Menu
Inicio Living Jovem com paralisia cerebral e epilepsia refratária realiza sonho

Jovem com paralisia cerebral e epilepsia refratária realiza sonho

Veja o vídeo do voo de Matilde com Hugo Gaudêncio.

Matilde não fala e anda com dificuldades, mas ‘voa’ alto. Foi de uma altura de 50 metros, na falésia da Fonte da Telha, que a jovem com paralisia cerebral saltou de parapente e aterrou no mesmo local. O voo de 30 minutos, em dupla com Hugo Gaudêncio, piloto de parapente desde 2016, piloto da TAP e vencedor do concurso Capa Men’s Health em 2015, emocionaram a mãe da jovem de 20 anos, que, com a ajuda do piloto e da esposa, organizou o evento para a filha.

“A iniciativa do voo da Matilde surgiu da Ana (mãe da Matilde). A Ana após ter visto a minha publicação do voo com o Marcelo (que anda de cadeira de rodas e tem limitações cognitivas) entrou em contacto comigo”, conta-nos Hugo, acrescentando que “a Ana falou-me das características especiais da Matilde [paralisia cerebral e epilepsia refratária – intratável – com crises diárias] e da sua grande vontade de lhe proporcionar este tipo de experiências”.

O primeiro voo deste género de Hugo foi com o Filipe Mondim que faz Surf Adaptado e que tem compressão da medula: “Foi através do Filipe que fui contactado pela Sara (tetraplégica) que colabora com a Associação Salvador. A Sara lançou-me o desafio de voar com estes passageiros especiais”, recorda.

Mas não é assim tão simples. Estes voos requerem condições meteorológicas favoráveis e alguma ajuda na fase de descolagem e aterragem. Quanto ao piloto, requer extrema perícia para garantir descolagem e aterragem “perfeitas”.

Neste caso, a descolagem e aterragem da Matilde foi sentada na cadeira do parapente. A cadeira utilizada é a cadeira normal para este tipo de voos. A única diferença é que normalmente o passageiro e o piloto descolam e aterram em pé. Neste caso o piloto descolou em pé e aterrou sentado para “amparar” a aterragem da Matilde nas suas pernas.

A parte de preparação do passageiro é extremamente importante para gerar confiança e descontração fundamentais para que o passageiro aproveite ao máximo. A equipa colabora também na recolha de imagens e vídeos que vão imortalizar a experiência.

“Estes vídeos e imagens são extremamente importantes para todo o universo de pessoas ‘especiais’ uma vez que lhes vem dar esperança e motivação… Vêm-lhes mostrar que apesar das suas limitações vale a pena viver”, reflete Hugo.

Para Ana, mãe de Matilde, “aquele sorriso no final do voo foi o melhor de sempre – e tem sido ao longo de todos estes anos”.

Segundo o piloto, “a Matilde teve durante e após o voo inúmeras manifestações de alegria que são prova que foi uma experiência única e positiva. Embora a sua capacidade de interação seja limitada, a Ana, que a conhece bem, testemunhou que esta experiência foi fantástica para a Matilde”.

“O que a Matilde tem não é limitador. Não temos de olhar para a epilepsia como algo que tem de ser escondido. Temos de continuar a viver, podemos continuar a fazer as coisas. Nós conseguimos, temos é de fazer com que as pessoas à volta dela também se sintam bem. A envolvência das pessoas também as ajuda a aprender”, diz a mãe da jovem.

Para Hugo, esta pode não ter sido a primeira vez a fazer este tipo de voo, mas ainda assim, “estes voos representam um enorme desafio pessoal”, diz, acrescentando que “é necessário total concentração durante todo o processo de preparação e realização do voo sendo que o mesmo só termina depois de uma aterragem bem-sucedida. Após a aterragem o sentimento de dever cumprido (prova superada) é extremamente gratificante. A possibilidade de proporcionar estes momentos a pessoas que dificilmente teriam acesso a este tipo de experiências é motivo de grande orgulho”.

Por outro lado, para Hugo, estes voos representam uma “oportunidade de fazer a diferença na vida destas pessoas, de divulgar a modalidade, uma oportunidade para fazer chegar uma mensagem de esperança a todas as pessoas com limitações, para motivar toda a gente a fazer o que estiver ao seu alcance para contribuir para minimizar o impacto que estas limitações têm na vida das pessoas”.

O piloto revela-nos ainda que tem um projeto em andamento: “tenho um projeto em andamento para a realização de um evento com a associação Salvador. A principal dificuldade é fazer chegar estas pessoas ao local da descolagem. Nesse sentido estou em contacto com o oficial de operações do comando da PSP de Setúbal para tentar obter colaboração por parte da PSP, GNR e ICNF para facilitar a abertura das cancelas da “Mata dos Medos” – Fonte da Telha e transporte em viatura”.

Mas não é só. Hugo Gaudêncio quer também abrir as portas a estas pessoas através de “padrinhos especiais”: “gostava de realizar estes eventos com regularidade num modelo de “apadrinhamento” por parte de figuras públicas ou “sponsors”. No modelo de “apadrinhamento” a ideia era convidar uma figura pública por evento que iria fazer parte da equipa de apoio à realização do voo. Esse padrinho iria também realizar o Batismo de Parapente, ajudar nas operações, ser um veículo de divulgação e interagir com os participantes proporcionando-lhes não só a experiência de parapente como também o convívio com o padrinho”.

Para Hugo, o objetivo é tornar esta experiência acessível a pessoas com limitações (crianças e adultos). Ana vai ao seu encontro e refere que “isto é a prova que podemos fazer tudo”.

Brand Story