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“Com a crise as pessoas vão optar pelos produtos menos saudáveis”

Isabel do Carmo é médica especialista em endocrinologia, diabetes e nutrição e fala sobre os mitos e falsas teorias do mundo da alimentação.

Global Imagens

Isabel do Carmo tem um à-vontade para falar de saúde e nutrição que muitos desejam alcançar. É autora de vários livros – não só de saúde e alimentação – e facilmente aponta o dedo em riste ao que está mal, mas ao mesmo tempo apresenta soluções. Foi exatamente isso que fez na sua mais recente obra.

A médica especialista em endocrinologia, diabetes e nutrição acaba de lançar mais um livro, mais um dedo apontado ao que de mau se está a fazer em relação à alimentação e, sobretudo, no que diz respeito aos mitos e fake news que se perpetuam em tempos digitais e que podem comprometer a saúde no futuro. Alimentação – Mitos e Factos Livro, Uma perspectiva científica [16,60€, Oficina do Livro], explica, ao longo de mais de 270 páginas, o que é que a ciência tem a dizer a respeito das dietas da moda, das teorias e mitos alimentares e, sobretudo, da saúde que se constrói à mesa, em cada escolha.

Por cá, aponta defeitos aos preços dos alimentos saudáveis e à falta de pulso nas medidas adotadas em prol da boa alimentação. A professora doutora Isabel do Carmo aplaude a taxação às bebidas açucaradas, mas garante que é preciso mais.

Alimentação - Mitos e Factos Livro, Uma perspectiva científica [Oficina do Livro]
Oficina do Livro
No seu livro tenta clarificar algumas teorias que teimam em permanecer. Porque é que as pessoas aderem tão facilmente às dietas da moda, mesmo, lá no fundo, sabendo que são uma falácia? Ou, na verdade, não o sabem?

Há uma dificuldade, em termos de alimentação, de avaliar os benefícios e os malefícios de determinados alimentos. As grandes certezas são sempre relativas, mas há algumas. Isto faz com que isto ainda seja mais difícil adotar modas cuja consistência em termos de demonstração é quase nada, muitas delas é só porque alguém disse, ou porque o produto está a ser comercializado e isso começa a ser divulgado sob formas que não são propriamente a publicidade. O que quis [com o livro] foi chamar a atenção para que olhasse com uma perspetiva científica para as questões da alimentação.

 

Quando diz ‘sob formas que não são propriamente publicidade’, está a referir-se às redes sociais? Como é que avalia este fenómeno?

O Instagram funciona como uma agência, em que os patrocinadores estão ocultos e que, de facto, pagam aquilo que aparece. É uma forma muito mais perigosa do que a publicidade propriamente dita. Nós agora raramente vemos publicidade direta, daquela que percebemos que é publicidade, a produtos alimentares. Vemos narrativas, imagens, conteúdos que são feitos para induzir a que as pessoas gostem daquilo, usem aquilo e se convençam que aquilo é bom. É uma nova fase da comunicação em relação à qual temos de estar prevenidos.

 

No seu livro fala das dietas da moda. Uma das mais badaladas é a detox…

A dieta detox é a mais parva de todas. Mas talvez seja a menos perigosa, porque se as pessoas fizerem um batido vegetais e frutas, não estão a desintoxicar coisa alguma, mas estão a tomar uma coisa que é saudável, embora a fruta se for em excesso tem muita frutose e, portanto, tem bastantes calorias.

 

Mas há quem não se fique pelos sumos.

Quando os produtos já são vendidos e chamados detox, não sabemos o que está lá dentro, não sabemos literalmente o que está lá dentro e lá podem estar estimulantes, coisas como cafeína ou guaraná, e a pessoa sente-se, de facto, mais arrebitada depois de tomar aquilo, mas não está desintoxicada, está estimulada.

 

Esse tipo de dietas, como a dieta alcalina e a detox, acaba, muitas vezes, por sere até divulgada pelos próprios nutricionistas através de livros. Qual o critério tendo em conta que são regimes pouco claros?

Aí, vende-se. Há uma justificação que é: isso vende-se, tal como os livros de autoajuda, que agora são moda. As pessoas estão deprimidas e com problemas e acham que se seguirem aqueles conselhos as coisas vão correr melhor, mas talvez não, porque os problemas não estão ali, estão noutras causas, as pessoas precisam é de ajuda de profissionais. Em relação a estes livros de nutrição, são livros que se vendem. Não quero dizer que é a totalidade dos livros é má, há livros com qualidade, mas curiosamente são os que vendem menos, têm uma forma de exposição à qual o público não adere, por isso é que fiz o esforço de pôr o meu livro de uma forma muito acessível, correta, mas acessível. Mas há livros que se fazem para vender e que vendem, mas não têm base científica.

 

A inclusão de temáticas de alimentação na educação poderia ajudar a saber filtrar melhor o que é uma boa de uma má informação sobre alimentação, o que é um bom ou um mau livro?

Até poderia ser incluída na disciplina de Educação para a Cidadania, no que diz respeito à capacidade de ler de uma forma crítica. Seria uma boa ideia fazer uma leitura crítica aos livros sobre alimentação. Especificamente em relação à alimentação, há professores que fazem uma educação alimentar, os alunos sabem quase de cor o que é a alimentação saudável, mas isso não conduz a que eles nos intervalos e tempos livres não vão comer as coisas que dizem que faz mal. Há disponibilidade comercial e em estabelecimentos ao pé das escolas, que é uma coisa que tem de ser combatida, proibida, e não é.

 

Mas aqui também entra o fator preço. Os alimentos processados acabam por ser dos mais económicos e por isso dos mais consumidos. Que consequências no futuro podemos esperar se os portugueses continuarem a incluir diariamente estes alimentos na sua dieta?

Os alimentos processados são sempre piores do que os naturais porque perdem qualidade a nível de vitaminas e sais minerais, muitas vezes têm adicionadas substâncias como conservantes, algumas são boas, a vitamina C é um bom conservante, mas por vezes têm mais do que isso, têm um toquezinho de doce, de frutose, para ir ao encontro do gosto das pessoas em geral, nós todos gostamos de doce. Por vezes existe esse toquezinho mesmo em alimentos que não são doces. Há, portanto, más características nos alimentos processados e, além disso, os alimentos processados significam que as pessoas não estão a consumir produtos locais, o mais localmente possível.

 

Qual a importância de comer alimentos locais?

Por vezes, há coisas que não são processadas, mas são uma loucura do ponto de vista ecológico, como as laranjas da África do Sul, de Israel ou da Argentina, quando nós temos produção aqui. Acho que é obrigação nossa olhar para o caixote, para os rótulos e escolher produtos nacionais e, se possível, locais. Não é porque questões de patriotismo, é por questões de racionalidade e saúde.

 

Mas as frutas e vegetais, mesmo de produção nacional, ficam mais caros durante a pandemia. Faria falta uma postura mais assertiva do Governo para que estes alimentos, que acabam por ser a base da boa alimentação, sejam de acesso mais facilitado?

Há uma diretiva europeia, que obedece às diretivas internacionais do comércio, que faz com que, do ponto de vista público nas compras públicas, se opte pelo mais barato. O que acontece é que os serviços públicos podem rodear esta diretiva, como têm feito países como Itália e França, comprando localmente. Aquilo que está no supermercado foi comprado aos critérios dos donos do supermercado, o Governo não pode interferir nos preços dos supermercados e essa subida de preços aconteceu, de facto. Eu olho sempre para a conta e vejo que o mais saudável é o mais caro. Naturalmente que com esta crise económica, as pessoas vão optar pelos produtos menos saudáveis, mais calóricos.

 

Isso acaba por ser um pouco inglório para os nutricionistas e profissionais de saúde, que acabam por incutir hábitos saudáveis, mas as pessoas não têm outra alternativa a não ser os alimentos mais em conta, que são quase sempre industrializados.

Isso é evidente. Tem de haver uma intervenção pública. Nós podemos pregar aquilo que já é uma pregação que fica no ouvido, mas que depois não fica na prática, porque não há medidas práticas.

 

Apesar de os alimentos saudáveis estarem mais caros, há ainda quem opte por investir em superalimentos ao invés de alimentos naturais ou até mesmo uma consulta de nutrição. Porque é que as pessoas procuram ir sempre pelo caminho mais fácil?

É verdade. Ao nível individual não vamos lá. Há, de facto, essa postura, mas temos de ter políticas públicas e políticas bastante marcadas. Por exemplo, alguns alimentos já têm os semáforos em relação ao açúcar, à gordura e ao sal, mas esta política dos semáforos devia ser mais marcada, para as pessoas saberem, quando compram, que estão a comprar vermelho – e se comprarem, já se trata de uma opção individual. Mas isto deveria ser mais marcado, mas, como sabe, a indústria agroalimentar opõe-se vivamente a isto e aceita com muita dificuldade isto, porque vende mais aquilo que tem semáforo vermelho. Isto tem de ser contrariado um bocadinho, um bocadão, em termos públicos, de política pública nacional e internacional. É uma batalha muito difícil.

 

Para terminar, acredita que os portugueses irão olhar, algum dia, para a alimentação com olhos de ver, comer de forma saudável e consciente?

Sou otimista, embora haja elementos que me levam a estar pessimista. Há dez anos, tínhamos metade da obesidade que temos atualmente. Lembro-me que há dez anos, as minhas colegas americanas que tinham estudado a obesidade na América olharam para os nossos números e disseram ‘vão ver como irão passar para números semelhantes aos nossos’, e foi o que aconteceu. Elas estavam pessimistas e eu não estava, tinha alguma esperança que a nossa intervenção pública desse resultado, [mas] não deu. Em relação à atualidade, penso que vai depender muito de diretivas internacionais. A Organização Mundial da Saúde faz recomendações, mas não interfere ao nível de proibições. Houve uma medida interessante, que foi a taxação das bebidas açucaradas. Vamos ver os resultados que traz a longo prazo. Nos países em que se fez, teve resultados a longo prazo na obesidade infantil. Talvez esta crise económica possa ir num sentido em que haja menos consumo de determinados alimentos, embora os alimentos com gordura e açúcar sejam os mais baratos, mais apelativos. Pelo menos, tem de haver um combate a esse respeito. Tem de haver uma grande tónica de produção e consumo nacional e o Governo tem, para isso, de usar os meios de comunicação, colocando em horário nobre conteúdos apelativos e explicativos. O Governo tem essa possibilidade mas não usa e é daí que as coisas deveriam vir.

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