Menu
Inicio Sexo Durante a pandemia, casais valorizam mais relações sexuais

Durante a pandemia, casais valorizam mais relações sexuais

Estamos perante uma mudança no conceito de intimidade?

Como eram os seus dias antes de ter ficado confinada em casa durante várias semanas? Uma correria, por certo. Um sem-fim de tarefas diárias que se acumulavam a cada piscar de olhos, quase sempre realizadas a uma velocidade supersónica sob um mar de stress e ansiedade. Uma falta de tempo constante. Um frenesim que nem sempre permitia parar para respirar e pensar no dia de amanhã.

E eis que, em plena inquietude de uma pandemia sanitária que abalou o mundo, passou a ter à sua disposição aquilo que mais desejava: tempo. Mas esta ‘dádiva’ tirou algo que está na génese do ser humano. Falamos do contacto físico, do toque, do sentir o calor de alguém. Sem que nada o fizesse prever, ficou com tempo para abraçar, acariciar e até com tempo e disponibilidade para se satisfazer sexualmente, mas não o pôde fazer com medo de um inimigo invisível que não se faz de rogado na hora de entrar dentro de um corpo e de afastar tudo e todos de quem mais gostam.

As consequências ainda estão por medir

“Ausência de toque é um fator de risco para o desenvolvimento de dificuldades psicológicas, uma vez que o nosso sistema nervoso precisa do contacto humano para se regular. Pessoas que já antes apresentavam dificuldades ou perturbações psicológicas estão ainda em maior situação de vulnerabilidade”, alerta a psicóloga clínica e terapeuta sexual Rita Torres.

A chegada inesperada de uma pandemia veio virar a vida de todos nós do avesso e até as relações mais íntimas podem ter ficado melindradas com o que se está a passar. Mas nem tudo é mau, pelo menos para alguns casais. “Deixámos de viver em piloto automático, fomos obrigados a parar, coisa que era impossível. Esta pandemia foi um catalisador das relações”, começa por nos explicar Maria do Céu Santo, médica ginecologista e obstetra, com pós-graduação em Medicina Sexual.

E Rita Torres concorda: “Uma coisa é certa: depois desta situação, o casal será necessariamente diferente. Alguns problemas que existiam previamente em alguns casos acentuaram-se, mas noutros, tenho verificado que o confinamento tem ajudado a reaproximar os casais, também do ponto de vista sexual. Como se esta paragem forçada fosse uma oportunidade para se reconectarem”.

Menos contacto físico, mais emoções

Se há palavra que descreve na perfeição as últimas semanas é medo. Medo do contágio, medo das consequências físicas, emocionais e até mesmo económicas do novo coronavírus. Medo do que está para vir. Um sentimento tão comum e importante para o nosso equilíbrio, mas assolador na hora de construir relações. À boleia do medo veio a ansiedade e uma preocupação constante, fatores que se tornam mais impactantes num cenário de confinamento em que muitos casais passaram por estar, pela primeira vez, 24 horas por dia juntos, no mesmo espaço, com os mesmos horários, as mesmas limitações. O resultado? Podemos apresentar vários, na verdade – e já lá vamos -, mas há um que importa destacar:

Menos desejo sexual

“Alguns casais manifestam alteração do desejo e penso que não terá apenas a ver com o facto de estarem juntos 24 horas por dia, também terá a ver com a sobrecarga e tensão a que estão sujeitos por terem filhos, por terem de cumprir com as questões relacionadas com o teletrabalho, por profissionalmente terem de dar a mesma resposta em termos de produtividade.

Se juntarmos a isto a vivência de uma pandemia que é incerta, as pessoas estão isoladas, não sabem como estão os familiares, há perdas, há um conjunto de situações aqui que podem e têm um impacto negativo ao nível da vivência da sexualidade”, revela Ana Gomes, investigadora no Sex Lab – Laboratório de investigação em Sexualidade Humana da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Para o sexólogo Fernando Mesquita, “alguns casais aproveitaram esta fase para renovar a intimidade, para procurarem novas formas de estarem juntos. Mas há, de facto, outros em que isto acabou por afastá-los um pouco.

“Alguns casais aproveitaram esta fase para renovar a intimidade, para procurarem novas formas de estarem juntos”

As pessoas estavam habituadas a ter um determinado tipo de estratégias para lidar com o stress e essas estratégias foram por água abaixo, as pessoas ficaram um pouco perdidas sem saber como gerir o stress e isso acabou por provocar alguns desentendimentos entre o casal. Com o stress todo que sentiam, o alvo mais próximo era o parceiro ou a parceira, então houve um afastamento em alguns casais provocado pelo confinamento. Isto pode, claro, afetar o desejo sexual, até porque há uma questão relativa com o desejo, que não tem de ser uma regra, mas diz-se que desejamos aquilo que não temos. Tendo o parceiro constantemente ali não deu muito espaço para criar fantasias e alimentar o desejo do casal”.

Os casais reinventaram-se

No entanto, o confinamento a que todos fomos sujeitos, segundo Maria do Céu Santo, não trouxe apenas consequências negativas. “Quebrou hábitos, mostrou-nos outra vertente da vida”, assegura. E isso pode ser notório a nível sexual, pois “os casais reinventaram-se”, aumentaram o sentido de companheirismo, mostraram estar lá um para o outro.
O uso de pornografia a dois, a troca de mensagens eróticas e até mesmo a masturbação em casal fizeram com que muitos vissem o outro lado do sexo durante o confinamento, o lado menos penetrante, mas igualmente satisfatório e importante.

“A pornografia tem uma componente recreativa, estimulante e, em alguns casos, pedagógica, que pode ser protetora durante este tempo. O mesmo para a masturbação, que é um ato sexual saudável, e que durante este tempo é absolutamente essencial, fazendo jus ao slogan muito usado atualmente por várias entidades ‘Você é o seu melhor parceiro/a sexual’. O recurso ao sexo virtual segue esta linha, e, se for no âmbito de uma relação amorosa, em que os elementos estão separados, pode ajudar a manter a vida sexual do casal de boa saúde”, esclarece Rita Torres.

O medo do toque não tem de ditar o fim de uma relação

Nestas semanas por casa, o sexo passou a ser visto com outros olhos por parte de alguns casais. O distanciamento físico, o medo do toque e até a redução do desejo sexual não têm de ditar o fim de uma relação. Estes três fatores podem até ser o trampolim para mudanças significativas e positivas na vida a dois.

“As pessoas estão a reinventar-se, a criar novos valores, novos relacionamentos, a valorizar mais, incluindo o afeto. Estão a descobrir o parceiro de outra maneira. O casal ficou mais confinado um ao outro, começou a trabalhar mais em equipa e este medo que foi a marca da quarentena é uma maneira de nos unir. Embora nos tenha afastado fisicamente uns dos outros, aproximou-nos efetivamente”, garante Maria do Céu Santo.

A chegada de uma nova forma de intimidade

Para alguns casais, menos contacto físico pode resultar num maior contacto emocional. Mesmo os casais que mantiveram uma rotina sexual durante o confinamento acabaram por ter a oportunidade de encontrar uma nova forma de amar e desejar a cara-metade. Mais do que o sexo, passar 24 horas por dia com uma pessoa pode ter sido a oportunidade ideal para conhecê-la melhor, respeitá-la mais e encontrar outras formas de aumentar a intimidade, seja com elogios, troca de olhares, simples conversas ou gestos diários de compaixão – aspetos capazes de manter a chama bem acesa. Afinal, garante Maria do Céu Santo, “sexualidade é afeto, é carinho, é o olhar, é o toque”, não apenas o sexo como o conhecemos.

Mas, podemos estar perante uma redefinição do conceito de intimidade sexual? “Acho que sim. Podemos esperar uma redefinição, porque esta situação trouxe-nos tantos desafios e ao nível da sexualidade não vai ser exceção. Vamos ser obrigados a pensar e a redefinir a nossa vivência da sexualidade, a forma como nos relacionamos amorosamente com o nosso parceiro ou parceiros, e, portanto, vai haver algumas alterações significativas neste campo, esperam-se positivas. E era bom que, sim, que as pessoas olhassem para o sexo de outra forma, que esta situação de confinamento nos viesse mostrar outros aspetos da vivência da sexualidade a que não estamos tão atentos e tão despertos no dia-a-dia, antes da covid”, diz a investigadora.

“Talvez seja uma oportunidade para iniciarem uma auto-descoberta sexual”

Para a psicóloga e terapeuta sexual Rita Torres, “o distanciamento social poderá ter implicações na forma de relacionar, inclusive na esfera sexual”. Para alguns casais, todo este confinamento pode ter sido demasiado fraturante e até ditar o ponto final numa relação. Mas para outros serviu para lhe dar uma nova vida. “No caso de não haver possibilidade de envolvimento físico, a masturbação ocupará um papel importante no bem-estar sexual. Deste modo, talvez seja uma oportunidade para que as pessoas que não o fizeram antes, especialmente no que diz respeito a pessoas do sexo feminino, iniciem uma auto-descoberta sexual, com maior conhecimento e consciência do seu corpo e sexualidade. Por outro lado, pode estimular a maior criatividade nos casais. Alguns recorrem ao sexo virtual ou sexting para apimentarem a relação”, continua a especialista.

Fernando Mesquita não se mostra tão otimista neste campo. Embora os casais tenham encontrado outras formas de se satisfazerem física e emocionalmente, “não sei se vamos ter uma mudança. Não sei se vamos passar a valorizar o olhar e a conversa. Seria positivo se acontecesse. Mas somos seres de hábitos e este período não terá sido ainda suficiente para mudar o hábito de muitas pessoas. Para outras poderá ter ajudado para a necessidade de alimentar um bocado o olhar, a proximidade. Não tanto a questão do sexo propriamente dito”. E justifica: “de acordo com os estudos, houve um aumento substancial do consumo de pornografia [durante o confinamento] e espera-se, de acordo com os países que já desconfinaram, um aumento de pedidos de divórcio ou de terapia de ajuda conjugal”.

E agora, como vamos fazer sexo?

Com mais cautela, pelo menos de início. “Foram só dois meses [de confinamento], mas pode mudar o regresso à normalidade sexual pela dependência nas redes sociais e sexo digital. Mas as pessoas estão carentes de afeto. Contudo, como todos podemos ser fonte de contágio, as pessoas sentirão necessidade de trabalhar em equipa”, afirma Maria do Céu Santo. A especialista frisa que o uso de proteção durante o ato sexual será ainda mais recorrente. “Nos primeiros tempos vamos ter mais comportamentos de prevenção. Vai haver uma maior necessidade de conhecer a pessoa. Logo, o contacto sexual ficará para uma fase posterior. Mas não sei até que ponto este tipo de comportamento se vai manter passados alguns anos. Se tudo voltar à normalidade, penso que rapidamente vamos entrar nos comportamentos que tínhamos antes”, alerta Fernando Mesquita.

E podemos esperar mais desejo? Maria do Céu Santo acredita que sim. “Quando passar a fase de contágio, tudo o que é proibido vai ser ainda mais desejado. Nós desejamos o que não temos”. Mas aqui, pode ser o ‘fruto proibido’ a falar mais alto (sim, as traições). No entanto, a este aumento do interesse sexual podemos juntar uma nova forma de encarar a intimidade. É quase como se esta junção desse origem a uma nova dinâmica sexual. Mas esta nova era do sexo veio para ficar? Talvez.

Um novo mundo…

Nos “próximos seis meses” vamos continuar a dar pequenos passos para o regresso a uma intimidade mais normal. Mas “a memória é curta. E se entrarmos numa fase mais tranquila de contágio, as pessoas vão voltar ao contacto físico e a tocarem-se. Porque as pessoas hoje em dia têm medo do toque, do abraço e do beijo. Sei que há casais que coabitam, mas não se beijam. Têm uma relação afetiva, mas sem contacto. No fundo, tudo isto foi uma mudança no mundo e na vida de cada um de nós. Ninguém na vida se vai esquecer desta fase”, afirma, em tom de conclusão Maria do Céu Santo.


*Artigo originalmente publicado na edição nº27 da revista Women’s Health, lançada em maio de 2020

Brand Story