Menu
Inicio Saúde “Mais do que menstruação, precisamos de falar sobre o ciclo menstrual”

“Mais do que menstruação, precisamos de falar sobre o ciclo menstrual”

Patrícia Lemos é educadora menstrual e para a fertilidade e conversou com a Women’s Health sobre a falta de conhecimento da mulher – e da sociedade – sobre o ciclo menstrual. E não só.

“Mais do que falar de menstruação, precisamos de falar sobre o ciclo menstrual”
Pexels

Assunto tabu em muitas casas e um não assunto em outras tantas, a menstruação continua a ser um bicho-de-sete-cabeças para uma boa parte das mulheres em todo o mundo, mesmo sabendo que é algo que não aparece e desaparece do nada, que as acompanha ao longo de várias décadas e que, na verdade, pode dizer muito sobre o estado de saúde. Mas, porque é que há tanto secretismo na hora de falar sobre a menstruação? Porque, antes de mais, temos sido educadas a não falar do tema, a sussurrar entre os dentes as palavras ‘período’ e ‘menstruação’ ou a usar trocadilhos para não dizer estas duas palavras, como se de algo maléfico se estivesse a falar.

“Essa tem sido a minha questão desde sempre: porque é que não falamos sobre isto? Porque é que não falamos de forma aberta sobre isto? Porque falar, falamos, mas falamos em círculos ou circuitos ainda muito fechados e temos pouca informação atualizada em termos circulantes, ou seja, aquilo que corre entre amigas, entre as mães e filhas, pelas aulas de biologia e ciência é informação que precisa de ser atualizada de acordo com aquilo que é o conhecimento que está disponível ao dia de hoje, com aquilo que são as novas recomendações”, começa por nos dizer Patricia Lemos, educadora é educadora menstrual e para a fertilidade e autora da página Círculo Perfeito, que conta já com mais de 55 mil seguidores no Instagram.

Quanto questionada sobre o porquê de se especializar em algo até então desvalorizado por muitos, Patrícia responde que esse foi mesmo um dos motivos, acabar com o desinteresse que, por consequência, leva à desinformação: “durante este trabalho que começo a perceber que há um desconhecimento generalizado relativamente às questões do ciclo”. Tal desconhecimento deve-se, em parte, à informação disponível, que além de escassa, nem sempre é atual ou fácil de compreender. “A informação que está circulante e disponível é uma informação obsoleta e que tem a ver com estas ideias que a evidência científica já deixou cair”, explica-nos.

Em conversa com a Women’s Health a propósito do seu novo livro Não É Só Sangue, editado pela Influência, Patrícia Lemos fala da importância de acabar com o secretismo em relação à menstruação, que a mulher teima em não a chamar pelo devido nome, optando pelas velhas descrições populares, como ‘aquela altura do mês’.

 

Falar com conhecimento

Vivemos numa sociedade desperta para a importância de abordar as questões do corpo, para acabar com a normalização da dor, com a desinformação generalizada sobre a saúde. Mas, mais uma vez, o tema menstruação parece estar a ficar para trás. No entanto, Patrícia Lemos diz-nos que “mais do que falar sobre menstruação, precisamos de falar sobre o ciclo menstrual”, pois, “sempre que falamos de menstruação falamos de higiene, falamos de tabu, falamos de questões de ética social, de não podermos estar sujas, de não podermos falar em alto, mas temos é de falar sobre o ciclo menstrual, pois é ele que nos dá e funciona como indicador de saúde, é ele que nos dá essas pistas, estamos a precisar de fazer uma inversão de marcha em relação ao tópico, ou seja, precisamos de falar sobre isto, mas não só sobre a menstruação, é uma parte de uma coisa muito maior”.

Para fazer deste um tema de conversa – de interesse -, Patrícia recorre às redes sociais e à publicação de livros, um deles destinado a adolescentes, onde aborda a menstruação sem jargão científico. O livro Período (editado pela Booksmile) é uma espécie de bê-á-bá da saúde íntima feminina, um guia que descomplica a menstruação e que acaba por ser uma fonte de informação até para mulheres adultas, que acabam por não ler mais sobre o tema desde a escola. Tanto nos livros como nas redes sociais, “o que pretendo é que toda a gente possa falar e entender o que é o ciclo menstrual, para que é que ele serve, de forma é que acontece. Para ganharmos todos de um pouco mais de literacia de corpo, para, espero eu, deixar cair um bocadinho o estigma que ainda temos em torno destes assuntos a nível social”.

Mas este problema de desinformação não afeta apenas Portugal – embora o país pareça já estar a ficar para trás quando comparado com outras nações, que colocam a saúde íntima feminina e o acesso gratuito a produtos de higiene na lista de prioridades, como acontece na Escócia. “Não é um problema só de Portugal. Acho que há um enquadramento ao nível do que é o entendimento do que é ser mulher em Portugal, que condiciona claramente que as perguntas têm sobre estas questões da saúde menstrual. Acho que isto é um trabalho que tem de acontecer a dois ritmos, isto não é uma responsabilidade só dos médicos – mas com certeza que têm de se atualizar -, mas há um pedido ou convite que faço a todas as pessoas que menstruam que é: enquanto consumidoras, peçam mais e melhor para podermos ter novas respostas para os problemas antigos. Continuamos a ter ou a receber as mesmas respostas de 1987”, esclarece a especialista, alertando para a importância de saber filtrar informação, sobretudo nesta era digital.

“Enquanto consumidora de redes sociais, o que consigo perceber é que esta rapidez com que a informação flui e é disseminada, pode ser uma plataforma mesmo muito interessante para novos conceitos, para o bem e para o mal. É, de facto, crucial que as pessoas, enquanto consumidoras, se responsabilizem por entender onde é que estão as fontes de informação que são credíveis, onde é que querem ir buscar a sua informação e de forma é que querem construir a sua estrutura de decisão. Fazer uso das redes sociais, mas, como em tudo, a dose é o veneno. Há que tentar escolher as boas fontes e tentar fazer algum controlo da quantidade de informação que se vai buscar e onde se vai buscar”, revela.

Além do conhecimento que pode obter pela leitura, pela pesquisa e pela procura de acompanhamento, para Patrícia Lemos, a mulher deve também prestar mais atenção ao seu corpo, de modo a compreendê-lo e a conseguir recolher a máxima informação que este dá. “Não nos podemos esquecer que o ciclo menstrual não é um problema de saúde, isto tem de ser resgatado por parte de quem menstrua como uma parte fisiológica do seu corpo sobre a qual quer ter informação e autonomia para decidir e só depois disso é que entram aqui os médicos”.

“Aqui, há um trabalho que tem de ser feito a dois ritmos, a dois compassos, em duas camadas. Por um lado precisamos, sim, que os profissionais de saúde e também que quem menstrua assuma a responsabilidade de fazer a sua parte”, esclarece.

 

Conhecer para desmistificar

Ter um maior e melhor conhecimento sobre a saúde íntima é meio caminho andado para deixar cair por terra ideias preconizadas e que, muitas vezes, induzem em erro e comprometem o bem-estar. Mais uma vez, Patrícia fala de literacia do corpo, uma maior capacidade de conhecer a máquina que nos dá vida. Mas tal requer também um interesse e conhecimento generalizado e não apenas da mulher, embora possa ser ela o motor de arranque para um melhor diagnóstico, por exemplo. “Quase que arrisco dizer que isto vem daquele célebre verso do ‘parirás com dor’, continuamos a ter muito a questão da dor menstrual associada aquilo que é ser mulher, sendo que a interpretação sendo que o que é ser mulher continua muito associada à nossa capacidade reprodutiva, ao potencial de sermos mães. Precisamos de reenquadrar esta interpretação e precisamos de refazer este discurso e esta narrativa”.

Aqui, Patrícia Lemos refere-se sobretudo à endometriose, doença crónica que afeta cerca de 10% das mulheres em idade fértil (segundo a CUF) e cujo diagnóstico é, muitas vezes, tardio pela desvalorização dos sintomas. “Por uma questão de saúde pública, porque a endometriose é uma doença crónica e séria com grandes implicações na saúde da mulher que menstrua, precisamos claramente de deixar cair esta ideia de que deixamos de ser bruxas para passar a ser histéricas e para agora para passar tudo na nossa cabeça; precisamos de deixar cair essa narrativa. A questão da dor na mulher continua ser muito pouco valorizada e esta é a altura em que temos de olhar para isto com outros olhos”.

No entanto, há uma outra questão que importa desmistificar e, sobretudo, diz-nos Patrícia, deixar de demonizar. Falamos da pílula. “A questão da pílula é muito complicada. O Círculo Perfeito tem uma postura que é a favor das decisões informadas, quaisquer que elas sejam. Sempre defendi que todos os contracetivos hormonais cumprem um papel, muitas das vezes as pessoas vêm ter comigo no pós-parto porque não querem tomar a pílula de amamentação e acabamos por, no final da sessão, perceber que a contraceção hormonal acaba por ser um bom match nesta fase da vida. Mas, precisamos de tomar decisões que são informadas, precisamos de compreender que a questão da pílula como medicação é uma coisa que faz falta”, explica e dá exemplos: “numa pessoa com anemia ou com perdas de sangue abundantes pode fazer sentido fazer essa medicação”.

No entanto, a especialista defende que cada caso é um caso, sendo que “há uma série de indicações que fazem com que a pílula contracetiva possa fazer todo o sentido”, até mesmo no que diz respeito ao estilo de vida da pessoa. “Temos ainda as outras situações que são as pessoas que tomam a contraceção hormonal por decisão informada, que é, neste momento, na minha vida não tenho tempo para me andar a preocupar com as irregularidades do ciclo, etc. etc”.

Para Patrícia Lemos, há dez anos à frente do projeto Circulo Perfeito, a informação é determinante nestes casos – e em todos os outros que dizem respeito à saúde. “O que temos de perceber é que há uma série de riscos e de fatores de risco que têm de ser analisados de forma convergente. Uma mulher que tem mais de 35 anos e que é fumadora, que tem um histórico de AVC ou embolias ou problemas de coagulação na família, tem de perceber ela própria que eventualmente faz parte de um grupo de risco com vários fatores agravantes. Temos esta coisa maravilhosa que é disponibilizar pílulas gratuitas nos centros de saúde, precisamos de ter consumidores atentos, sabendo quais são os próprios riscos que apresentam”.

Mais uma vez, frisa, “de um lado e do outro tem de haver esta responsabilização. Os profissionais de saúde têm de parar de desvalorizar quando uma pessoa diz ‘olhe, já tenho 35 anos’ ou ‘olhe, mas eu fumo’. Se temos uma pessoa que está preocupada com a saúde, enquanto profissionais de saúde faz todo o sentido acautelar esta preocupação. Por outro lado, não podemos demonizar a pílula, nem a toma da pílula, seja como contracetivo hormonal, seja como solução enquanto medicamento para situações como endometriose, hemorragias intrauterinas. É um equilíbrio difícil”.

 

Brand Story