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O inimigo: Cancro do Pulmão

Dr. Pedro Fernandes
O inimigo: Cancro do Pulmão

POR Dr. Pedro Fernandes, cirurgião torácico no Centro Hospitalar e Universitário de São João

Em tempo de pandemia é importante não esquecer que outras doenças vivem entre nós há anos e a sua importância não pode ser posta em segundo plano ou mesmo desprezada. O cancro do pulmão é um flagelo global cujo verdadeira alerta é exposto pelos números da sua dura realidade: o cancro do pulmão é a principal causa de morte por tumores malignos tanto no Mundo, como em Portugal! A nível global, o cancro do pulmão tem mais de 2 milhões de novos casos por ano, sendo responsável por 18,4% das mortes relacionadas com cancro, mais de 1,7 milhões de mortes anuais. Em Portugal, em 2018, foi responsável por 4631 mortes, mais que o somatório das mortes por cancro da mama e próstata (os dois tipos de cancro mais prevalentes em mulheres e homens, respectivamente).

A crueldade desta patologia na nossa sociedade é explicada por um velho inimigo: o tabaco. O tabaco está na origem de um vasto leque de patologias cardiovasculares, respiratórias e oncológicas, sendo comprovadamente o principal fator de risco para o cancro do pulmão, responsável por mais de 80% dos casos. A história mostra-nos que os padrões geográficos e temporais da doença retractam o consumo de tabaco ao longo das décadas passadas, sendo disso exemplo a diferença de incidência entre géneros: ao longo do século XX, as mulheres começaram a fumar mais tardiamente que os homens, pelo que neste momento, anos mais tarde, observamos o início da inversão da balança, com crescente incidência do cancro do pulmão entre as mulheres e estabilização ou mesmo decréscimo da incidência desta patologia no género masculino. Por outro lado, o passado também nos permite reflectir sobre o outro lado da moeda e um dos principais alvos para travar esta arrastada pandemia: a prevenção. Nos países que cedo adoptaram medidas efectivas de cessação tabágica, mais precocemente obtiveram uma redução nas curvas de incidência de novos casos de cancro do pulmão. Em 2019, no nosso país, 17,0% da população com 15 ou mais anos era fumadora e 21,4% eram ex-fumadores. Mais de 1,3 milhões de pessoas (14,2%) fumavam diariamente. A iniciação tabágica nos jovens ainda é substancial, pelo que é expectável que este seja um importante problema de saúde global nas próximas décadas, sendo a prevenção através da cessação tabágica o primeiro e determinante passo no combate a este flagelo.

O estadio no qual conseguimos diagnosticar a doença determina o seu tratamento e o prognóstico, sendo no diagnóstico precoce que reside o segundo problema crucial. O curso silencioso do cancro do pulmão leva a que 70% dos casos sejam já diagnosticados numa fase avançada da doença. Nos estadios iniciais, a maioria dos doentes é assintomática. A realização de uma radiografia torácica ou tomografia computorizada (TC) é muitas vezes o método acidental de detecção de uma lesão pulmonar, iniciando assim a marcha diagnóstica até ao cancro do pulmão. Numa fase mais avançada da doença, a grande parte dos doentes já são sintomáticos. Sintomas inespecíficos de dificuldade em respirar, tosse ou expectoração com sangue podem ser sintomas de doença avançada, bem como sintomas sistémicos de perda de apetite, perda de peso ou fadiga. Não existe um sintoma específico ou patognomónico de cancro do pulmão. O rastreio – tal como já é efectuado em outras patologias oncológicas como o cancro da mama ou cancro colo-rectal – torna-se cada vez mais como uma das possíveis respostas para um diagnóstico precoce. A evidência sobre rastreio no cancro do pulmão tornou-se mais sólida com os recentes resultados do maior estudo europeu nesta área: numa amostra de mais de 15000 pessoas verificou-se que a realização de TC de baixa dose a fumadores ou ex-fumadores entre os 50 e os 74 anos, permitiu uma redução da mortalidade de 26% em homens deste grupo de alto risco, sendo essa redução ainda mais acentuada nas mulheres consideradas de alto risco!

A implementação de um programa de rastreio nacional será um passo essencial que pode mudar definitivamente o paradigma do cancro do pulmão.

O largo espectro de fases nos quais a doença é detectada compreende desde o pequeno nódulo pulmonar com menos de um centímetro que pode ser tratado com cirurgia – permitindo uma sobrevida aos 5 anos de cerca de 92% – até ao cancro do pulmão em estadios avançados, com múltipla metastização à distância, cujo prognóstico contempla uma sobrevida aos 5 anos inferior a 5%. Nos estadios precoces, a cirurgia é o tratamento de eleição, possibilitando uma terapêutica potencialmente curativa. O desenvolvimento da Cirurgia Torácica na última década, com novas técnicas e abordagens, possibilitou que atualmente se possa oferecer aos doentes um procedimento cirúrgico minimamente invasivo. Considerado o gold-standard e implementado com programas de sucesso em vários serviços em Portugal, a cirurgia toracoscópica vídeo-assistida (VATS) permite através de uma única porta de 3 a 5 centímetros, sem necessidade de afastamento de costelas, remover o lobo pulmonar ou o segmento pulmonar afetado pelo cancro do pulmão. Esta é uma abordagem cirúrgica menos agressiva, que proporciona ao doente um pós-operatório menos doloroso, menor tempo de internamento, com uma recuperação funcional mais positiva e um rápido retorno à sua atividade normal. Em fases mais avançadas da doença, a cirurgia com ressecção pulmonar não demonstra ter efeitos benéficos na sobrevida dos doentes. Nesta fase da doença, a evolução dos tratamentos nos anos mais recentes também foi notória, com um incremento substancial não apenas na sobrevida mas também na qualidade de vida dos doentes. Se há cerca de uma década a clássica quimioterapia era a única solução, hoje em dia as terapêuticas dirigidas e a imunoterapia revolucionaram a forma como tratamos o cancro do pulmão, sem os efeitos adversos conhecidos da quimioterapia e possibilitando uma sobrevida superior a três anos nos estadios mais avançados da doença.

As formas de batalha contra esta patologia vão-se apurando, representando a denominada “via verde” para o cancro do pulmão uma das mais recentes estratégias dos centros nacionais de tratamento de cancro do pulmão de desenvolver e optimizar os seus recursos. O objectivo, sobretudo nos doentes que podem ser submetidos a terapêuticas potencialmente curativas (nomeadamente a cirurgia), é diminuir o tempo desde a suspeição de cancro de pulmão até à alta clínica após cirurgia. Na prática, pretende-se uma meta de 30 dias desde a deteção de um nódulo pulmonar suspeito, à realização de uma biópsia pulmonar diagnóstica, passando pelo estadiamento da doença até à cirurgia e alta clínica deste procedimento. Este processo permitirá ganhar tempo e resgatar muitos doentes para um tratamento radical. Actualmente o esforço de realizar cada um deste passos de forma mais célere possível é a luta dos profissionais no dia-a-dia, sendo cada vez mais optimizado e acelerado diariamente.

A mensagem a deixar é de esperança na luta contra o cancro do pulmão. Os três passos fundamentais para extinguir este pesado inimigo estão identificados: prevenir com evicção tabágica, diagnosticar precocemente e tratar cedo com o melhor que temos para oferecer.

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