Menu
Inicio Novidades Km 224: Neste filme “não há bons nem maus, é a forma...

Km 224: Neste filme “não há bons nem maus, é a forma como reagem aos seus desafios”

Estreia hoje Km 224, o mais recente filme de António-Pedro Vasconcelos. A WH falou sobre o projeto com o realizador e os protagonistas Ana Varela e José Fidalgo.

Cláudia e Mário estão a passar por um processo de divórcio que se dificulta pelos dois filhos que têm em comum. Mas esta narrativa não decide se é o pai ou a mãe a deter a razão nesta guerra conjugal. “O filme é feito do ponto de vista das crianças”, como nos diz o realizador António-Pedro Vasconcelos, cujo objetivo não é o de levar o espetador a tirar partido por uma ou outra personagem. É sim o de “perceber que cada um deles tem – ou acha que tem – as suas razões”.

Na visão do realizador de 83 anos, é vasta a gama de pessoas sensíveis ao tema central deste filme – o divórcio de casais com filhos novos. Eu vivi de perto muitos problemas desses entre família e amigos, para quem o divórcio não foi pacífico. E é aí que está o problema: quando afeta os filhos”, refere António-Pedro Vasconcelos.

Os protagonistas: uma escolha não óbvia

Ana Varela e José Fidalgo são os protagonistas deste drama familiar, mas “havia muitos atores possíveis para um papel e para outro”, garante António-Pedro Vasconcelos que admite que a escolha final não foi óbvia. “Já tinha filmado com alguns dos atores deste filme. Quando gosto de um ator, gosto de voltar a filmar com ele. Mas também gosto de mudar, até porque há muitos bons atores e há muitos atores com quem gostaria de filmar e até hoje nunca consegui. O José Fidalgo é alguém com quem gostava de trabalhar já há algum tempo, até porque ele tem muito pouco cinema, é pouco escolhido mas acho que tem mérito e qualidade para o cinema, por isso dei-lhe esta oportunidade. A Ana Varela é uma atriz um pouco mais recente que o José, mas é alguém que tinha o perfil certo para encarnar o papel da Cláudia. É que eu apesar de não ver novelas, as vezes passo por lá para ver alguns atores…”, confessa o realizador.

De facto, tanto Ana Varela como José Fidalgo contam com bagagem pessoal para criar as personagens de Cláudia e Mário. “[O facto de] ser mãe ajudou-me imenso a criar este papel. Ser mãe, passar por separações, trouxe-me uma bagagem emocional, uma experiência e um conhecimento de causa que eu penso que contribuiu para contar esta história de uma forma mais humana.

“As crianças não estão em casa, porque é a primeira semana em que vão para a casa do pai. O vazio que é na vida de uma mãe não ter os filhos no seu ninho, é uma coisa que eu achei que devia ser passado para o ecrã”

Aliás, na construção do argumento, e trabalhando com um realizador como o António-Pedro, tive a oportunidade de sugerir alterações a cenas ou mesmo introduzir novas cenas, que eu achei – tendo em conta a minha experiência – que ajudaria a contar esta história”, diz-nos Ana Varela, que relembra uma cena em que Cláudia chega a casa e percebe que a casa esta vazia como nunca aconteceu na vida dela. “As crianças não estão em casa, porque é a primeira semana em que vão para a casa do pai e o vazio que é na vida de uma mãe não ter os seus filhos na sua casa, no seu ninho, é uma coisa que eu achei que devia ser passado para o ecrã, que ia ajudar a dar uma humanidade e perceber um bocadinho um lado emocional desta Cláudia que parece tao rígida, senhora de si e inflexível, mas que também esta a sofrer”, descreve.

José Fidalgo é da mesma opinião. O ator admite que “criar o Mário foi um processo em que facilmente se juntam ferramentas para o concretizar. O divórcio é uma realidade acimentada sobre o qual todos nós temos conhecimento. Seja por experiência própria ou por uma realidade que nos rodeia. Também pelo facto de sermos pais e nos colocarmos, hipoteticamente, numa situação destas”, revela o ator.

“Somos todos monstros na medida dos nossos medos”

De todo o guião, esta foi a frase que mais marcou a atriz Ana Varela, que aponta não só o medo de perder os filhos mas o medo de falhar, de ser má mãe, de não ser boa profissional, de não estar lá para os filhos, de ser abandonada… “São muitos medos, e a Cláudia está com estes medos todos. Às vezes é muito fácil apontarmos o dedo a um e outro num conflito, na sociedade em geral. Mas nós não sabemos por que a outra pessoa está a passar. Aos olhos de quem esta de fora, pode parecer um monstro que esta a tomar decisões ma, que esta mal-intencionada, mas todos esses comportamentos estão a ser gerados por um medo gigante. E para o medo só há uma solução: amor e compaixão. Eu acredito que este filme mostre aqui um pai e uma mãe que estão a tentar ser o melhor que conseguem com o que são e com os desafios a que estão a ser sujeitos. Não há bons nem maus, é só a forma como cada personagem esta a reagir aos seus desafios”, garante.

O bom, o mau e… o reflexo

Uma mãe muito rígida, um pai sem regras e muito amor de ambos os lados pelos filhos. O juiz escolherá quem “tem razão” e deverá ficar com a custódia das crianças mas, para o espetador, o objetivo não é que tome partido por um ou outro lado, “A questão não é quem é que tem razão, é o exemplo que estamos a dar aos nossos filhos, a referência que estamos a dar ao entrar numa guerra que se calhar é despropositada. Às vezes há que encarar o fim de um relacionamento. Mas não precisamos de o aceitar com uma guerra, pode ser feito de outra forma e a maneira como aceitamos ou não esse fim é uma referência gigante aos nossos filhos, que eles vão incorporar nas suas vidas jovens e adultas. Porque as crianças ouvem muito pouco o que dizemos, mas imitam tudo o que fazemos”, salienta Ana Varela. No fundo, o filme é isto: “uma oportunidade de colocar em questão o nosso comportamento e o nosso papel nas relações; a arte tem este papel incrível de nos fazer refletir sobre o nosso comportamento, a nossa condição humana e nos levar a questionar isso”, remata a atriz.

Km 224 estreia hoje, 21 de abril, nas salas de cinema de todo o país.

Brand Story