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A portuguesa que corre pelo mundo para ajudar os outros

O desporto nunca fez parte da vida de Maria Conceição, até ao dia em que se tornou aliado para dar um futuro de qualidade às crianças do Bangladesh

Maria Conceição
Créditos: Fundação Maria Cristina

“Provavelmente foi a coisa mais corajosa que alguma vez fiz. Desistir de um trabalho de sonho para ir ajudar os outros. Mas era algo em que eu acreditava”. Maria Conceição tinha aquilo a que os amigos e a família chamavam de emprego estável e seguro. Era assistente de bordo de uma das maiores companhias aéreas do mundo, a Emirates Airlines, vivei na Suíça e na Inglaterra, viajava com frequência, conhecia pessoas dos quatro cantos do globo. Mas um dia, depois de oito anos a voar, despediu-se para ajudar crianças que não conhecia, mas que agora fazem parte da sua família e das suas prioridades.

“Os meus irmãos e as minhas irmãs achavam que eu era louca. Eu tinha tido sorte ao conseguir um emprego tão bom, considerando minha educação e experiência de trabalho prévia. O meu parceiro da época e os meus amigos também criticaram a minha decisão”. Mas isso jamais seria um entrave. Nem tão pouco o facto de nunca ter praticado desporto. Apesar de continuar a assumir que não morre de amores pelo exercício físico, a portuguesa de 40 anos, natural de Vila Franca de Xira rendeu-se ao impacto que as provas desportivas podem ter na angariação de fundos e usa-as para conseguir dar continuidade ao seu trabalho e para se desafiar – e superar – a si mesma.

Tudo começou em abril de 2005. Maria tinha 27 anos, trabalhava há dois na Emirates, e voou para a capital do Bangladesh pela primeira vez. “É muito fácil ver pobreza em Dhaka, está em todo o lado. Mas o que eu vi, mais do que tudo, era tanto potencial desperdiçado, crianças criativas e brilhantes que nem sabiam o que era uma escola. Fiz questão de visitar essas comunidades na minha primeira viagem. Senti que se pudesse fazer uma pequena diferença nas suas vidas, ajudando-as, então já valeria a pena”. Foi aí que tudo começou.

Depois de passar 24 horas em Dhaka, regressou ao Dubai, onde ainda vive, com uma ideia em mente: ajudar aquelas crianças de alguma forma. Em prol da educação, saúde, bem-estar e desenvolvimento da população local, queria fazer alguma coisa. Meter mãos à obra. E precisou de apenas um mês para começar a maior aventura da sua vida. Começou por vender objetos pessoais, pediu a amigos que também o fizessem e recolheu donativos em dinheiro, roupa, produtos de higiene e alimentação junto de pessoas e empresas no Dubai. Quando podia, voltava à capital do Bangladesh para entregar às famílias locais tudo o que tinha conseguido, dando o apoio básico e essencial que tanto escasseava. “Solicitava à Emirates os voos com paragem em Dhaka, o que era um pouco fora do comum porque a maioria dos funcionários preferia os destinos mais luxuosos”, diz a ex-hospedeira.

 

O nascimento da fundação

À medida que se ia dedicando mais e mais à população local, a portuguesa conseguiu “obter mais financiamento” junto de amigos e empresas e ajudar a colocar as crianças na escola. “Mas as escolas locais eram terríveis e as crianças não estavam a aprender nada”. Então decidiu dar mais um passo em frente e criou uma escola privada, cujos professores foram contratados com algum do dinheiro até então obtido. “Começou com apenas 39 crianças, era uma nova comunidade de favelas muito pequenas, mas os números cresceram rapidamente”.

Em julho de 2005 nascia, assim, a primeira escola da Fundação Maria Cristina (FMC), a instituição que criou nesse ano. O nome é uma homenagem à mãe adotiva, Maria Cristina Matos.

Mas o grande objetivo de Maria não passava, apenas, por incluir a educação na vida das crianças. Beneficiando dos bons tempos da economia do Dubai e uma vez que alguns dos cuidados mais básicos escasseavam, a Fundação angariou dinheiro que permitiu melhorar “as habitações e o sistema sanitário” e instalar um centro de saúde, até mesmo um dentista.

Apesar de as crianças serem o foco principal do trabalho da Fundação Maria Cristina, o objetivo passou sempre por melhorar a qualidade de vida dos habitantes de Dhaka, incluindo a dos adultos, que nem sempre percebem o porquê desta mudança drástica de vida. O porquê de estar a apostar num futuro que não era o dela. “Uma vez que melhoramos as suas condições básicas de vida, começamos com outras valências, como educação, formação de adultos, mas a partir de certa altura começaram a perguntar por que os estávamos a ajudar. Não entendiam os benefícios da educação, porque até mesmo os pais nunca tinham ido à escola. Demorou muito tempo para construir a confiança da população e fazê-los entender que era o melhor para eles”.

Durante seis anos, as viagens entre o Dubai e Dhaka sucediam-se e toda a atenção estava cada vez mais centrada na conquista do bem-estar da população. “Até que chegou a um ponto em que era demasiado trabalhar na fundação e na Emirates Airlines e fui parar ao hospital com exaustão”. E foi aí que tomou a decisão. Queria dedicar-se (ainda mais) de corpo e alma àquele que é o seu projeto de vida. “No início de 2011, ao fim de oito anos na Emirates, deixei a empresa. Já não conseguia mais. Foram tantas as dificuldades. Todos os dias era alguma coisa nova. E até mesmo hoje nunca parece ser mais fácil”.

 

Da primeira (e inesperada) prova aos recordes do Guinness

Mas o grande obstáculo do trabalho de Maria – e de todos os seus apoiantes nesta jornada – sempre foi (e continua a ser) o dinheiro. Conseguir ter dinheiro suficiente para dar continuidade a este trabalho. “A educação é um projeto de muito longo prazo, 12 anos para a maioria das crianças e todos os anos as contas persistem. Nos primeiros dias não era um problema, o projeto era bem conhecido no Dubai e a Emirates Airlines também ajudava”. Mas entretanto veio a crise financeira e os efeitos fizeram-se sentir por todo o mundo. “Quando a recessão chegou, os patrocinadores pararam de apoiar e lutamos todos os anos desde então. Fomos gradualmente ficando sem dinheiro e tive que encontrar uma maneira mais pró-ativa de aumentar a conscientização e financiamento. Fiz uma pesquisa no Google sobre a maneira mais fácil de angariar fundos para caridade e encontrei uma história sobre uma viagem ao Polo Norte que arrecadou muito dinheiro. E foi aí que tudo começou”. Foi assim que o desporto entrou na vida de Maria.

Apesar de não ser uma amante confessa de exercício físico, Maria encontrou nas provas uma forma (nem sempre eficaz) de angariar dinheiro para o projeto. Com o corpo nada habituado, fez da força mental o pilar do sucesso. Mas foi preciso fazer mais: Começou por procurar personal trainers, nutricionistas e especialistas online que estivessem dispostos a ajudá-la. Hoje em dia, treina todos os dias, adaptando-se sempre ao desafio físico que se segue.

O currículo de provas foi aumentando. Completou sete maratonas em sete continentes em apenas dez dias e sete ultramaratonas em sete dias. Também já correu cinco maratonas em cinco dias em cinco estados dos EUA e sete maratonas nos sete emirados dos Emirados Árabes Unidos. A Ironman é uma das provas mais desgastantes do mundo do desporto – junta 3,8 quilómetros de natação, 180 quilómetros de ciclismo e uma maratona completa –, mas esta atleta filantropa já completou sete. E todas no mesmo ano. Ao todo, Maria Conceição tem já o seu nome em oito recordes do Guinness! O próximo desafio físico extremo será o de escalar, em junho deste ano, os 6.190 metros do Monte Denali, a montanha mais alta dos EUA.

Maria Conceição escalou em 2010 o Kilimanjaro, fez em 2011 uma caminhada ao Polo Norte e foi a primeira e única portuguesa a chegar ao Polo Sul [em janeiro deste ano] e foi também a primeira e única mulher portuguesa a atingir o pico do Monte Evereste, em maio de 2013. Neste desafio, conseguiu angariar 50 mil dólares (cerca de 40 mil euros), mas o valor que consegue em cada prova nunca é o mesmo e depende sempre de patrocinadores e até mesmo da divulgação que o evento tem.

Nenhuma destas provas “permite angariar tanto quanto gostaria, mas é o suficiente para manter o programa de educação escolar”, onde estão atualmente 125 crianças, todas para completar os estudos até ao 12º ano, caminho para o qual ainda faltam cerca de 116 mil euros.

“Quando faço esses desafios, geralmente recebo boa publicidade e atenção dos media, embora nem sempre, para que eu possa contar a história da Fundação. Isso leva a um aumento no apoio e geralmente vemos um aumento nas doações. Mas o ímpeto morre rapidamente e é realmente difícil encontrar maneiras de manter a sustentabilidade da fundação”. O desporto é a forma mais eficaz que tem de passar a mensagem, de se levar ao limite para alcançar o objetivo a que se propôs: educar as crianças de Daca e melhorar a qualidade de vida de quem lá habita. Mas é um desafio constante.

 

Um caminho de obstáculos transformado em conquistas

Uma vez que o exercício físico não era presença frequente no estilo de vida de Maria, nos primeiros tempos de corrida a progressão foi muito rápida, mas as lesões começaram a surgir. Hoje segue as indicações de um treinador à distância, online, Ben Barwick, que a ajuda a concentrar-se na qualidade do treino – e não na quantidade – e isso tem-na ajudado a superar os desafios. Segue sempre o mesmo padrão, independentemente da prova, mas, depois de decidir cada novo objetivo, define a data e encontro uma maneira de se preparar. “Tenho sempre tempo limitado porque geralmente faço um desafio a cada ano para aumentar os fundos necessários. Para o Evereste, por exemplo, recomendaram-me um programa de treino e preparação de dois anos, mas tive que fazer tudo num ano. Além disso, não me concentrei unicamente em fazer esses desafios, pois o meu principal trabalho/foco ainda é gerir o programa da Fundação Maria Cristina a tempo integral”.

Em 13 anos, a Fundação Maria Cristina ajudou crianças e adultos de 101 famílias. “No total educamos 600 crianças. Colocamos os adultos em empregos socialmente conceituados e temos estudantes com bolsas universitárias em vários países por todo o mundo”. Mas há ainda muito para fazer: “Temos 125 crianças do projeto comunitário original na escola; agora só quero garantir a sua educação. Então, teremos educado toda uma geração dessa comunidade, todos terão um futuro muito melhor com mais oportunidades, serão capazes de apoiar as suas famílias, enviar os filhos para a escola e, assim, quebrar o ciclo da pobreza. Esperemos que, pelo menos, alguns ajudem a ajudar outras comunidades”.

Mas para que tudo isto seja possível, é preciso ultrapassar um obstáculo de cada vez. E Maria já derrubou uns quantos… mesmo sabendo que outros estão no caminho.

 

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