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Obesidade na gravidez: Seis questões esclarecidas

Obesidade gravidez

Por Artigo escrito por Sónia Valente Duarte, Ginecologista-Obstetra do Hospital CUF Porto e Clínica CUF S. João da Madeira.

Quando uma mulher obesa engravida são várias as preocupações e questões que surgem. Apesar das respostas não parecerem animadoras, fique a saber que com alguns cuidados e acompanhamento médico é possível minimizar algumas complicações e, assim, manter uma gravidez saudável.

Tenho excesso de peso. A minha gravidez pode ser afetada por isso?

Sim. O excesso de peso (mais corretamente aferido através do índice de massa corporal – IMC) e o ganho de peso durante a gravidez podem, efetivamente, influenciar não só a evolução e o desfecho da gravidez mas também a saúde futura dos recém-nascidos. É, por isso, um assunto de enorme importância e que mobiliza intensamente a comunidade médica, uma vez que se trata de um fator de risco que é possível modificar, com ganhos muito significativos na saúde da mulher e das crianças.

Que riscos pode acarretar o excesso de peso para a gravidez?

Desde logo o excesso de peso pode condicionar a fertilidade da mulher, com taxas de concepção mais baixas e necessidade de mais tempo para conseguir engravidar. Parece também estar associado a um aumento de abortamentos espontâneos em gravidezes iniciais.

Como é do conhecimento geral, o excesso de peso condiciona um maior risco de diabetes, quer de diabetes prévia à gravidez (muitas vezes não diagnosticada), quer da diabetes que se desenvolve durante a gravidez, chamada de diabetes gestacional. Da mesma forma, as mulheres com excesso de peso têm maior risco de serem hipertensas ou de desenvolverem hipertensão ou pré-eclâmpsia(uma forma grave de doença hipertensiva) durante a gravidez. Estas complicações da gravidez podem levar à necessidade de partos prematuros, com os riscos que a prematuridade acarreta para os recém-nascidos.

Uma outra situação que tem vindo a merecer progressivamente mais interesse e preocupação é a apneia obstrutiva do sono. Trata-se de uma condição mais prevalente nas pessoas com sobrecarga ponderal e obesidade (IMC superiores a 25 ou 30, respetivamente), que pode ser precipitada ou exacerbada durante a gravidez. Este problema condiciona, além da baixa de oxigénio e aumento da quantidade de dióxido de carbono no sangue, um aumento do risco de pré-eclâmpsia e diabetes gestacional.

E o parto?

Sabemos que os trabalhos de parto das mulheres obesas podem ser mais lentos e há maior probabilidade de precisarem de ser instrumentados ou de ser necessário recorrer a uma cesariana e, consequentemente, maior risco de hemorragia e de infeção.

As mulheres com IMC mais alto tendem a ter bebés maiores, o que designamos de macrossomia fetal (peso superior a 4000g). Esta circunstância pode também levar a partos mais lentos, maior necessidade de intervenção médica no parto, maior risco de lacerações do tracto genital e de hemorragia pós-parto.

Existe risco para os recém-nascidos e para as crianças?

Sim. As mulheres obesas têm um risco um pouco maior de terem fetos com malformações congénitas. Existe também um risco maior de problemas para os bebés relacionados com os partos, apesar dos melhores cuidados médicos. Preocupa também o risco futuro de obesidade, não apenas na infância mas ao longo da vida adulta, com o consequente aumento do risco de diabetes, hipertensão arterial e doenças cardiovasculares.

Revela-nos um cenário pouco animador e algo assustador. Há alguma coisa que se possa fazer para o melhorar?

Aí está a grande mensagem e a que importa reter: é claro que sim! Idealmente, os planos de fertilidade devem ser discutidos e preparados pela mulher e o seu médico muito antes da gravidez. É muito importante que se estabeleça uma relação de mútua colaboração, honestidade e confiança, em que a mulher não se sinta julgada mas sim apoiada.

A mulher deve ser avaliada em termos do seu estado geral, calculado o seu IMC e rastreadas as doenças habitualmente associadas ao excesso de peso, como a diabetes e a hipertensão arterial.

Deve ser iniciado, o quanto antes, um programa de redução de peso com base em dieta e exercício físico. Para isso poderá ser necessário o apoio de outros profissionais, tais como nutricionistas, personal trainers e psicólogos. Sabemos que os problemas da gravidez são tão mais graves e frequentes quanto maior for o grau de excesso de peso/obesidade e também que o fator com mais impacto neste risco é o peso com que a mulher engravida.

O ganho de peso durante a gravidez deve também ser limitado, de forma a reduzir os riscos. Os objetivos variam consoante o IMC inicial e, mais uma vez, para ajudar a cumpri-los será conveniente o apoio de outros profissionais, designadamente nutricionistas com experiência no acompanhamento de grávidas. O exercício físico pode e deve ser praticado pelas grávidas, desde que não haja contra-indicação.

E qual a importância do acompanhamento médico regular?

É fundamental! Algumas das complicações podem ser minimizadas se precocemente detetadas, o que pode implica uma vigilância frequente. Pode haver necessidade de referenciação para outras consultas de especialidade tais como endocrinologia, cardiologia, medicina do sono. Outra questão para a qual vale a pena alertar é que as ecografias “de rotina” são muitas vezes dificultadas pela má qualidade da imagem devido à panícula adiposa. Nestes casos, pode ser necessário a repetição do exame ou ou o recurso a outros meios de diagnóstico para melhorar a vigilância.

Nesse sentido, e para terminar, queria deixar um apelo especial neste exigente tempo de pandemia que vivemos. As pessoas, e as grávidas em particular, não devem deixar de comparecer às consultas e fazer os exames que lhes sejam recomendados, nem deixar de procurar resposta para os seus problemas de saúde. Os hospitais implementaram medidas de segurança para proteger todos os que os frequentam, profissionais de saúde e utentes. Continuarmos a zelar pela nossa saúde é essencial.

 

 

 

 

 

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