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Qual o verdadeiro impacto da solidão?

A sensação de solidão tomou de assalto a forma de ser e estar de muitas portuguesas. A Women’s Health conversou com especialistas para perceber qual o real impacto deste novo normal.

Qual o verdadeiro impacto da solidão?
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E, sem que nada o fizesse prever, milhões de pessoas em todo o mundo foram confinadas às suas casas, viram as suas rotinas viradas do avesso, sentiram emoções que desconheciam, passaram a desconfiar de todas as certezas que tinham. A pandemia teve – e ainda tem – um impacto direto na saúde e bem-estar das pessoas e o aumento da sensação de solidão é uma prova direta disso mesmo.

De acordo com a Direção-Geral da Saúde (DGS), por solidão é um “sentimento subjetivo e relaciona-se com ausência de contacto, de sentimento de pertença ou com a sensação de se estar isolado. Por outro lado, o sentimento de solidão pode interferir com a qualidade de vida das pessoas”. Não escolhe géneros, estatutos, crenças, idades. Afeta qualquer pessoa.

No questionário online realizado pela Women’s Health – e sobre o qual pode ler mais na edição de maio-junho, já nas bancas -, 41,5% das mulheres confessaram sentir-se sós, sendo que a percentagem subia para 63% para as que moram sozinhas. Mas, qual o verdadeiro impacto disso?

“Os sentimentos de solidão afetam, diretamente a qualidade de vida e bem-estar das pessoas, contribuindo fortemente para o surgimento de doença física e mental e sofrimento psicológico, podendo ainda dificultar o tratamento e a recuperação destas situações. Salientando-se assim, a emergência duma prevenção e intervenção eficaz, em tempo útil. Agora”, começa por nos dizer a psicóloga Ana Valente.

A psicóloga Cristiana Pereira, da Oficina da Psicologia, defende que “sentirmos solidão é natural”, até porque “acredito que todos nós já o sentimos”. No entanto, alerta que “solidão não é o mesmo de estar sozinho. Podemos escolher estar sozinhos e sermos muito felizes. Mas também podemos estar rodeados de pessoas e, mesmo assim, sentirmo-nos sozinhos, sem haver uma razão aparente para isso”.

“A solidão pode ter um grande impacto na saúde mental: pode contribuir para o desenvolvimento da ansiedade, da depressão ou das adições e as pessoas que têm um problema de saúde mental podem sentir-se sós, devido ao estigma ou à discriminação, por exemplo. Um novo estudo também aponta para a forma como estes sentimentos podem conduzir-nos a uma espiral descendente. Apesar de 61% dos inquiridos serem jovens até aos 25 anos muitos relataram que, além de uma grande solidão, também sentiam como se ninguém ‘realmente se importasse’ com eles. O mesmo estudo também sugere que as pessoas solitárias muitas vezes sentem que estão a ouvir mais os outros do que os outros a eles próprios, o que pode desencadear sentimentos de rejeição, o que, por sua vez, aumenta a solidão e a ansiedade em relação a situações sociais”, diz Cristiana Pereira.

De acordo com a especialista Ana Valente, as questões de solidão e saúde mental não são uma novidade em Portugal, mas “a vivência desta crise pandémica, veio por um lado, agravar muitas das situações já existentes e por outro lado, levou a um aumento dos casos de pessoas que se sentem sozinhas, vivam sozinhas ou acompanhadas”.

Ana Valente diz que os sentimentos de solidão são “complexos” e trazem “a sensação de desconexão com os outros, podem ser sentidos em diferentes cenários e contextos”, sendo, por isso, comuns até mesmo em quem não mora sozinho.

Para Cristiana Pereira, “a solidão ocorre quando os indivíduos percebem uma discrepância entre a quantidade desejada e a realmente experienciada relativa à proximidade e intimidade nas relações sociais. Além disso, é solidão é uma emoção humana universal que é complexa e única para cada indivíduo. Por não ter uma causa comum, a prevenção e o tratamento deste estado emocional potencialmente prejudicial, podem variar dramaticamente”.

E a fatura desta onda de solidão pode ser pesada, sobretudo se nada for feito em tempo útil. “Sabemos que os sentimentos de solidão, andam frequentemente, de “mãos dadas” com outras problemáticas relacionadas com a saúde mental. Exemplos disto são as perturbações de humor, como a ansiedade, a depressão ou níveis de stress patológico, aumento de consumo de substâncias, maior risco de suicídio, níveis mais baixos de satisfação pessoal e satisfação com a vida, mais pessimismo, mais medos, baixa autoestima”, explica Ana Valente.

Saúde mental, o (eterno) calcanhar de Aquiles

Apesar de nunca se ter falado tanto em saúde mental como nos dias de hoje, a verdade é que da teoria à prática ainda há muito para fazer. E Ana Valente deixa o alerta: “importa referir que as respostas de intervenção no âmbito da saúde mental em Portugal já eram deficitárias, naturalmente perante esta crise (mesmo com a criação de algumas/poucas novas respostas criadas) a falta de técnicos especializados de saúde mental, se fizeram e fazem sentir”.

De acordo com a psicóloga, “quem precisa de apoio, não tem resposta em tempo útil no Serviço Nacional de Saúde. E isso pode levantar muitas outras questões, apenas uma a título de exemplo, o agravamento do estado de saúde e saúde mental das pessoas”.

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