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Marta Pen: “Existe a ideia de que há desportos que são só para homens”

A atleta de corrida de média distância falou com a WH sobre o seu caminho no atletismo e a relação com o seu corpo.

Tem 28 anos foi finalista europeia duas vezes e chegou às semifinais da prova de 1500 metros nos Jogos Olímpicos de 2020. Poderíamos continuar a enumerar a lista de títulos de Marta Pen que se apaixonou pelo Atletismo através do desporto escolar. “Inicialmente quando eu disse à minha família que estava a praticar Atletismo na escola, o meu pai achava que este desporto não era para meninas. Mas depois acabou por me ver a correr e começou a apoiar-me imenso. Nós pensámos sempre que são os nossos pais que acabam por nos educar e a introduzir-nos no desporto e, às vezes, é ao contrário – somos nós que acabamos por trazer o desporto para casa e a sensibilizar os nossos pais”, explica a atleta à WH.

Além do Atletismo, Marta sempre quis estudar. Começou por um curso de Fisioterapia, mas acabou por mudar para Gestão de Empresas já nos Estados Unidos. “Na altura, eu estava em Fisioterapia e sentia que estava a ser muito difícil conciliar os dois mundos. Os Estados Unidos acabaram por ser uma plataforma muito boa para conseguir fazer as duas coisas bem-feitas. Aqui em Portugal eu sentia que ia ser ou uma atleta medíocre porque não conseguia investir o tempo suficiente no desporto ou uma terapeuta medíocre, e eu não queria isso para mim”, diz. Esta mudança de país acabou por trazer à Marta aquilo que ela desejava: ir aos Jogos Olímpicos em 2016, ser campeã da liga universitária dos Estados Unidos e continuar a estudar.

“Investir na nossa paixão às vezes é um pouco esquisito, porque na altura era um long shot ir aos Jogos Olímpicos, mas vale sempre a pena”. Passados dois anos, a atleta começou a dedicar-se unicamente ao Atletismo e deparou-se com os sacrifícios que tinha pela frente. “Os atletas falam muito em sacrifícios que acabam por ser escolhas, pois nunca podemos estar em dois sítios ao mesmo tempo. Essas escolhas começam logo desde muito cedo, desde coisas simples como não ir à viagem de finalistas, como perder casamentos e agora não ver a minha mãe a envelhecer. É preciso um investimento grande, mas quando as coisas valem a pena, não são só sacrifícios, é o que é”, explica.

Ser a própria equipa

Questionada sobre o que mais a fascina nesta modalidade, Marta Pen diz-nos que é a possibilidade de se desafiar a si própria de uma forma constante e de ser melhor do que aquilo que já foi. “Às vezes é difícil conseguirmos medalhas no atletismo, porque para além de termos de ser a nossa melhor versão, essa tem de ser melhor do que a versão dos outros. O que me permite de alguma forma ter uma narrativa positiva no meu percurso, ou seja, eu estou a investir a minha vida no atletismo e, neste momento, o meu grande objetivo é ganhar medalhas internacionais, mas se souber que fiz o melhor que podia com aquilo que tinha, eu posso ter essa oportunidade de contar uma narrativa positiva em que passei a minha vida a melhorar-me. Acho que isto é uma vantagem ao mesmo tempo que é uma desvantagem, porque quando ganhas és tu que levantas a taça, mas quando estás na fisioterapia lesionada és tu que estás lá sozinha – tu és a equipa”, explica.

A relação com o seu corpo

“Eu tenho flutuações de peso significativas e no espelho nota-se bastante, mas faz parte de todo o processo. O corpo muda e não está relacionado com a alimentação, mas com a exigência do exercício físico”, explica. Em relação à alimentação, a atleta diz seguir o equilíbrio e apesar de ter alguns cuidados também tem a flexibilidade necessária para não ter de estar a pensar constantemente na comida que vai comer.

“Há alturas do ano em que tenho de ser 300% atleta, não vejo o meu marido, não janto fora e não saio de casa. Mas é importante que em outras alturas eu esteja mais descontraída e possa ir comer uma pizza sem que me sinta culpada”, diz a atleta explicando que o peso não tem tanta importância comparando com os nutrientes que necessita para obter uma boa performance.

O foco no processo

“Às vezes estamos tão focados no objetivo que acabamos por nos esquecer do processo, mas este acaba por ser o mais importante e quando estamos focados nele os resultados acabam por aparecer”, diz-nos em tom de conselho para as mulheres que querem começar a praticar ou já praticam este tipo de modalidade. “Ainda existe a ideia de que alguns desportos são mais focados para os homens do que para mulheres e isso é uma parvoíce. O atletismo português durante os últimos anos é muito mais forte do lado feminino do que do lado masculino. Por isso, os meus conselhos são: continuem a trabalhar e foquem-se no processo”.

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