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Posso ser obesa e fit ao mesmo tempo?

Gordura é formosura, mas e saúde? Novos estudos indicam que sim. Já Mika cantava “Big girl you are beautiful”, e fit, acrescentam os especialistas.

Gordura é formosura, mas e saúde? Novos estudos no mercado indicam que sim. Já Mika cantava “Big girl you are beautiful”, e fit, acrescentam os nossos especialistas…

Artigo escrito na primeira pessoa

Cresci na década de 80 e 90, e rápido me apercebi que o mundo se dividia em dois: pessoas gordas e pessoas magras (não me julguem pois não fui eu que fiz a distinção). O motivo escuso de enumerar, e é mais do que um: a ditadura das modas e das dietas nasceu muito antes de mim, antes de se ouvir falar em bullying, antes da era das supermodelos, das dietas dos 31 dias, do My Fitness Pal ou de Gabriela Pugliesi.

A verdade é que o caminho é longo e cheio de pedras no caminho, mesmo para quem já pensava estar seguro dos lados da ‘batalha’. Todos os dias somos bombardeados com ideias contraditórias sobre exercício e alimentação e por isso não admira que tanto a obesidade como os distúrbios alimentares tenham aumentado a olhos vistos. Também não ajuda que, quando uma modelo com algumas curvas ascende a capa da Sports Illustrated, a reação cibernética seja de um arrebatador ‘buhh’. “Como proclamam um corpo que não é saudável?”, ecoaram as vozes por detrás dos computadores.

A resposta, essa, também chegou via online, com uma fotografia de Ashley Graham, a modelo plus size em causa, numa das suas sessões com o seu PT: “Só porque sou plus size, curvilínea e real não quer dizer que não faço exercício para me manter em forma. Há demasiadas pessoas a achar que podem olhar para uma mulher do meu tamanho e dizer que não é saudável. Não podem: só o meu médico pode”, disse a modelo americana que veste o 44.

Com isto, Ashley não só silenciou os haters por alguns segundos, como trouxe à baila um velho debate: há ou não obesidade saudável? Qual a diferença entre um obeso doente e um saudável, se em ambos os casos o corpo não corresponde ao padrão estipulado pelas amantes de alface? Fomos descobrir para que lado pende a balança e – spoiler alert – acabamos por balançar um pouco estas duas divisões sociais…

Ser ou não ser

A ideia de que magra equivale a ser fit e gordo a doente está a ser posta em causa não só por mulheres plus size dos dois lados do Atlântico como pelos profissionais de saúde. Teresa Branco, fisiologista na gestão de peso em Lisboa e Sérgio Veloso, formado nas áreas do Metabolismo Celular e Nutrição Clínica são dois dos que acreditam no conceito de obesidade saudável, “um estado de gordura excessiva, mas aparentemente não associado a outras co-morbilidades ou alterações nefastas em parâmetros bioquímicos”, define o especialista. Confusa? Não se preocupe, vamos dividir o todo pelas partes.

Primeiro, obesidade engloba diferentes definições, como explica Teresa. “Algumas escolas defendem que é uma doença crónica pelo facto de estar associada a outras doenças, como a diabetes ou a depressão. No entanto, nesta última década têm-se realizado estudos que demonstram que existem pessoas com excesso de peso que não apresentam qualquer problema metabólico, o mesmo não se verificando em relação aos problemas osteoarticulares”.

“A classificação da obesidade como doença é controversa, mas a própria Organização Mundial de Saúde já a define como tal. Hoje em dia é cada vez mais abordada como uma disfunção do tecido adiposo e centro de regulação metabólica”, acrescenta Sérgio Veloso.

A obesidade por si só representa uma acumulação de massa gorda corporal em excesso, mas nem por isso se torna mais fácil de identificar as boas ou as más da fita. Segundo Sérgio, “tanto o peso como o Índice de Massa Corporal são medições demasiado redutoras” para o determinar, e só o “cálculo da percentagem de massa gorda e a avaliação da distribuição do tecido adiposo são os únicos métodos fidedignos para uma avaliação de risco”, conclui.

De facto, um estudo publicado este ano no Journal of Obesity analisou a ligação entre o IMC e a saúde metabólica, que mede a pressão arterial, níveis de glucose e colesterol. Os resultados apuraram que quase metade das pessoas tagadas como obesas graças ao IMC eram, na realidade, saudáveis, enquanto 30% que tinham níveis de IMC normais eram, de facto, doentes. Ser obeso não faz de ninguém doente, mas também não quer dizer que sejam mais fits que as pessoas magras. O que pode mudar tudo? O exercício físico.

Em caso de dúvida, mexa-se

É um estereótipo porque é verdade: a maioria dos obesos não pratica exercício físico. Mas (há sempre um mas) de vez em quando surgem pessoas para baralhar as ideias. Mesmo minoritária, gorda e fit já é uma tendência visível, e não precisa ir mais longe do que ao seu telemóvel. Pesquise #curvyyoga e irá deparar-se com Jessamyn Stabley, por exemplo, que mostra que as asanas vêm em todas as formas e tamanhos.

“Curiosamente, as pessoas que praticam exercício tendem a acumular menos gordura na região abdominal, nomeadamente junto dos órgãos e por essa razão são metabolicamente mais saudáveis”, explica Teresa Branco. “A pessoa que pratica exercício físico, mesmo tendo excesso de peso, está muito mais protegida de doença do foro metabólico”. Segundo um estudo da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, a inatividade mata duas vezes mais pessoas que a obesidade por si só.

No livro The Obesity Paradox, o cardiologista americano Carl Lavie apresenta 15 anos de pesquisa para provar que ser obeso não é a bomba-relógio que nos fazem crer. Num dos seus estudos, por exemplo, concluiu que “desde que seja fit, não interessa quanto pesa”. “Uma pessoa fit com peso a mais vai ter uma saúde a longo prazo melhor – incluindo risco de doenças cardiovasculares, diabetes e cancro – do que uma pessoa magra que passe a vida a fazer dieta mas não exercício”, defende o médico, acrescentando que o seu livro não é um convite a ser gordo, mas sim uma «chamada de atenção para nos pormos em forma.

A receita? 30 minutos de corrida por dia e parar de olhar para os números da balança. “As pessoas consideradas metabolicamente saudáveis sendo obesas têm excesso de gordura corporal mas têm a «tensão arterial normal, têm o colesterol ‘mau’ baixo e o ‘bom’ alto e têm glicemia normal”, descreve a fisiologista Teresa Branco. “A perda de peso deve ser uma opção pessoal e não motivada por terceiros ou pela sociedade”. Quer mudar? Faça-o por si.

Não precisa de um desenho para saber que se tem excesso de peso será mais difícil exercitar-se. É por isso que pedimos ao personal trainer Pedro Correia para partilhar as suas melhores dicas de treino plus size. Veja a galeria!


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