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Se não é orgulho, porque não pede ajuda?

Em casa, no trabalho ou na relação, a nossa postura dita a nossa capacidade de pedir. Mas não são poucas as vezes que nos retraímos de fazê-lo. Porquê?

pedir ajuda

“Pedir é humano, é saudável. É um ato de simplicidade e de humildade. Pedir ajuda é fator de sobrevivência. Se reconheço que não sou capaz sozinha, então devo pedir ajudar”. As palavras são da psicóloga Maria de Fátima Perloiro. Mas, apesar de certeiras, nem sempre é fácil pedir.

É por isso que a psicóloga do Centro de Urologia, em Lisboa, especializada em terapia familiar e conjugal, atenta na necessidade de se aprender a melhorar a própria postura face aos pedidos.

Pedir é um tipo de abordagem que “gera em nós a sensação de controlo e determinação própria”, diz a especialista, também docente da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa e coordenadora do serviço de psicologia do Colégio São João de Brito, também na capital.

“Não ter medo de pedir nem receio de dar é um atributo civilizacional a desenvolver”

Tal é contrastante a uma postura de criticar ou dar ordens, que por sua vez geram a perceção de domínio, obrigatoriedade e subjugação. O resultado? Não recebe por parte dos outros aquilo que deveria ter pedido – em vez de exigido – e promove um ambiente de má relação, seja em casa, no trabalho ou em qualquer outro cenário. Margarida Gaspar de Matos, professora catedrática da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, é da mesma opinião. A especialista esclarece que “o exercício e a prática da assertividade é a maior garantia de saúde e bem-estar de todos os envolvidos. Ainda, leva a relações interpessoais mais gratificantes para ambas as partes”. Resta saber o fulcral: como adotar a melhor postura nestas mesmas ocasiões? Ou, por outras palavras, como perder o ‘medo’ em pedir e melhorar o nosso relacionamento com o próximo?

Com ajuda das três psicólogas, a Women’s Health aponta os cinco pontos a seguir para acabar com tal estigma.

Seja Assertiva

Diz Margarida Gaspar de Matos que são quatro os estilos relacionais interpessoais mais aplicados no trabalho e na vida conjugal: agressivo, passivo, assertivo e manipulador.

“Uma comunicação saudável, e que define uma relação equilibrada, será entre duas pessoas assertivas ou afirmativas”, leia-se, “as que defendem os seus direitos e interesses e deixam o mesmo direito aos outros”. Definir esta linha é essencial para ambas as partes. É que uma postura agressiva ou manipuladora define quem tenta abusar da boa vontade dos outros através de jogos de poder. Esta não é, de todo, a melhor postura a tomar, seja em que situação for! Quer se esteja perante amigos, colegas ou família, “a pessoa afirmativa não tem medo de pedir… nem receio de dar”.
É por isso que a psicóloga define tal característica como um atribu to civilizacional a desenvolver.

Troque as ordens por pedidos

Nem sempre a questão que se coloca é o ‘medo’ em pedir algo. Muitas vezes, é a falta de noção sobre qual a melhor altura para o fazer. Vejamos um exemplo entre casal, onde os pedidos devem ser preferidos às críticas e ordens. Em vez de dizer ‘És insensível, quando chegas a casa ignoras-me por completo!’, porque não dizer ‘Podes dar-me um beijo sempre que chegas a casa? Isso deixava-me muito feliz’. A situação aqui retratada sugere que, “ao fazer um pedido, colocamo-nos na situação de receber. Isto corresponde a ‘desarmar’ o outro”, diz Maria de Fátima Perloiro. Agora imagine-se esta situação aplicada em centenas de outras interações…

Conheça os seus direitos

“Fazer pedidos implica ter a noção de que temos esse direito”. Assim diz Rute Agulhas, psicóloga clínica e docente e investigadora no ISCTE-IUL, em Lisboa. De facto, temos o direito a pedir, do mesmo modo que o outro tem o direito a negar tal pedido. Mas a falta de noção de que se detém tal direito surge frequentemente “em pessoas mais passivas”, a quem “é necessário ajudar a treinar a sua assertividade no saber pedir, bem como no saber lidar com as possíveis respostas àquele pedido. É que, muitas vezes, “o pedido de ajuda não se relaciona com a necessidade em pedir. Tem sim a ver com o conseguir dizer não aos pedidos que lhe são feitos”, conclui a especialista.

Não espere que adivinhem

Numa relação, não pedimos pelo desejo quase inconsciente de que o parceiro nos leia a mente e adivinhe aquilo de que precisamos. Diz Maria de Fátima Perloiro que “isto é sentido como uma prova de amor do tipo ‘ele sabe o que necessito, por isso está atento a mim e por isso ama-me’”.

Colocar-se no lugar do outro pode ser uma simples forma de perceber que esta não é a postura mais indicada a seguir. Em vez disso, há que “encontrar um alinhamento e uma sintonia” através da qual o casal se entenda melhor e comunique. Como diz a especialista, é a falta desta sintonia que leva a que muitos casais e famílias cheguem por vezes tarde de mais a uma consulta de terapia de casal ou familiar.

Um pedido não a define

Vergonha, orgulho ou medo de receber um não são aspetos que nos retraem na hora de pedir algo. Não somos supermulheres, há que dizer. Há que perceber que “um ato isolado de pedir algo não nos define enquanto pessoa. Define apenas um momento da nossa vida”, diz Maria de Fátima Perloiro. Além disso, importa perceber que este ato de humildade é avaliado pelos outros de forma muito positiva. “Quantas vezes não recebemos mensagens como ‘mas porque não disseste nada? Porque não pediste ajuda?’”, lembra a psicóloga. “Pensar no que faríamos ao trocar imaginariamente de lugar com a pessoa a quem vamos pedir algo”. Este é um simples ato que pode facilitar o combate ao que quer que esteja a retrair-nos.

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