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Maria Lobo: “Num evento se existirem 10 combates, apenas um é de mulheres”

A atleta de Muay Thai falou com a WH sobre o seu percurso na modalidade e a relação com o seu corpo.

Lisboa, 06/10/2021 - Maria Lobo, atleta de Muay Thai. (Leonardo Negrão / Global Imagens)

Maria Lobo começou no Muay Thai aos 13 anos, mas não foi por paixão. “Foram os meus pais que me inscreveram, porque na altura a violência nas escolas estava a aumentar e eles queriam que eu me soubesse defender. Nessa altura fugia sempre para o Judo, mas depois os meus amigos entraram todos para a faculdade e eu fiquei sem amigos no Judo e fui experimentar Muay Thai e a paixão por esta modalidade veio a seguir ao primeiro combate aos 17 anos”, diz a atleta.

Depois de ter terminado a licenciatura em Design de Comunicação, Maria pediu aos pais um ano sabático para praticar Muay Thai e foi a partir daí que começou a sua jornada. “Os meus pais ainda hoje gozam comigo porque dizem que esse ano sabático nunca acabou. Foi a partir daqui que decidi que queria ser lutadora profissional, o que era algo totalmente alternativo, ainda mais para mulheres. Infelizmente, neste desporto ainda se sente muita desigualdade entre homens e mulheres. Tanto que num evento se existirem 10 combates, apenas um é de mulheres”, conta.

Desde que começou o seu caminho nesta modalidade, Maria Lobo já foi cinco vezes campeã mundial, foi a primeira portuguesa a participar no Muay Thai Angels (um torneio que é apenas para mulheres), foi campeã da europa, a primeira a assinar um contrato com a Glory que é umas das maiores organizações deste desporto de combate, e a primeira portuguesa a ser selecionada para os World Games que é equiparado aos Jogos Olímpicos das modalidades não olímpicas.

As mulheres e o Muay Thai

Maria Lobo diz nunca ter sentido discriminação neste desporto por ser mulher e explica que às vezes existe alguma tensão inicial nos treinos com homens por estes terem medo de magoar as mulheres, mas que à medida que o treino desenvolve percebem que podem treinar todos à vontade uns com os outros. No entanto, Maria considera que ainda existe muita desigualdade salarial entre homens e mulheres nesta modalidade. “Nós recebemos cinco ou seis vezes menos do que um homem. “Por exemplo, eu e mais dois rapazes somos os grandes profissionais da equipa, aqueles que estamos em grandes organizações, e eles conseguem viver disto e eu se vivesse apenas do Muay Thai não me conseguia sustentar. E combato tantas vezes como eles combatem, penso que está apenas relacionado com o facto de eu ser mulher”, explica a Maria Lobo.

Lisboa, 06/10/2021 – Maria Lobo, atleta de Muay Thai.
(Leonardo Negrão / Global Imagens)

Uma ferramenta de empoderamento

Maria Lobo diz que nesta modalidade sente que pode superar os seus limites e ganhar autoconfiança. “Eu acho que o Muay Thai é muito mais do que um desporto, é algo que depois podes transpor para a vida, porque te dá confiança, mostra que tu és capaz, que os limites se calhar não são aqueles que tu achavas que eram e também te transmite autoconfiança e espírito de grupo. Quando subimos ao ringue, subimos sozinhos, mas por trás houve um grande trabalho de equipa, porque nós precisamos dos nossos colegas para treinar. Quando estamos em dieta e quase já não conseguimos mexer o corpo são eles que nos dizem: ‘bora tu consegues’, explica. Maria Lobo diz que sem este espírito não conseguiria estar sozinha em cima de um ringue e que o Muay Thai é muito mais do que uma modalidade individual. Outra das coisas que a fascina nesta modalidade é o facto de existirem muitas classes sociais e diferentes profissões. “Temos um grande filósofo que é um professor catedrático que treina aqui connosco e é ainda um dos poucos que traduz grego antigo na europa. O ambiente é super diversificado, o que nos traz uma grande abrangência de pontos de vista e é ótimo para quebrarmos estereótipos”, diz.

Relação com o seu corpo

“Eu sempre fui maria rapaz e sempre gostei de ver uma mulher mais musculada do que uma mais magrinha, então lidei muito bem com a transformação do meu corpo, porque alcancei aquilo que queria. Na verdade, o que é um corpo feminino? Um corpo feminino é o corpo de uma mulher. É importante aceitarmos isso”, explica. Maria diz sempre ter admirado mulheres mais musculadas e que há alturas na sua carreira que sente que está mais pesada ou menos definida e que mesmo assim continua a aceitar o seu corpo. “Foi o meu corpo que me permitiu chegar onde cheguei na minha carreira e é ele que me permite fazer tudo aquilo que eu faço. É o meu templo, porque é que vou desrespeitá-lo ou vou olhar para ele com desdém se ele me permite fazer aquilo que eu quero?”, questiona.

Conselhos para as mulheres

Se gostava de praticar Muay Thai o conselho de Maria Lobo é que experimente e que não tenha preconceitos. Na opinião da atleta, as pessoas consideram este tipo de desporto como sendo muito violento, mas depois de experimentarem veem que está muito longe dessa ideia. “Apesar de ter começado por ser para homens, isto não é um desporto apenas para eles. Nós temos tanto direito a este desporto como os homens têm e cada vez mais mostramos que somos tão capazes ou mais de fazer o mesmo que eles. Venham quebrar este estereótipo. Isto não é uma coisa violenta, mas exigente”, diz.

 

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