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A Covid também afectou a contracepção?

“Das questões familiares às laborais, todos nós já ouvimos ou proferimos mais do que uma vez a expressão “pois, isto agora é só COVID…”

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Por: Diana Martins, Médica Especialista de Ginecologia e Obstetrícia

É geral esta sensação de total invasão da nossa vida pelo vírus causador da actual pandemia: das questões familiares às laborais, todos nós já ouvimos ou proferimos mais do que uma vez a expressão “pois, isto agora é só COVID…”

Quando falamos da saúde da mulher essa influência parece menos evidente, afinal os ciclos continuam, a fertilidade e a falta dela não são directamente influenciados por esta situação e parecia haver condições para ser mantida a normalidade. No entanto, o medo de consultar um médico foi geral e sobrepôs-se muitas vezes à própria indisponibilidade dos profissionais, que no entanto também adiaram procedimentos e consultas de “rotina ”em detrimento de novas necessidades.

Mas as dúvidas e problemas das mulheres mantiveram-se ou até aumentaram. Assim como aumentou também a procura autónoma de informação, o auto esclarecimento com base em fontes digitais e aplicações ou por vezes a invasão da nossa própria casa com “lives” e directos que levantam questões que achávamos sequer não ter.

Esta mudança é positiva e vem instalar-se de forma definitiva nas nossas vidas. Existem cada vez mais aplicações que permitem controlar o período hemorrágico, período fértil, nutrição, exercício físico, gravidez, entre muitas outras. O projecto www.descomplica.pt que se desenvolve no site e instagram ou o site da Associação para o Planeamento Familiar são fontes seguras de informação importante nesta área. Mas apesar da variedade de sites, apps e ferramentas, estas não devem no entanto ser considerada as únicas ou sequer as principais fontes no esclarecimento de situações de saúde, muito menos da contracepção. Porquê? Porque à semelhança de tantas áreas da saúde, desporto ou nutrição, as recomendações contraceptivas raramente são universais e adaptadas a todos e requerem avaliações individuais de indicações, factores de risco, etc.

A consulta de planeamento familiar é desafiante, variável e muitas vezes imprevisível: Em primeiro lugar o sujeito da consulta raramente é “o doente” mas sim a mulher jovem, saudável, com questões sobre a sua saúde, as suas relações e a forma como a contracepção as poderá afectar. São consultas que raramente se baseiam em resolver um problema de saúde, antes pelo contrário, tentamos suprimir uma função normal e fisiológica. E isso desperta nas mulheres medos e receios não desprezíveis, dos quais muitas vezes nem as próprias têm noção e que só na conversa dirigida da consulta são colocadas e podem ser esclarecidas: o medo dos químicos, o medo das hormonas, a tendência para o natural, o medo da infertilidade e do cancro são as questões mais actuais. Todas eles com razão de ser, escondem no entanto uma dificuldade inerente em percebermos ou decidirmos o que é melhor para nós em cada momento: ‘Eu prefiro o natural. Mas o natural é engravidar em cada ciclo, havendo relações. Isso é o melhor para mim? Isso é o que eu prefiro? Prefiro então evitar as relações? Ou perceber as alternativas?’ ; ‘A minha tia-avó teve cancro da mama aos 87 anos. Eu não quero ter o mesmo risco, vou parar a pílula. Estarei correcta? Mas ela aos 87 anos já não tinha este problema…’; ‘Hormonas, detesto hormonas, não quero. Ah engravidei….. taaaantas hormonas, socorro!’

Actualmente, existem muitas opções contraceptivas disponíveis e por isso é importante que haja conhecimento para que a escolha seja feita de forma informada. A acompanhar os clássicos pílula e preservativo, surgiram o sistema intrauterino hormonal (SIU), DIU, implante, injectável, adesivo ou anel vaginal.

O maior desafio das consultas de planeamento familiar é mesmo não sabermos, nem nós médicos, nem a mulher, onde é que “aquilo” vai parar. A conversa começa, flui, e com ela são expostos os medos, os riscos, os efeitos secundários já experimentados noutras situações e na nossa cabeça vai-se desenhando uma árvore de decisão que chega por fim a uma sugestão. E o mais giro? Nem sempre é a mesma que a mulher escolhe, quando não poucas vezes aquela mulher moderna e arrojada revela desconforto na colocação de um anel intravaginal ou a outra mais conservadora que nos pareceu que iria optar pelo “que já conhecia” escolhe um sistema intra-uterino com a liberdade e segurança que isso lhe traz… É esta adaptação que é difícil ser substituída pelo digital. Por isso importa que o médico continue lá, separado por uma máscara e viseira, mas à curta distância das necessidades da mulher.

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