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Porque é que a mulher vive tão refém da imagem?

A bandeira da aceitação corporal é hasteada em todo o mundo, mas a perceção que cada mulher tem da sua imagem continua fragilizada, refém de um ideal de beleza enraizado há décadas na sociedade. A Women’s Health conversou com especialistas para perceber o porquê.

Porque é que a mulher vive tão refém da imagem?
Céditos: pch.vector
O corpo humano há muito que deixou de ser apenas um corpo, passou a ser alvo de um culto de aperfeiçoamento, de constantes comparações, de aspirações nem sempre concretizáveis. A questão é transversal ao homem e à mulher, mas é ela que ainda vive refém da imagem e de todos os ideais que se foram construindo e perpetuando ao longo dos anos. E que, por vezes, a própria mulher perpetua, sobretudo nesta era digital pautada pela incapacidade de se mostrar sem uma boa dose de filtros à mistura.

Apesar de parecer cada vez mais fácil falar abertamente sobre o corpo, sem rodeios e sem preconceitos, a verdade é que a questão é complexa, fruto do evoluir da história e do culto do corpo que permanece enraizado, sobretudo nas sociedades ocidentais. “Ao longo dos tempos, da antiguidade até aos dias de hoje, os padrões de beleza, aquilo que é considerado belo, foi sofrendo alterações, não só devido à variável temporal mas também devido a questões culturais, afinal o que é entendido bonito num país pode não o ser noutro”, começa por nos explicar a psicóloga Débora Bento Correia.

E não, esta não é uma questão de agora. Se fizermos um pequeno esforço para nos lembrarmos das imagens presentes nos livros de história percebemos como a figura da mulher mudou, como é volátil e vulnerável ao longo do decorrer dos anos. E como isso impactou – e ainda impacta – a perceção que a mulher tem do próprio corpo. “Remontemos, por exemplo, ao período Renascentista em que os corpos das mulheres eram representados com cabelos longos e formas mais generosas ao passo que os homens apresentavam corpos musculados, sem pelos. A obesidade era sinónimo de estatuto, riqueza e beleza sendo, por isso, algo característico e apenas ‘acessível’ à nobreza”, continua a especialista. No entanto, o ideal de beleza aos poucos foi-se aproximando da magreza e do cunho de sensualidade, um estilo que permanece até aos dias de hoje, mesmo com o crescimento dos movimentos de neutralidade e positivismo corporal, que apelam à individualidade e versatilidade de corpos e à perceção do mesmo para lá da imagem.

Olhando para os anos 80 e 90, aqueles que trouxeram o boom de supermodelos, Débora Bento Correia defende que “foi com este conceito de beleza presente que muitas mulheres cresceram fazendo com que sacrifícios fossem feitos para que encaixassem nesse padrão. Para que sentissem que ‘encaixavam’. E este sentimento de pertença é algo inerente à nossa condição de ser humano, isto porque, enquanto seres biopsicossociais, ou seja, cuja constituição assenta em fatores biológicos, psicológicos e sociais, desenvolvemo-nos numa constante interação com o mundo, com o outro”.

Para Eduarda Coelho, professora na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e investigadora na área de aceitação corporal, a perceção que a mulher tem do corpo (do seu e do que acredita ser ideal) “tem muito a ver com a sociedade e com a altura da vida em que vivemos. Atualmente, o ideal de beleza continua a ser uma mulher magra. Quando eu era criança, as minhas bonecas eram cheiinhas e atualmente são com figuras mais magras. Desde que a criança brinca que lhe é um pouco imposto pela sociedade essa imagem de um corpo magro. Se perguntarmos a uma criança o que é uma mulher bonita, dizem que é uma mulher magra. Nas sociedades ocidentais já temos uma visão diferente, não olhamos para a mulher como robusta para procriar, continuamos a procurar corpos magros e esguios e a mulher só é bonita se tiver um corpo assim. A sociedade onde a mulher se insere, o significado que tem o corpo da mulher tem lá, faz com que a mulher procure um corpo diferente”.

 

O impacto da objetificação

Antes de embarcarmos em conceitos de aceitação corporal, comparação e objetificação – cujos significados pode ler na edição de março-abril da Women’s Health, já em bancas -, há que entender o que é a perceção corporal ou imagem corporal. “A imagem corporal é um conceito teórico com várias dimensões, representa a apreciação subjetiva de cada um de nós relativamente à sua aparência física, envolvendo perceção, sentimentos, comportamentos, pensamentos e crenças acerca do corpo. Estas dimensões podem ser afetadas por aspetos cognitivos, afetivos, sociais e culturais, estando intimamente relacionadas com o conceito que temos de nós próprios”, descreve a psicóloga Catarina Ribeiro.

A má perceção da imagem corporal e a busca por encaixar num padrão de beleza impulsiona a baixa autoestima e o constante desagrado com o próprio corpo – o ser refém de uma imagem, seja a sua ou a que anseia ter. “Apesar de não ser um fenómeno exclusivo ao sexo feminino, a insatisfação com a imagem corporal é significativamente mais alta neste género, ao longo de todas as fases da vida. Na sociedade ocidental, é muito frequente encontrar uma discrepância entre o que as mulheres têm como uma imagem corporal ideal e a sua própria imagem corporal”, esclarece Catarina Ribeiro, que continua: “Na nossa sociedade, as mulheres são confrontadas mais vezes com a imagem do corpo ideal feminino do que os homens. A imagem ideal que muitas vezes circula nestes meios parece ser mais uniforme, com a imagem de uma mulher magra e jovem a aparecer de forma mais consistente que a imagem idealizada do corpo do sexo masculino que aparece com formas mais heterogéneas”.

Esta imagem ideal surge muito à boleia da objetificação do corpo feminino. “A objetificação analisa o indivíduo ao mesmo nível de um objeto, sem considerar o lado emocional e psicológico. Quando falamos de objetificação do corpo feminino referimo-nos à banalização da imagem da mulher, quando a aparência das mulheres importa mais do que todos os outros aspetos que as definem enquanto seres humanos. Somos ensinados pela nossa cultura que o corpo e a aparência são a principal fonte de poder, valor e felicidade”, refere a psicóloga Sofia Ribeiro, autora do eBook Quero amar-me.

Tal objetificação moldou a forma como a sociedade e a própria mulher vê o corpo feminino e prova disso é a preocupação constante com questões corporais, sejam elas relacionadas com o peso, altura, celulite, tipo de cabelo, etc. “Durante décadas, as mulheres foram muito pressionadas a ter uma imagem ‘perfeita’ o que fez com que nos tornássemos muito críticas e julgadoras. E isso não só em relação a nós próprias como também em relação ao outro, neste contexto, em relação às outras mulheres. Traduziu-se, portanto, numa pressão tremenda, que fez aumentar a cultura do body shaming em que se envergonha, ridiculariza ou crítica alguém tendo por base apenas a sua aparência física”, esclarece a psicóloga Débora Bento Correia.

Um dos efeitos colaterais desta objetificação e do facto de a mulher viver refém de uma imagem idealizada é a facilidade com que entra num círculo vicioso de comparação, anseio e desagrado. Apesar de haver espaço para a mudança num processo de aceitação corporal desde que feita de forma consciente e com peso e medida – como poderá ler na edição de março-abril da Women’s Health -, a verdade é que “a auto-objetificação leva à preocupação excessiva com a aparência em detrimento dos estados corporais e de competências físicas, manifestando-se por uma monitorização e vigilância corporal constante, que pode levar a consequências físicas e mentais graves, além de comportamentos inadequados que têm impacto na saúde e no bem-estar do indivíduo”, alerta a psicóloga Sofia Pinheiro.

 

A importância do bem-estar

“A história da relação com o corpo já teve muitas leituras, desde Vénus de Willendorf em que a gordura era formosura. A relação do feminino com o corpo já foi tida pelas sociedades na história da humanidade com muitos registos diferentes e até contraditórios. A mulher gorda já foi idolatrada e escravizada e isto confunde o que a mulher sente. E nós somos hoje o produto de tudo o que nos antecedeu, pela epigenética. As memórias ancestrais são guardadas em nós. E nós mulheres somos hoje todas as mulheres que existiram antes de nós. A educação tem de ser consciente, a educação não muda as crenças, só a autoconsciência. Só pela expansão da consciência de cada um”, diz Margarida Dias, médica de Medicina Geral e Familiar na Clínica CUF Alvalade e no Hospital CUF Descobertas, ambos em Lisboa.

O bem-estar físico e emocional é determinante para uma boa aceitação corporal – embora seja normal que uma pessoa não se sinta 100% satisfeita com o seu corpo – e, para a psicóloga Débora Bento Correia, “tudo se prende (ou deveria prender) com a forma como nos sentimos connosco próprios, com a forma como lidamos com o que vemos ao espelho, com a forma como encaramos e lidamos com as nossas (im)perfeições”. Na prática, esclarece a especialista, “quanto melhor nos conhecermos, quanto melhor e mais saudável for a relação que temos connosco mesmos, com o nosso corpo, com aquilo que vemos ao espelho, sem extremismos mais alinhados viveremos com o que é realmente importante para nós e menos permeáveis estaremos a todo este ruído externo que nos chega diariamente”.

 

Reféns para sempre? Pode ser que não

“Embora ao longo dos últimos anos venhamos então a assistir a uma ligeira mudança no paradigma daquilo que eram os padrões de beleza, a verdade é que ainda existe um longo caminho a percorrer no que a essa mudança e consequente aceitação diz respeito. E é por isso que ainda é tão difícil libertarmo-nos dessa imagem idealizada e (supostamente) perfeita que durante tantos anos foi incentivada”, diz Débora Bento Correia, que olha para os movimentos de aceitação corporal nas redes sociais como uma ferramenta libertadora, embora possa ser, em alguns casos, contraditória e passar uma imagem errada.

O autoconhecimento é um dos escudos-protetores e, neste sentido, Débora Bento Correia defende o fim das comparações, do perfeccionismo e da autocrítica constante. “Iniciemos a prática de journaling. Invista, diariamente, num tempo para si, para fazer algo que o entusiasma e motiva, inicie um novo hobbie, crie uma lista de objetivos e coloque-os em prática. Faça um detox digital, faça um consumo consciente das redes sociais estabelecendo um limite para estes consumos”.

Para Margarida Dias, médica de medicina geral e familiar na CUF, a questão da perceção corporal “será sempre um tema individual e com uma dimensão de género, tem uma carga maior no feminino que não tem no masculino”, porém, acredita que “os padrões estão a transformar-se e as crenças também”. Para a especialista, o caminho está na aceitação e na consciência do que é saudável para cada pessoa – sim, saúde em primeiro lugar. “Temos de ser normoponderais. O caminho é o da autoconsciência, cada um sabe qual é o seu peso ideal, não precisamos de medidas, nem de tabelas, nem de modelos, porque se tivermos a nossa autoconsciência bem exercitada, sabemos qual o peso com que nos sentimos bem e com saúde”, diz Margarida Dias.

Para a docente Eduarda Coelho, as mulheres estão agora mais alertas para as questões do corpo, começando a colocar a saúde física e emocional à frente da estética. “Acho que a autoestima da mulher não está mais fragilizada, a mulher cada vez mais tem um papel determinante na sociedade atual, ou seja, está a ganhar um espaço próprio que vai ser determinante na sociedade atual e no futuro. O único problema da questão do corpo é que quando as pessoas se centram muito na questão do corpo é que esquecem-se muitas vezes do resto, mas a mulher não é só corpo e isso é importante reforçar”.

 

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