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Será possível ser saudável e obeso ao mesmo tempo?

Se aliar o exercício físico a uma alimentação saudável e equilibrada, tem meio caminho para controlar o excesso de peso e mesmo perder peso.

obesidade

Ter peso a mais pode representar um grave problema de saúde. Quando falamos em obesidade, referimo-nos a um fenómeno recente, que surgiu na década de 50 do século XX, mas o aumento exponencial apenas acontece a partir dos anos 70. É fundamental entender que a principal causa de obesidade é um desequilibro entre o consumo e o gasto calórico.

O que acontece hoje, é uma alteração do “padrão alimentar da nossa sociedade, que assistiu a uma mudança, e também [o aumento] do sedentarismo”, explica Paula Freitas, presidente da Sociedade Portuguesa Para o Estudo da Obesidade (SPEO). O fenómeno da obesidade atinge cada vez mais pessoas, sendo que, a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2016 estimava que existissem 650 milhões de pessoas obesas no mundo, valores que triplicaram entre 1975 e 2016. Em Portugal, dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) apontam para que mais de metade da população tenha excesso de peso, especialmente mulheres acima dos 45 anos.

É necessário entender que a obesidade não é um problema por si só. “É uma doença que vai gerar muitas outras doenças e que encurta a vida. Temos de educar as pessoas e dar-lhes os instrumentos para fazerem escolhas saudáveis. As pessoas só podem escolher saudavelmente, quer em termos de estilo de vida, quer quanto ao exercício físico, se tiverem a capacidade para o fazer. Ninguém escolhe conscientemente se não tiver conhecimento, temos de educar para a saúde e isto tem de ser transversal, tem de começar em tenra idade”.

 

De excesso de peso a obesidade

“Por definição, [um indivíduo] é obeso quando tem um Índice de Massa Corporal (IMC) superior a 30“, explica Paula Freitas. Note que para calcular o IMC deve dividir o seu peso pela sua altura. Ainda assim, a OMS alerta para o facto de esta medição ser eficaz nos adultos, ou seja, pessoas com mais de 18 anos. Quanto às crianças, a idade é um fator essencial que deve ser tido em conta.

Entre a obesidade e o peso normal existe o excesso de peso. O excesso de peso acontece “nos indivíduos que têm o IMC entre 25 e 30“, continua a especialista, referindo ainda que estas pessoas estão em risco de pré-obesidade e de sofrer de várias doenças relacionadas com a obesidade.

Apesar de o IMC ser o medidor mais imediato de obesidade, excesso de peso e peso normal, é ainda necessário ter em consideração a localização da gordura a mais. Isto, porque a zona corporal em que se localiza a gordura pode significar um maior risco para quem sofre do problema.

“A gordura que se acumula mais a nível central, chamada obesidade visceral ou em maçã, é pior do ponto de vista cardiometabólico. Ou seja, a pessoa pode ter um IMC que não é muito elevado, mas se tiver gordura visceral, tem um maior risco de ter doenças metabólicas, como a diabetes, a hipertensão e as doenças cardíacas”, explica Paula Freitas. Note que todas estas patologias são frequentes em doentes obesos, independentemente da zona onde acumulam mais gordura.

Nas mulheres, o tipo de gordura mais frequente é a gordura ginóide. Esta gordura, que se acumula especialmente depois da menopausa, em regiões como as ancas e as coxas, apesar de nos incomodar, não representa um perigo mais imediato.

 

Um problema que começa na infância

O excesso de peso na infância é um fator especialmente preocupante se pensarmos que as crianças e jovens obesos vão tornar-se adultos com a mesma condição. No caso das crianças, o problema surge em duas frentes diferentes.

Primeiro, as escolhas alimentares são cada vez menos adequadas, dado que o consumo de alimentos altamente energéticos como o fast food ou até cereais de pequeno-almoço, ricos em açúcares, é elevado. Segundo, devido à quantidade de horas que tanto miúdos como graúdos passam sentados no sofá ou à frente da televisão em vez de praticarem desportos. As chamadas ‘horas de ecrã’ fazem com que as crianças deixem de brincar na rua, não havendo um gasto energético de todas as calorias que ingerem em excesso.

Não são apenas os adultos com obesidade que têm uma série de doenças associadas, como explicamos anteriormente. Também as crianças obesas irão sofrer exatamente das mesmas consequências, apenas com uma diferença: vão sofrer numa fase muito mais precoce da vida. Nesse sentido, a presidente da SPEO reforça a necessidade de existirem programas dirigidos a “toda a gente, mas também de haver medidas focadas nos vários grupos etários“.

 

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Sou mulher e sou obesa

Paula Freitas explica que, nos primeiros estudos sobre obesidade realizados entre 2003 e 2005, a prevalência da obesidade era maior nos homens do que nas mulheres. Mas, “em 2012, temos estudos que mostram que a prevalência da obesidade em homens e mulheres já era semelhante. Nos últimos que temos, de 2015, as mulheres ultrapassam, em termos de obesidade os homens. Nessa investigação, 24.3% das mulheres têm obesidade, contra 20.1% dos homens”. Nesse sentido, é possível entender que a obesidade é especialmente preocupante nas mulheres, porque registam aumentos significativos.

Apesar de o excesso de peso, nos homens, estar associado a um maior risco de disfunção erétil, nas mulheres representa ainda um risco muito mais elevado quanto a uma possível gravidez. “Muitas vezes têm alterações menstruais, infertilidade e maior dificuldade em engravidar. Quando engravidam, podem ter mais complicações, quer durante a gestação, quer no momento do parto”, sendo, por isso, comuns os partos por cesariana.

Também para os bebés o risco é maior, dado que existe a probabilidade de nascerem com excesso de peso, ou seja, macrossómicos. De entre os principais problemas de saúde, estas crianças podem nascer já com hipoglicemia, apesar de estas serem gestações altamente controladas pelos médicos.

 

Mais do que uma doença, um risco de vida

Associadas à obesidade surgem uma série de outras doenças como a diabetes, problemas ao nível cardiovascular e até alguns tipos de cancro, como se pode ler no relatório Obesidade: otimização da abordagem terapêutica no serviço nacional de saúde, no âmbito do programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável.

Este é já um dos principais problemas de saúde pública a nível mundial, mas o surgimento desta doença pode acontecer devido a vários fatores. Apesar de estar intimamente associada a um estilo de vida destrutivo, com uma alimentação descuidada e nutricionalmente incorreta e à falta de exercício físico, a obesidade tem uma componente hormonal muito elevada. “É influenciada pela genética, ou seja, determinadas pessoas têm genes com maior probabilidade para a obesidade; por fatores psicológicos, que são muito importantes na obesidade e por questões da própria sociedade, como as políticas de saúde”, explica a presidente da SPEO.

Ao nosso redor, nos países mais desenvolvidos, existem uma série de estruturas, incluindo as nossas próprias mentalidades, que fazem com que o problema da obesidade seja ainda mais exacerbado. Isto, porque, por exemplo,”somos influenciados pelos sistemas de transportes e pelo facto de sermos sedentários. As nossas deslocações são quase todas em veículos motorizados, praticamente não andamos a pé”. Até a arquitetura pode influenciar os níveis de sedentarismo dado que o uso do elevador se torna mais apetecível, do que o uso de escadas.

A cultura e o nível socioeconómico das sociedades influenciam muito o estilo de vida das populações, sendo que no caso do excesso de peso, a prevalência é muito superior nas classes desfavorecidas. O risco e a propensão para ter excesso de peso devem-se também ao facto de “vivermos num ambiente em que temos dia e noite disponibilidade alimentar e ao facto de as porções dos alimentos terem aumentado drasticamente nos últimos anos. Basta pensar que uma lata de refrigerantes, hoje, tem mais conteúdo do que tinha no passado”.

 

Saudável e obesa?

A obesidade acarreta uma série de outras consequências para a saúde, mas esta é uma questão polémica. Isto, porque, apesar de ser possível viver alguns anos com obesidade e não sentir imediatamente outros problemas dela derivados, com o passar dos anos, essas pessoas vão sentir os sintomas.

A gordura vai localizar-se noutros locais, chamados locais ectópicos, como a parte abdominal, dos músculos, do fígado, do pâncreas, etc. Quando a gordura também se localiza nesses locais, vai dar origem a outras doenças como a diabetes, a hipertensão, doenças metabólicas, doenças cardiovasculares”. Por isso, Paula Freitas conclui que, numa fase inicial é possível as pessoas serem obesas e saudáveis, mas basta esperar algum tempo para as doenças metabólicas começarem a surgir, especialmente se não cuidar de si e decidir mudar os seus hábitos, tornando-se mais saudável.

Apesar de não haver um regime alimentar correto e um errado, o foco deve estar nas porções que ingerimos. É necessário comermos os alimentos que a natureza fornece. “Na roda dos alimentos, temos tudo o que devemos comer. No centro há água, depois estão lá os legumes, os vegetais, as leguminosas, as frutas, a carne, o peixe, o azeite, etc. Está lá tudo o que precisamos. Não precisamos de mais nadinha, apenas olhar para lá e comer naquelas proporções”, continua a presidente da SPEO.

 

Perder peso e ganhar saúde

Paula Freitas aconselha todos os doentes de obesidade a pensarem que, de facto, têm uma doença e que essa doença tem “graves repercussões na sua saúde e na sua taxa de sobrevida. Se tem um problema, deve procurar o seu médico, mas falamos de uma questão crónica e esta luta / batalha, em muitas pessoas, é para a toda a vida”.

Assim, torna-se necessária a aceitação de que se tem uma patologia e de que é imperativo mudar os hábitos e o estilo de vida, com vista a ter mais saúde e perder peso. Mudar é a palavra-chave deste processo e essa mudança tem de ter sempre em vista a saúde e a aquisição de ideias mais saudáveis. Para começar, pode introduzir a atividade física no seu dia-a-dia, depois de obter aconselhamento por parte de uma equipa médica especialista em casos de obesidade.

Muitas vezes, o exercício físico pode “ser algo tão simples como ir de escadas desde o 4º andar até ao 8º, em vez de apanhar o elevador. Se precisa de ir às compras, e o supermercado fica relativamente perto, opte por ir a pé”, continua Paula Freitas.

O aumento da atividade física vai significar um maior dispêndio de energia e se aliar esta prática a uma alimentação saudável e equilibrada tem meio caminho para controlar o excesso e mesmo perder peso.

 

 


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