em particular em que não traz benefícios. Pelo contrário, apresenta um risco”.

Por ser venda livre e não necessitar de uma receita médica, a toma de suplementos alimentares é facilitada e, por vezes, exagerada por parte do consumidor. “Por cá, os suplementos são vistos quase como um alimento e se eu acho que preciso de mais vitamina C ou se eu quero mais vitamina C posso ir a uma farmácia ou supermercado comprar. Do ponto de vista legal, é assim que funciona, mas isso não quer dizer que eu precise desse suplemento. Aliás, em alguns casos pode até fazer mal à saúde”, alerta o nutricionista Rui Jorge.

Quanto a esses mesmos riscos, continua, Rui Jorge salienta que “dependem do componente em si, não podemos generalizar porque todos os compostos têm as suas caraterísticas”, contudo, há um risco claro e que, a curto prazo, poderá trazer consequências graves para a saúde: a falta de conhecimento.

“Fala-se muito dos suplementos de cálcio, que podem ser úteis para quem necessita de ingerir mais cálcio. Em média, precisamos de um grama (1.000 mg) de cálcio por dia. Se eu na minha alimentação normal até só ingiro 500 mg, que é metade do que preciso, a toma de um suplemento que me dá os outros 500 mg até vai ajudar a minha saúde, vou prevenir problemas por défice de cálcio. Mas o problema é que se eu ultrapassar os 2.5 gramas, já aumento o risco de desenvolver pedra nos rins. Se tomar um suplemento sem saber quanto é que como de cálcio – que é o que as pessoas fazem – posso já estar a consumir (pela alimentação) 2000 mg e tomar um suplemento que dá mais 1000 mg e no final tomo 3000 mg e isso vai prejudicar a saúde”, diz o especialista, que realça que “o problema é esse, é que as pessoas não fazem ideia do seu consumo nutricional – porque não sabem avaliar, e nem todos os profissionais, salvo os nutricionistas, talvez, o conseguem fazer de forma precisa – e vão estar a suplementar-se com uma coisa que não precisam e que vai ficar em excesso”.

Mas o risco de sobredosagem acontece com todos os suplementos alimentares à base de vitaminas e minerais? Possivelmente não. O especialista fala do caso da vitamina C, “que parece não haver grande evidência de que é prejudicial quando tomada em doses maiores do que é o necessário. Precisamos 85 mg por dia, para nos mantermos saudáveis, mas pessoas que mostram consumos maiores não apresentam danos para a saúde, nem benefícios”.

Também a vitamina B12 ou B6 parecem não possuir “grandes efeitos negativos na saúde, mesmo quando são doses mesmo muito grandes. Há suplementos de B12 que têm 100.000% mais do que o corpo precisa”, esclarece o especialista.

 

suplementos alimentares

 

Mas também há benefícios

Neste tema de suplementos alimentares, uma coisa é certa: Se existe carência, o suplemento pode ser uma boa opção – mas não quando a toma é feita por conta própria.

“Quando existem défices, os suplementos são comprovadamente úteis. Cálcio, ferro são uma adjuvante”, afirma Rui Jorge, revelando que existem “algumas alturas específicas da vida onde se recomenda usar suplementação, como a gravidez, em que se toma o ácido fólico, que é uma recomendação internacional, o iodo, que é uma recomendação nacional desde agosto de 2013, e o ferro, que também uma recomendação para a maior parte das mulheres”.

Contudo, alerta, “não se aconselha que se faça esta suplementação [na gravidez] através de suplementos alimentares, mas sim de medicamentos. Isto confunde as pessoas, mas os medicamentos podem ter só ácido fólico que é uma vitamina ou só ferro que é um mineral, podem ter os mesmos compostos dos suplementos”.

“A diferença está na regulamentação a nível legal, porque quando compro um medicamento tenho a garantia que o produto que estou a comprar tem a dose do composto referido na embalagem, que foi testado, avaliado em termos de eficácia e existe controlo de qualidade, para além disso, no caso da gravidez, estes medicamentos estão sujeitos a receita médica, o que obriga a grávida a ser avaliada por um profissional de saúde antes de adquirir o produto. Num suplemento não tenho qualquer garantia de que isso aconteceu e, no caso de uma grávida ou de alguém com alguma suscetibilidade, não se devem usar suplementos alimentares, porque uma boa parte estão contaminados ou adulterados e isso pode levar a consequências muito graves. Mas este pode ser um risco para qualquer pessoa”, esclarece.

E é aqui que entra a importância de procurar a ajuda de quem sabe – até porque são as análises sanguíneas a melhor forma de perceber se existe carência ou excesso nutricional. Para Magda Serras, a toma deste tipo de produtos deve ser feita com o acompanhamento especializado.

“A recomendação é que a compra de um suplemento seja acompanhada por um profissional de saúde e a prescrição deste tipo de suplementação na precisa de ser em contexto médico, mas por aconselhamento de um nutricionista ou farmacêutico ou dietista, alguém que tenha conhecimento sobre saúde e sobre o suplemento, de forma a fazer o alerta ou despiste de uma possível contraindicação do mesmo. O farmacêutico é uma pessoa com conhecimento técnico e, por isso, capaz de avaliar o risco do suplemento”.

 

O veredicto: Mais-valia ou perda de dinheiro?

Sabemos que os suplementos podem colmatar carências nutricionais e, com isso, melhorar o bem-estar, saúde e qualidade de vida. Mas também sabemos que tomá-los por conta própria é um risco e que a ajuda de um profissional transmite mais segurança e confiança. Mas, mesmo assim, são os suplementos uma mais-valia ou perda de dinheiro?

Ora, tudo depende do propósito que tem e da necessidade de quem os toma, visto que, “alguns suplementos alimentares são usados em doses muito pequenas e sem evidência científica da sua eficácia, por isso, em alguns casos, para algumas pessoas, podem apresentar uma mais-valia porque as pessoas estão conscientes de que estão a tomar algo. É o dito efeito placebo”, revela Magda Serras.

Nestes casos de efeito placebo, continua, “há um menor risco em termos de saúde, até melhoram. Mas, os produtos que estão no mercado em doses tão altas ao invés de serem uma mais-valia podem ser um prejuízo. Um antioxidante, por exemplo, se for feito em doses muito altas e numa situação em que não há indicação para ser feito, pode passar a pro-oxidante, que faz exatamente o contrário, trazendo algum risco”.

De forma genérica, explica a especialista, “não podemos dizer que há suplementos que tenham uma evidência consensual, ou seja, o que há neste momento é uma evidência científica que fiz que em determinadas situações aquele suplemento faz bem. Antigamente recomendava-se a toma de multivitamínicos de forma genérica, mas a evidência mostra que nada fazem, mas há situações em que há mais-valia na toma de vitamina C, em que há necessidade de toma de coenzima Q10. Se a pessoa não consegue nenhum tipo de peixe ou frutos secos, faz sentido tomar ómega-3. Em função do défice faz sentido, se isso não existir então não faz sentido tomar”.

Também Rui Jorge avisa para o efeito placebo que estes produtos podem apresentar. “O efeito placebo acontece sempre com todos os suplementos. Aliás, todos os estudos que comparam o consumo de maior parte dos suplementos com um efeito benéfico na saúde, mostram que esse suplemento tem um efeito benéfico para a saúde nesse objetivo. Mas, todos os estudos que são chamados estudos controlados e randomizados, estudos que têm grupos aleatórios em que um está a tomar o composto ativo e outro recebe um placebo e não o sabem, mostram ineficácia para a grande maioria dos suplementos. Ou seja, o efeito dos suplementos alimentares é na sua grande maioria efeito placebo, a não ser algumas exceções”, as ditas em que existe carência, conclui.

 

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