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O complexo e secreto mundo dos orgasmos femininos

O orgasmo feminino é uma das maiores incógnitas para o sexo masculino. Mas por que é que eles não percebem quando se atinge o clímax?

O complexo e secreto mundo dos orgasmos femininos

O orgasmo feminino é um dos maiores segredos do corpo humano e uma das maiores incógnitas para o sexo masculino. Mas porque é que eles não percebem quando se atinge o clímax? Conheço a minha namorada como a palma da minha mão, sei exatamente o que ela gosta, o que ela deseja, quando é que ela se sente feliz ou triste”.

Ouvir isto de um homem é o suficiente para ficarmos derretidas e a pensar que o príncipe encantado com que todas sonhamos afinal existe. Mas não se deixem enganar. Há um aspeto que os homens (ainda) não dominam totalmente no universo feminino. E quem diz os homens, diz também a ciência e toda a humanidade (incluindo as próprias mulheres). Falamos de orgasmos, senhoras.

O poder do prazer

Orgasmos. Aquele que é o ponto mais alto da sexualidade continua a ser um assunto tabu entre muitos casais e nem mesmo a ciência tem sido capaz de decifrar uma estratégia matemática que tenha como resultado final o clímax garantido – e já o tenta fazer desde 1930! A culpa, em parte, é da complexidade do orgasmo feminino e do impacto que tem no corpo feminino, mas é também da mulher, que ora continua a fingir, ora continua a não dizer o que quer, como quer e quando quer.

Embora os tempos de submissão e de satisfação do parceiro façam parte das sociedades passadas, hoje há ainda mulheres que põem o próprio prazer sexual em segundo plano para que a satisfação total do parceiro fique garantida, como concluiu um estudo finlandês em 2016. Sim, as mulheres continuam a preocupar-se mais com o prazer dele do que com o próprio. “Existe ainda uma grande tendência para se assumir que a mulher tem de ter sempre orgasmo, mas a verdade é que muitas delas nunca chegam a experienciar o orgasmo.

O homem assume que para a mulher ter prazer é obrigatório haver orgasmo, e a mulher, para não ferir a suscetibilidade do seu companheiro, acaba por fingir. Não é por falta de interesse do homem, é por uma ideia de virilidade de ter de fazer a sua companheira ter orgasmo, pelo que a sua ausência é por vezes vista como um fracasso. Além disto, muitas mulheres acabam por não assumir que se passa algo de errado com elas”, explica a psicóloga Catarina Lucas, também diretora do Centro Catarina Lucas, em Lisboa.

Tão desejado quanto complexo

O orgasmo é ainda uma incógnita e nem mesmo os estudos científicos vêm facilitar a tarefa. Enquanto uns dizem que a estimulação do clítoris (região do corpo feminino com maior número de terminações nervosas) é o suficiente para atingir o clímax – como conclui uma investigação realizada em 1985 e que mostrou, na revista Archives of Sexual Behavior, que a estimulação consegue mesmo aumentar o fluxo sanguíneo na região da vagina, intensificando o orgasmo –, outros referem que nem com uma mãozinha as mulheres lá chegam, como sugeriu em 2017 uma investigação a Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos.

Em que ficamos? Na singularidade de cada mulher, como mostrou um estudo da Universidade do Indiana (EUA) e publicado na revista científica Journal of Sex and Marital Therapy, também em 2017. De acordo com esta mesma investigação, o prazer de mulheres com idades compreendidas entre os 18 e os 94 anos depende, de facto, de mulher para mulher, porém, verificou-se que somente 18% das mulheres chegam ao orgasmo apenas com penetração vaginal – ato que continua a ser o mais comum entre os casais heterossexuais e que, na verdade, acaba por apenas ter por certo o prazer do homem.

Apesar de todo o impacto que o clítoris pode ter no prazer feminino, apenas 36% das mulheres dizem que a estimulação desta parte do corpo ajuda na caminhada até ao prazer (que tende a ser bem mais longa do que a do homem). Das que se aliam ao poder clitoriano, duas em cada três disseram que os movimentos para cima e para baixo são mais do que suficientes para um ‘ooohhh’ mais intenso, enquanto 52% confessaram preferir massagens circulares nesta parte do órgão sexual feminino.

Só 49% das mulheres chegam ao orgasmo. 89% dos homens conseguem.

Quanto à pressão na vulva, 11% classificaram como uma mais-valia para o orgasmo. Ou seja, o orgasmo feminino é bem mais complexo e individual do que alguma vez imaginamos. Mas o clímax das mulheres não se faz apenas de anatomia ou estímulos físicos. A conversa, as palavras mais calientes e a intimidade emocional parecem ser o atalho ideal para chegar o tão desejado destino, diz o mesmo estudo. Na prática, reforça a psicóloga, “o problema maior [de a própria ciência não conseguir decifrar o orgasmo feminino] não está na compreensão do orgasmo, mas no foco quase exclusivo no orgasmo quando a sexualidade não se resume a isso. Há muitas maneiras de vivenciar a sexualidade de forma gratificante e com prazer sem que ocorra orgasmo.

O orgasmo pressupõe um conjunto de vivências e perceções subjetivas, o que faz que seja difícil de compreender e diferente para cada mulher. É preciso que a mulher conheça o próprio corpo e saiba que locais e estímulos proporcionam maior prazer. Depois entram também todos os fatores psicológicos, como crenças, valores, educação, ansiedade, aspetos emocionais e relacionais, etc.

O tipo de relação emocional com o parceiro também influenciará a vivência da sexualidade. Sendo vários os fatores inerentes à sexualidade, bem como o facto de o próprio prazer ser uma perceção subjetiva, torna-se complexa a compreensão não só do orgasmo, mas de toda a sexualidade feminina”.

“EXISTE AINDA UMA GRANDE TENDÊNCIA PARA SE ASSUMIR QUE A MULHER TEM DE TER SEMPRE ORGASMO, MAS A VERDADE É QUE MUITAS MULHERES NUNCA CHEGARAM A EXPERIENCIAR O ORGASMO” – CATARINA LUCAS, PSICÓLOGA

Oooohhh… ou talvez não

Um estudo publicado no ano passado na revista científica The Journal of Sexual Medicine vem provar que o orgasmo feminino é, de facto, um nó na cabeça para muitos homens. Depois de avaliar 1.683 casais heterossexuais, a investigação revelou que 43% dos homens casados não sabem quando é que a parceira atingiu o clímax, ou se o atingiu. E de quem é a culpa? Da nossa anatomia… e das nossas mentiras. Fingir um orgasmo não é novidade para as mulheres e esse ‘simples’ hábito é o suficiente para induzir os homens em erro, mas a falta de comunicação sobre este tema pesa igualmente nesta fatura que nem sempre é prazerosa.

“A sexualidade continua a ser uma das áreas de maior dificuldade nas conversas dos casais. Este é um dos aspetos mais íntimos e privados da vida pessoal, daí que falar sobre isso pressupõe um grande nível de exposição, com o qual muitas pessoas não conseguem lidar. Além disto, tem aspetos culturais muito enraizados, com ideias preconcebidas, nomeadamente no que respeita ao desempenho do homem e à passividade da mulher. Questões como esta são muito difíceis de ultrapassar e para muitos não é fácil falar sobre elas ou expor-se”, explica Catarina Lucas.

Ainda de acordo com o mesmo estudo, levado a cabo pela Universidade Brigham Young (EUA), a prática de sexo resulta em orgasmo para 87% dos homens, mas apenas para 49% das mulheres. Então agora de quem é a culpa? De acordo com uma investigação de 2014, divulgada pela revista Journal Sex of Medicine a orientação sexual da mulher pode dizer muito sobre a facilidade com que atinge o orgasmo.

É já do consenso científico que há um orgasmo feminino a cada três masculinos, mas pouco ou nada se sabia sobre o impacto do tipo de relação. O mesmo estudo refere que os homens heterossexuais têm um orgasmo em 85,5%; as mulheres ficam-se pelos 58%. No caso dos homens homossexuais, o clímax é garantido em 84,7% dos atos, nos bissexuais é em 77,6%. Já no sexo feminino, o clímax é atingido em 74,7% das relações sexuais lésbicas e 58% bissexuais.

 

Querido, temos de falar sobre sexo!

Para a psicóloga Catarina Lucas, “a comunicação continua a ser uma das armas mais poderosas ao alcance dos casais, contudo, nem todos usam este recurso em seu benefício. Conversar sobre o que preferem, sobre os locais do corpo que são maiores geradores de prazer ou sobre práticas mais satisfatórias traria grandes benefícios ao casal. Muitas vezes um esforça-se por corresponder a uma coisa que nem faz ideia do que seja. Devemos lembrar-nos de que um não adivinha o que vai na cabeça do outro, e vice-versa. De igual modo, a comunicação deverá servir para explicar o que lhe desagrada e prefere não fazer”.

Nos casos em que a comunicação é capaz de “potenciar a vivência mais gratificante da sexualidade do casal, certamente que isto se refletirá no domínio emocional, na ligação afetiva e na coesão do casal. A intimidade não se resume à sexualidade, mas influencia-a, assim como a sexualidade promove a intimidade. Estas são duas áreas que se influenciam mutuamente”, conclui a especialista.


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