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Como ajudar os mais novos a sobreviver à pandemia

Como ajudar os mais novos a sobreviver à pandemia

As diferentes rotinas e dificuldades dos pais, das crianças e dos jovens em tempo de quarentena têm sido notórias. Numa época em que o isolamento social se faz permanecer e o calendário escolar parece ser mutável a cada dia que passa, a ansiedade e o stress permanecem no dia-a-dia das famílias portuguesas.

Crianças, jovens e pais andam ansiosos com a indecisão do governo em reabrir as escolas, mas o certo é que as aulas online não provocam menos desconforto nas famílias. Numa altura em que as rotinas estiveram até agora definidas por consecutivos estados de emergência e o futuro continua uma incógnita, é usual as crianças adquirirem rotinas irregulares de sono e dietas menos favoráveis, fatores que podem influenciar a sua capacidade de obter bons resultados escolares.

Para esclarecer algumas dúvidas e ajudar os pais a um melhor entendimento dos filhos nesta época de quarentena e isolamento social prolongado, a Women’s Health pediu ajuda a Andreia Costa e Joana Gomes, psicólogas no Espaço Psicológico de Coimbra e a Catarina Lucas, psicóloga no Centro Catarina Lucas de psicologia e desenvolvimento.

Como ajudar as crianças e jovens na criação de uma nova rotina: castigo ou motivação?

As psicólogas Andreia Costa e Joana Gomes, da clínica Espaço Psicológico afirmam que “para facilitar a organização do estudo e para a criança ou jovem não se ‘perder nas horas’ é útil criar um horário (flexível e adaptado às rotinas da própria família), que inclua o tempo para assistir às aulas, o tempo de estudo autónomo, os intervalos e, também, o tempo livre.

Castigar nem sempre é a melhor opção. Apesar de muitos serem os pais que ameaçam o castigo como modo de incentivo para levar as crianças e os jovens a cumprir a sua parte, esta não é a melhor estratégia porque muitas vezes o problema mantém-se e irá repetir-se. “Não acreditamos que o castigo consiga verdadeiramente motivar alguém seja para o que for. Tanto assim é, que, não raras vezes, ouvimos os pais dizerem que ‘já nem os castigos funcionam’ – pois, efetivamente, perdem a sua eficácia, se é que alguma vez foram eficazes a cumprir o objetivo para o qual foram usados: motivar os miúdos para o estudo”, explicam as psicólogas Andreia Costa e Joana Gomes.

Em acordo está a psicóloga Catarina Lucas que explica os efeitos dos castigos nas crianças e jovens. “O castigo gera emoções tendencialmente mais negativas, todavia, em alguns momentos é inevitável recorrer a essa ferramenta. Globalmente, os miúdos, e não só, precisam perceber que, o nosso comportamento tem consequências, umas vezes positivas, outras vezes negativas, pelo que, por vezes, o castigo marcará os limites ao comportamento e obrigará a um treino de gestão da frustração.”

Recorrer ao castigo não é aconselhável, pois “entre castigar e motivar, motivar é sempre a melhor opção, uma vez que é aquela que traz uma maior gratificação para as crianças e para os pais, já que leva a uma execução da tarefa de forma voluntaria e entusiasta, gerando emoções positivas e criando um ciclo motivacional a seguir”, explica a psicóloga Catarina Lucas.

Para a psicóloga Andreia Costa é muito mais útil e eficaz compreender o que está por detrás dessa desmotivação e desse comportamento que esta criança ou jovem manifesta do que castigar, “sobretudo nesta fase de grande incerteza: medo de falhar, de não corresponder às expectativas, dificuldade em adaptar-se a este novo contexto e rotinas de aprendizagem. Se compreendermos as causas, os porquês, será mais fácil escolher estratégias e ideias que possam ser mais eficazes” afirma a especialista.

Ser mais flexível é um dos conselhos que a psicóloga Catarina Lucas tem para os pais “no contexto atual, devido à covid-19, é importante, flexibilizar, uma vez que, estamos todos menos produtivos e, não poderemos exigir o mesmo que exigiríamos quando funcionamos na nossa rotina habitual. Trabalhar ou ter aulas em casa, dificulta o foco de atenção, pois tendemos a misturar as tarefas domésticas e outras atividades com as atividades profissionais, coexistindo dentro dos mesmos horários”, afirma a especialista.

 

Gestão de expectativas e medos – conselhos parentais

Para Andreia Costa e Joana Gomes “é muito importante, num primeiro momento, que os pais compreendam quais seriam as expectativas inicias dos seus filhos para este ano letivo e quão perto ou quão distantes estão dos seus objetivos. Depois, dadas todas as mudanças e adaptações que esta pandemia lhes está a exigir, parece-nos importante que se possam cultivar, em família, algumas atitudes e estratégias.”

As psicólogas aconselham alguns princípios na interação com os mais novos a propósito da escola e explicam as várias fases de intervenção aos quais os pais têm de se mostrar dispostos a ir. “Comecemos pela aceitação. Ora, por muito que não gostemos da situação pela qual estamos a passar, que sejam exigentes os desafios que ela nos coloca, é esta a nossa realidade neste momento. E resistir-lhe (alimentando a ideia de que não queríamos que fosse assim) apenas aumenta o nosso desconforto, o nosso sofrimento. Que, quer os pais, quer os filhos/jovens possam, então, aceitar a sua realidade escolar, tal como ela se apresenta neste momento. Mas aceitar, não significa que se tenham de ‘conformar’ a ela. Felizmente, hoje em dia existem novas tecnologias, novas formas de ensinar e de aprender, convidando todos os envolvidos (professores, alunos, pais) à flexibilidade e à adaptação (permitindo-se ao novo, ao fazer diferente…)”.

Para as duas especialistas, “ainda que em circunstâncias diferentes das habituais, os jovens têm um terceiro período pela frente e podem ainda alcançar os seus objetivos. Para isso, é importante estabelecerem expectativas realistas (dentro do que é possível nestas circunstâncias e atendendo às suas capacidades, ao seu potencial) e, claro, empenharem-se para as conseguirem superar”.

E qual o papel dos pais em todo este cenário? “Aos pais, cabe o papel de acreditarem no potencial dos seus filhos e de elogiarem a sua persistência, o seu empenho e a sua capacidade de adaptação aos novos desafios que têm em mãos”, destacam as psicológicas, frisando que “cabe-lhes acolher os seus filhos (que são muito mais do que apenas alunos), com as suas emoções, frustrações e necessidades, criando um espaço onde essas emoções possam ser partilhadas e compreendidas. Algo que exige de todos, muitas vezes, paciência (o tempo necessário para estarmos com as experiências e as emoções tal como elas estão a acontecer no momento, por muito que não sejam agradáveis) e compaixão (optarmos por palavras gentis e de conforto quer para connosco próprios quer para com o outro). Um verdadeiro desafio para os pais e os jovens, especialmente neste tempo de confinamento.”

 

Isolamento social – consequências negativas

Semanas após ter sido declarado o primeiro estado de emergência devido à Covid-19 ainda é cedo para afirmar quais são as suas reais consequências no foro psicológico dos portugueses. É certo que o isolamento social pode facilitar a emergência ou agravamento de estados depressivos, sobretudo quando associados a outros fatores pessoais e familiares que os vulnerabilizam para este tipo de quadro. Mas, até agora ainda não é possível argumentar que a covid-19 está a aumentar os índices de depressão.

As psicólogas Andreia Costa e Joana Gomes afirmam que “esta situação de confinamento reúne, de facto, características que são muito exigentes tanto para as crianças como para os adultos e que trazem consigo uma maior probabilidade de sentimentos de tristeza, irritação, impotência, desesperança e ansiedade.”

No entanto, acrescentam que “estas emoções podem ser normais e naturais face à necessidade de adaptação a este acontecimento extremo e sem precedentes. Basta pensar que com o isolamento, o adolescente ou a criança perde rotinas, fica impossibilitado de realizar atividades que garantem o seu bem-estar, deixa de poder viver um conjunto de tarefas normativas para a idade, sobretudo de autonomia, construção e vivência plena das relações com os pares (nesta altura da vida tão importantes)”.

Mas não são apenas as limitações a ter impacto. “O adolescente vive durante esta crise, sentimentos de perigo e incerteza perante o futuro, aliás, muito potenciado pelas incertezas que ainda existem em torno de algumas questões associadas ao funcionamento das escolas, universidades e até ao normal funcionamento das férias de verão. É portanto, natural, e não obrigatoriamente patológico, as crianças e os adolescentes darem sinais de alguma dificuldade em lidar com tudo isto.”

 

Exposição às notícias e artigos referentes à Covid- 19

Num mundo tecnológico onde a informação se propaga à velocidade da luz, as noticias sobre a covid-19 são permanentes entre os meios de comunicação. Mas será que devemos expor os mais novos a estas notícias? A opinião das psicólogas Andreia Costa e Joana Gomes é que as crianças devem ser expostas a informação que consigam processar, de acordo com a sua idade e características pessoais. Mas, claro, ver as mesmas notícias todos os dias durante semanas não faz bem a ninguém. “A verdade é que, mesmo para os adultos, o excesso de exposição às notícias sobre a covid-19 vem com uma deterioração do seu bem-estar”.

E como é que os pais podem pôr os mais novos a par da realidade sem causar pânico ou confusão? “Existe um conjunto de documentos que os pais podem utilizar para explicar esta crise aos mais novos, nomeadamente aqueles compilados pela DGS que são facilmente acessíveis através da internet. Não se deve expor desnecessariamente a criança a informação que é muito difícil de processar (até para os adultos), mas sim garantir a informação necessária para compreender a realidade, aprender novos comportamentos e tranquilizar face ao futuro ou face a um eventual contágio”, acrescentam as especialistas.

 

Captar sinais de stress e depressão

As crianças e os adolescentes podem ter diferentes manifestações de que algo não está bem com eles. “É comum, as crianças mais pequenas reagirem com sinais tão diversos como mudanças de comportamento, choro fácil, enurese, medos, pesadelos”, explicam as psicólogas. “E o próprio adolescente também é muito lábil nestas manifestações: irritabilidade, falta de energia, tristeza, isolamento, afastamento das atividades que normalmente lhe davam prazer. Contudo, todos estes sinais não significam necessariamente um quadro depressivo ou ansioso. Significa que pode ser necessário que os pais parem um pouco para escutar, com interesse e curiosidade, o que poderá estar por detrás daquelas manifestações. Permitir e facilitar a expressão de emoções ou pensamentos incomodativos.”

Para facilitar o diagnóstico, “sempre que a criança ou o adolescente manifeste, de forma contínua dificuldades em lidar com o que estão a sentir, poderá ser importante procurar ajuda especializada”, destacam as psicólogas.

 

Estratégias para lidar com o stress e ansiedade

Perante a pandemia de covid-19 todos estão preocupados e ansiosos com o futuro, não só crianças como também adultos. A verdade é que os pais também estão assoberbados, e são tempos muito exigentes para as famílias. “Mas o tempo e espaço para falar sobre que se sente e pensa, associado a uma postura de aceitação e gentileza é das maiores vacinas que se pode dar em tempos de pandemia”, alertam as psicólogas.

“Depois existem estratégias no dia-a-dia que sabemos que podem ajudar no bem-estar psicológico: tais como a prática do exercício físico, manter o contacto (ainda que virtual) com a família alargada e os amigos, experimentar atividades que reforçam maior uma consciência sobre o que se sente (como a meditação), continuar a realizar, tanto quanto possível, atividades que dão prazer e trazem bem-estar”, explicam.

 

Importância do tempo a sós

Ainda que seja positivo o tempo em família, as especialistas do Espaço Psicológico alertam para a necessidade de um equilíbrio entre o tempo em família e o tempo sozinho “nem sempre estar muitas horas juntos significa uma verdadeira aproximação, uma verdadeira união (…) até porque existe uma maior tendência para conflitos nesta época de quarentena”. Mesmo estando em isolamento social é fundamental respeitar a identidade e necessidades das crianças, jovens e adultos. “Mantenham sempre um momento para estarem descontraídos em família, para se rirem, partilharem preocupações e esperanças, reforçarem laços, promovendo assim a resiliência e adaptação tão necessárias nesta fase e nas próximas que virão”, acrescentam.

Em concordância está a psicóloga Catarina Lucas que diz acreditar na importância do tempo para o ‘eu individual’. “É nesse tempo que refletimos, que acalmamos, que recuperamos energia, que diminuímos a atividade e até o esforço cognitivo e emocional. Estar connosco próprios e usufruir desse momento contribui para a construção da nossa identidade. Além disso, as famílias têm estado a viver 24 horas juntas, aumentando a tensão e saturação entre todos. É necessário que, cada elemento da família, incluindo os jovens, tenham o seu tempo sozinhos. Toda a gente precisa do seu tempo e espaço. Espaço para ser apenas o próprio”, explica a psicóloga.

Portanto, dê ouvidos aos psicólogos e aproveite este tempo em quarentena para conhecer melhor os seus filhos e criar novos momentos em família, não se esquecendo da importância do seu tempo sozinho. Um bom sistema de apoio e uma comunicação aberta são alguns dos fatores essenciais para um bem-estar psicológico nesta época tão stressante. Crie rotinas, mantenha uma dieta saudável, experiencie novas coisas no conforto da sua casa e não se esqueça de se manter ativo.

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