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Jejuar para ter saúde ou mais uma moda perigosa?

Duas nutricionistas apontam os prós e contras desta dieta da moda.

Jejuar para ter saúde ou apenas mais uma moda perigosa?

Privar-se de comida durante um determinado período de tempo é uma tendência do mundo da alimentação. Mas antes de jejuar, saiba se é ou não um regime alimentar para si.

Até há bem pouco tempo, o jejum era quase somente associado a motivos religiosos ou a questões de saúde. Mas, hoje em dia, o jejum passou a ser uma moda, uma tendência alimentar e assume-se como uma das dietas do momento.

Por jejum, entende-se o período de tempo em que privamos o organismo da ingestão de alimentos, ou seja, “é mais uma estratégia de perda de peso em que a ingestão de alimentos ocorre depois de um período longo de jejum, sendo que o número de horas de jejum podem variar”, começa por explicar à Women’s Health a nutricionista Dinora Bastos.

Quando o jejum é adotado como regime alimentar, é comum que aconteça das seguintes formas: ora é feito em dias alternados (um dia a jejuar e outro a comer normalmente e assim sucessivamente durante um período de tempo), ora permite apenas comer durante oito horas num dia e jejuar nas restantes 16 horas (o chamado jejum 16/8) ou ainda nos leva a jejuar – ou a reduzir em 500 calorias o total diário – durante dois dias seguidos, mantendo a alimentação normal nos restantes cinco (o chamado jejum 5:2).

Há muito que a Ciência se dedica aos prós e contras do jejum, mas a verdade é que esta onda de privação alimentar pode mudar todo o cenário até agora descoberto, visto que a prática ganha cada vez mais seguidores, até mesmo aqueles que não sabem se se trata de um regime que zela assim tanto pela saúde como se pensa. “O que mais me assusta nestas ‘modas’ é que na maioria das vezes as pessoas não são aconselhadas ou seguidas por um nutricionista, que deverá ser o único capaz de prescrever uma dieta que realmente tenha em conta as necessidades e objetivos da pessoa”, diz a nutricionista Cláudia Cunha.

 

O CORPO EM JEJUM

“Lembro-me de um amigo meu ter decidido começar a fazer a dieta do jejum intermitente. Quando lhe perguntei o porquê, disse-me que um outro amigo lhe tinha dito que era uma ótima dieta para ‘secar’ e perder massa gorda. A minha próxima questão foi saber então como estava a correr a dieta. A cara dele mudou, disse que se sentia muito mal de manhã até à hora em que era ‘permitido’ comer”, conta Cláudia Cunha.

Mas, o que é que acontece mesmo quando privamos o nosso corpo de alimentos? Ora, o nosso organismo vê-se obrigado a procurar outra fonte de energia que não a comida. Numa primeira fase, apodera-se do açúcar que desliza no nosso sangue. Depois, quando essa fonte açucarada fica seca, eis que ataca as reservas de glicogénio que temos no nosso fígado. E se a necessidade de combustível for mesmo muita, então é na gordura que o nosso organismo se vinga, queimando-a para ter energia.

Este processo de cetose (uso de gordura para obter energia) pode ser uma mais-valia para quem pretende perder peso, contudo, há algo mais a acontecer dentro de nós. A privação de calorias (seja elevada ou continuada) faz com que o nosso corpo tente guardar o máximo de energia possível. E como é que faz isso? ‘Matando’ as próprias células e alimentando-se desses ‘restos mortais’, um processo que cientificamente tem o nome de autofagia – descoberto nos anos 60 e que pode ser acelerado pela prática do jejum (daí o uso desta abstinência alimentar no tratamento de algumas doenças). Mas, apesar de soar a assustador, não é preciso levar as mãos à cabeça. O nosso corpo começa por ‘assassinar’ as células mais velhas ou com algum tipo de defeito, alimentando-se delas ao invés de atacar as células boas – e é por isso que se acredita que o jejum intermitente pode ser um aliado contra o cancro, visto que se trata de uma doença causada pela proliferação de células de forma anormal e a diminuição da apoptose (capacidade de estas se suicidarem, especiamente quando ‘adoecem’, e darem oportunidade a novas).

 

O QUE DIZ A CIÊNCIA

“Alguns estudos (ainda não conclusivos) mostram que o jejum (acompanhado de restrição calórica) melhora o perfil glicémico e níveis de insulina em jejum”, revela Dinadora Bastos. Há quem defenda que assemelha-se a um botão de ‘reset’ no corpo, oferecendo um boost ao sistema digestivo, ao sistema cardiovascular e, claro, ao sistema imunitário. Mas carecem ainda provas científicas que sustentem todas estas teorias. A Universidade de Illinois publicou, este ano, um estudo em que garante que o jejum intermitente ajuda a perder peso e reduz a tensão arterial. Publicado na revista Nutrition and Healthy Aging,o estudo teve por base a análise de pessoas obesas e os resultados assumem-se promissores.

Com pessoas obesas e pré-diabéticas como grupo de análise, uma outra investigação da Universidade do Alabama, nos Estados Unidos, revelou benefícios na perda de peso e no controlo dos níveis de insulina. Porém, importa salientar que estes são dos poucos estudos sobre os benefídicos do jejum para a saúde feitos com pessoas. Em 2017, a Universidade de Harvard lançou um dos mais promitentes estudos sobre o jejum intermitente… mas em minhocas que apenas vivem duas semanas, as C. elegans.

Publicado na revista Cell Metabolism, o estudo revela que o jejum consegue mudar as ligações mitocondriais das células, algo que poderá resultar numa maior esperança média de vida, seja pela retardação do envelhecimento ou pelas melhorias a nível de saúde que isso traz. Mas foram minhocas, não pessoas – e esse é, ainda, um dos senãos do que a ciência sabe sobre o jejum intermitente. E é a própria universidade que o alerta: “Embora a evidência da restrição calórica em estudos com animais seja forte, há evidências menos convincentes em estudos com humanos”. Os ratos de laboratório têm sido outros protagonistas na investigação científica sobre o jejum intermitente, mas a verdade é que o corpo humano é diferente e demasiado complexo – o que faz com que os resultados possam variar entre géneros, idades e índice de massa corporal (IMC).

Em 2013, por exemplo, são revelados na revista Canadian Medical Association Journal alguns pontos negativos deste tipo de dieta. O artigo salienta que cada caso é um caso e que as recomendações médicas devem estar na base da adoção deste regime alimentar, especialmente quando o objetivo é ganhar saúde.

“[Uma] preocupação é que os promotores do jejum intermitente, talvez involuntariamente, encorajem comportamentos extremos, como a compulsão alimentar. Isso reflete-se nas fotos que acompanham muitos artigos recentes sobre ‘a dieta rápida’ ou a ‘dieta 5: 2’. Muitas vezes, descrevem pessoas que comem imensos alimentos altamente calóricos e com alto teor de gordura – hambúrgueres, batatas fritas e bolos. A implicação é que, se jejuar dois dias por semana, poderá devorar tanto lixo quanto o seu esófago conseguir engolir durante os cinco dias restantes”, lê-se no documento.

Enquanto mais estudos não são feitos, considero que o mais sensato é analisar quem temos à nossa frente na consulta de nutrição e aconselhar o melhor para essa pessoa, com o objetivo de promover saúde e qualidade de vida”, alerta Cláudia Cunha.

 

QUEM PODE FAZER O JEJUM

Segundo a nutricionista Dinora Bastos, “o jejum pode ser uma estratégia de perda de peso interessante para pessoas que têm dificuldade em fazer escolhas saudáveis para merendas/refeições intermédias, uma vez que deixam de introduzir os snacks calóricos e nutricionalmente maus e optam por fazer duas refeições diárias equilibradas, completas e variadas nutricionalmente”.

Tal como acontece com qualquer outro plano alimentar, o acompanhamento nutricional é fundamental, pois a alimentação deve ser sempre “ajustada às características individuais e ao objetivo de cada um”, continua Dinora. No caso de um jejum mal planeado (ou não acompanhado), pode-se estar a “promover a desnutrição, uma ingestão calórica abaixo das necessidades diárias, ou, pelo contrário, a uma ingestão calórica bem acima do recomendado para o objetivo individual, uma vez que podem fazer apenas duas refeições por dia, mas estas serem com uma densidade calórica muito elevada”, alerta.

De acordo com Harvard, as pessoas que tomam medicamentos para a pressão arterial ou para algum tipo de doença cardíaca também podem ser mais propensas a anormalidades eletrolíticas causadas pelo jejum. Já quem tem diabetes ou distúrbios alimentares podem beneficiar deste tipo de alimentação mais restrita, embora o aconselhamento e acompanhamento médico seja crucial.

Reticente quanto aos benefícios ainda não comprovados desta dieta da moda, a nutricionista Cláudia Cunha revela que “se cumprirem o plano alimentar e mantiverem um estilo de vida saudável, os meus pacientes alcançam os seus objetivos e o único jejum que eu proponho é durante a noite, altura em que estão a dormir, já que é também nesta altura que as nossas enzimas digestivas têm concentrações mais baixas e temos uma necessidade calórica mais reduzida. Aliás, recomendo até uma refeição mais ligeira durante o período do jantar. Com estas minhas recomendações, pensando bem, alguns dos meus pacientes jantam às 20h e depois só tomam o pequeno-almoço às 7h, dando um ‘jejum’ de sensivelmente 11h. Também eles estão neste regime de ‘jejum intermitente’? Não será apenas uma moda de querermos dar rótulos às dietas?”.

 

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