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Nómadas digitais: O teletrabalho por opção própria está na moda

Fazem frente aos horários fixos, aos escritórios e às limitações a viajar. Em alternativa, escolhem um caminho profissional, e de vida, sem fronteiras.

Dora Matos, a trabalhar no Vietname

Acabar com ideias preconcebidas e encontrar o trabalho perfeito ao seu estilo de vida. Sem morada fixa ou outras limitações físicas. Esta é uma ideia que tem vindo a ganhar cada vez mais adeptos que tomam a opção de adaptar o trabalho ao seu quotidiano e não ao contrário.

São os chamados nómadas digitais. Um conceito cada vez mais comum e a que até os hotéis se adaptam. São muitos os hóspedes que não veem propriamente em férias. Ainda que aproveitar o destino a visitar seja um grande bónus de quem leva este tipo de trabalho.

Madeira: destino de excelência para nómadas digitais

A ilha da Madeira surge como promissora escolha para quem quer mudar de ares, mesmo em horário laboral. Prova disto é a Startup Madeira, entidade com quase 25 anos de existência criada para ajudar a comunidade como um todo, a nível de empreendedorismo também. Ao aperceberem-se de que os nómadas digitais eram uma promissora aposta para fazer crescer a região, a startup lançou um projeto-piloto, o Digital Nomads Madeira Island que visa apoiar estes nómadas que cheguem à ilha.

“Somos facilitadores. Não pretendemos ganhar dinheiro. O nosso objetivo é apenas fazer crescer a Madeira” diz à Women’s Health Carlos Lopes, CEO da referida startup, que nos explica que o projeto – em versão piloto – foi lançado a 1 de fevereiro e durará até junho. Neste período, esperam conhecer as necessidades de quem os procura, com um serviço que pretende criar as melhores condições de trabalho a toda a comunidade. Em suma, “damos apoio através de serviços que os turistas não precisam”, desde questões burocráticas como o visto para chegar à Madeira ou as limitações de controlo à Covid-19 a questões mais práticas, como indicar um cabeleireiro. Afinal, estes trabalhadores ficam em média 3 a 4 meses na ilha, e o mais importante é que se sintam em casa.

“Somos facilitadores. Não pretendemos ganhar dinheiro. O nosso objetivo é apenas fazer crescer a Madeira”

O certo é que desde que o projeto já foi alvo de muita procura desde que abriu candidaturas, no final de novembro (não é obrigatório candidatar-se para ser nómada digital na Madeira, mas deve faze-lo se quer receber o apoio). Até ao final do ano passado, contabilizava-se mais de 4.000 os inscritos.

 

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O hotel 1905 Zino’s Palace é um dos muitos alojamentos na Madeira que se tornou parceiro da startup, para receber nómadas digitais. Com as portas abertas há pouco mais de um ano, não contam com um histórico deste tipo de hóspedes para nos apontas, mas sabem que esta é uma tendência crescente e que por isso “faz todo o sentido ter este serviço”, dizem-nos os responsáveis de comunicação daquele hotel.

E a tendência não se fica pela região madeirense. O Aldeia dos Capuchos (Almada), You and the sea (Ericeira), Czar Lisbon Hotel (Lisboa), Placid Viilage (Carvoeiro) ou (Algarve Race Resort (Portimão) são outros hotéis geridos pela Amazing Evolution, com quem a Women’s Health falou, que contam com programas especiais para este tipo de trabalhadores. Com a estadia mínima obrigatória de 15 noites, as condições especiais para os nómadas digitais passam por descontos na estadia, restaurante ou serviço e acesso gratuito ao ginásio, por exemplo.

“Ser freelancer traz essa vantagem gigante de poder trabalhar em qualquer lado”

As escolhas são muitas mas, apesar da oferta, o certo é que para ser nómada digital, não tem de se cingir a hotéis. Para Raquel Graça, a escolha foi uma casa alugada na ilha Terceira, nos Açores. É designer há 12 anos e trabalha como freelancer na área do branding e do design editorial. Juntamente com um amigo – agora à distância, já que ele ficou no Porto –

Antes de ser freelancer, passou por dois gabinetes – em Barcelona e no Porto. Mas “ser freelancer trazia essa vantagem gigante de poder trabalhar em qualquer lado. Esse foi um dos motivos que me fez gostar de o ser. Na altura não sonhava com a mudança para uma ilha. Pensava só no bom que era poder trabalhar em casa, no café da esquina ou na esplanada à beira mar”, conta-nos, justificando a sua escolha por não se identificar com ambientes onde o trabalho acontece fechado num gabinete, com horários a cumprir e “a mesma cadeira todos os dias”. Anos antes, “o sonho era criar o meu emprego e não ter de trabalhar para ninguém. Mas sempre achei que para o conseguir precisaria de toda uma estrutura fixa e equipa que me acompanhasse”.

Raquel Graça na sua casa, em Angra do Heroísmo, Terceira, com vista para o Monte Brasil
Não tinha por que não mudar de morada quando bem lhe apetecesse

Felizmente, enganou-se. Mas a mudança, até ao seu trabalho ideal, não foi repentina. “Fui dizendo que não a tudo o que não queria, de forma cada vez mais pragmática. Mas ainda com a esperança de encontrar um emprego que me enchesse as medidas. Enquanto ele não aparecia ia fazendo umas coisas e desenvolvendo projetos pessoais e quando percebi estava completamente dedicada a tudo isso e sem motivos para procurar outro trabalho”.

Com tal mudança gradual, não tinha por que não mudar de morada quando bem lhe apetecesse. Algo que aconteceu recentemente, com a desculpa de “fugir de um meio urbano” já adivinhando um novo confinamento. “Eu vivo há 11 anos no Porto, adoro a minha cidade, mas estar nos Açores nesta altura tem sido um escape a tudo o que está a acontecer. Há menos pessoas, menos perigo, mais liberdade para circular e passear. Acho difícil alguém vir cá e não se imaginar a ficar um bocadinho mais”, garante a designer.

“Esta é a minha primeira experiência. Estou muito feliz por perceber que é possível trabalhar em qualquer parte do mundo. Preciso sentir que sou livre, várias vezes ao dia”

A ida para os Açores foi a sua primeira experiência que a aproxima de uma nómada digital. Na verdade, “ainda me faltam umas voltas valentes para me considerar uma nómada digital. Penso sempre num nómada digital como aquela pessoa que anda de um lado para o outro, passa por vários países e não tem grande interesse em voltar a casa.

Esta é a minha primeira experiência e só sei que estou muito feliz por perceber que é possível trabalhar em qualquer parte do mundo. Preciso sentir que sou livre várias vezes ao dia, em vários contextos. Ter esta possibilidade só faz com que me sinta mais feliz e realizada com o meu trabalho”, alega. Sem planos para sair da ilha ou escolher uma outra ‘cadeira’ onde teletrabalhar, para já, Raquel sente-se feliz com a sua mudança, a sua escolha, e garante que, no seu caso, a mudança física pouco alterou a sua forma de trabalhar.

Quando “o portátil já faz parte da mochila”

Dora Matos, 30 anos, é uma nómada digital assumida, que trabalha como Health Coach através do site homónimo. A morada da sede deste seu projeto? Ela própria. “Se não fosse o Covid-19, neste momento estava na Ásia”, diz-nos quando a contatámos para entrevista.

Embora já tenha passado pela experiência de trabalhos mais tradicionais, como jornalista, gestora de redes sociais ou professora, a vontade de trabalhar pelo mundo, a “criar novas ideias de projetos” sempre existiu e cresceu na Roménia, onde trabalhou 4 meses, num projeto de voluntariado sobre a promoção do uso da bicicleta nas cidades.

Mas tal como aconteceu com Raquel, a mudança foi gradual. O gosto pelo estilo de vida ativo e saudável levou-a a criar o blog doramatos.com que foi ganhando dimensão até se tornar a sua profissão a tempo inteiro. Um crescimento que levou a que hoje mesmo o blog passasse a site. “Um serviço de assessoramento integral para o bem-estar pessoal”, onde é Health Coach e trabalha com outros profissionais da área da saúde, desporto e bem-estar, diz-nos, orgulhosa desta evolução.

Dora Matos em Bali

E porque este é um trabalho que não obriga a escritório fixo, trabalha no espaço que aluga a cada viagem (casa ou quarto), algum café ou espaço de coworking. E esta é uma gestão já super intrínseca para Dora. “Se for numa altura de muito trabalho, alugamos um Aribnb durante mais dias para estarmos focados no trabalho. Aconteceu várias vezes, no Equador, no Brasil, na Malásia, no Chile…”.

“Não posso falar do futuro, mas sei que neste momento quero trabalhar sem obrigações de espaço e morada”

Esta ideia de não estar num mesmo lugar por muito tempo fez crescer o gosto pelas viagens. Algo que lhe deu a conhecer um outro lado seu, o que necessita de constante movimento e conhecimento. “Agora tenho a certeza que quero esta liberdade durante muito tempo. Não posso falar do futuro, mas sei que neste momento quero trabalhar sem obrigações de espaço e morada. É assim que sou feliz”, garante.

Outra certeza que Dora Matos tem é que temos de fazer aquilo que gostamos. “Seja a trabalhar para nós ou por conta de outrém. Penso que essa é a base de qualquer trabalho. Pode não ser fácil, no início, saber o que queremos fazer. Até porque a nossa educação está muito direcionada para trabalhar para outra pessoa”.

Mas quando a mudança acontece, uma maior liberdade apodera-se do indivíduo. O certo é que a mudança não acontece da noite para o dia só porque decidimos deixar um determinado emprego. Há que “ter confiança, trabalhar muito e evitar o excesso de expetativas”, aponta Dora. Com isto em mente, o que acha sobre experimentar o nomadismo digital?

Se receia a falta de estabilidade e o desconhecido… avance!

Assim aconselha Raquel que alega que, atualmente, a estabilidade profissional é uma ilusão. “A vida é uma constante mudança, e cada vez mais rápida. Tanto em termos profissionais como afetivos”, diz aconselhando a que estejamos “preparados para não controlar muito, aceitar o que vai acontecendo e reagir”. “Se têm um perfil que permita organizarem-se sozinhos, à vontade para desempenhar várias funções quando necessário, são proativos e capazes de repensar o modelo de trabalho para crescer profissionalmente e adaptarem-se às mudanças que acontecem lá fora?” Então, podem acreditar e fazer acontecer, diz-nos a designer diretamente da ilha Terceira.

“Os imprevistos vão sempre existir”, realça Dora. Por isso, há que arriscar! “Como eu costumo dizer: ser empreendedor é uma atitude. Devemos assumir o comando do barco e guiá-lo na direção que queremos. Acho que quando trabalhamos para nós tomamos mais consciência da nossa responsabilidade. Deixamos de atribuir a culpa aos outros por aquilo que nos acontece. Somos inteiramente responsáveis por aquilo que nos acontece e pelo rumo do nosso negócio”. Uma consciência que levará qualquer a crescer profissional e pessoalmente.

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