Menu
Inicio Living Estudo revela que mulheres portuguesas não gostam do seu corpo

Estudo revela que mulheres portuguesas não gostam do seu corpo

Eu amo #oMeuCorpo, e tu? Possivelmente não. E a prova disso é o resultado do questionário levado a cabo pela Women’s Health.

Verão 2020: Keep it Simple (but not boring)

Possuímos a máquina mais completa, complexa e surpreendente alguma vez imaginada. Somos donas de uma unicidade sem igual. E mesmo assim não gostamos. Não gostamos de nós.

A relação que cada pessoa tem com o próprio corpo é influenciada por um sem-fim de fatores, mas uma coisa é certa: nunca estamos satisfeitas. Esta é a grande conclusão do inquérito online levado a cabo pela Women’s Health junto de 355 mulheres portuguesas* a propósito do movimento #oMeuCorpo, lançado no outono de 2018.

Dos muitos fatores internos e externos que podem influenciar o apreço que a mulher tem pelo próprio corpo, há um que tem vindo a arrastar-se década após década: a publicidade.

De acordo com José Pinto, doutorado em Sociologia e docente na Universidade Lusófona, a publicidade foi responsável por “um modelo único de beleza, um padrão, quando, na verdade, cada mulher é um ser único e uma realidade que não se repete e, como tal, existe um claro desfasamento entre o modelo único e a beleza real”. Tal desfasamento, continua o especialista, está ligado à autoestima de cada pessoa, mais um aspeto que pode ser influenciado por inúmeros fatores intrínsecos ou externos à pessoa – como é o caso das redes sociais, da publicidade, das imagens editadas e das séries, filmes e novelas, maioritariamente protagonizados por mulheres bonitas e em forma, mas também da própria saúde mental, por exemplo. “O padrão de beleza tem reflexos na autoestima e isso conduz a problemas de perceção da autoimagem”, explica-nos o sociólogo José Pinto.

Bela por fora. Mas, então, e por dentro?

No questionário realizado pela WH, foram avaliados os motivos que levam as mulheres portuguesas a ter um estilo de vida ativo no qual o exercício faz parte regular da rotina.

Ora, e muito à boleia da insatisfação com o próprio corpo, foi notório que a saúde não é, de todo, o motivo pelo qual treinam (ver coluna com dados). Embora queiram mostrar que sim. Para José Pinto, essa vontade de colocar falsamente a saúde em primeiro lugar deve se, em parte, ao facto de “a sociedade confundir intencionalmente a beleza com a saúde”, olhando-se para os corpos magros como saudáveis como outrora se olhou para a gordura como formosura.

Da mesma opinião é o personal trainer e docente universitário Luís Cerca, que defende que a saúde não é, na verdade, a preocupação número um de quem treina. “As pessoas procuram o ginásio por três razões (provadas cientificamente): que são a tonificação muscular, a perda de peso e a saúde. Dizem que a principal de todas é a saúde, mas isso é uma falsa verdade, como vem no Eurobarómetro de 2017, que diz que 51% dos portugueses vão pela saúde**”. Tonificar o corpo e perder peso são as principais motivações de quem pratica exercício físico, sendo as melhorias na saúde uma consequência direta de tal, mas não vice-versa.

É #oMeuCorpo e vou gostar dele tal como é

Aceitar o próprio corpo é muito mais do que viver bem com ele. É cuidar, mimar e fazer de tudo para se manter forte e saudável, de modo a aumentar a autoestima e a confiança associada à pele que nos veste e protege ao longo da vida.

Mas isso não acontece e a prova são as múltiplas fotografias com filtros publicadas nas redes sociais. Todos os dias, pelas mesmas pessoas, que vendem uma confiança que não existe e que está refém do número de likes, dos comentários e da apreciação dos outros. E isso é grave. Mas não é o único defeito dos tempos modernos a colocar em causa o amor que devemos ter por nós próprios. É certo que se tem verificado uma “valorização da importância da imagem e o reconhecimento da autoestima”, diz José Pinto, no entanto, frisa, “impõe-se um novo regresso ao modelo grego – mente sã em corpo são –, mas com a condenação dos cuidados excessivos com o corpo”. Tal acontece quando se dá uma procura excessiva e muitas vezes inconsciente por um corpo são, algo que resulta em atos extremos que podem colocar a saúde em risco (como é o caso da ortorexia).

Olhar com olhos de ver para o próprio corpo e ver nele o seu potencial – seja para a mudança positiva ou para uma maior fonte de confiança – é meio caminho andado para uma maior autoestima e essa mesma autoestima acabará por “refletir todo o reconhecimento que temos do nosso potencial, a opinião que temos sobre nós”.

Ao contrário da aceitação por desdém – o típico pensamento ‘perdido por cem, perdido por mil’ que muitas pessoas têm e que, depois, se reflete na saúde física e mental –, importa encontrar ferramentas que façam da boa autoestima o trampolim para uma vida plena, lutando pela sua melhor versão (e essa melhor versão depende de pessoa para pessoa e só assim diz respeito). “Se a mulher tem uma autoestima elevada, não se compara às outras e recusa as formas estereotipadas de beleza. Aceita a sua beleza, a sua identidade estética, embora não deixe de lutar pelo aperfeiçoamento físico e mental. Daí o exercício físico. Por isso o recurso à cosmética. A luta pela preservação da juventude”, destaca José Pinto.

Temos de mudar mentalidades para mudar visões

Não há dois corpos iguais, não há duas personalidades iguais, não há duas mulheres iguais. E é essa unicidade que todas nós deveríamos celebrar dia após dia, abraçando o que nos faz sentir bem e pensando naquele que será o plano de ação para combater o que nos faz sentir mal (é a falta de tonicidade? Treinemos juntas!).

Mas, para o sociólogo José Pinto, não basta cada mulher pensar em si, cuidar e lutar por si. “Assim como as grandes cadeias de moda democratizaram a moda, importa proceder à construção de um novo paradigma da relação da mulher com o corpo. Uma socialização da beleza, aceitando a beleza real”. E o que é que isso quer dizer? Que temos de aceitar e agradecer “a beleza ou identidade estética de cada um e assumir que a beleza decorre da saúde e não é a saúde que deriva da beleza. Há que redefinir as prioridades. Um passo necessário num processo longo porque é muito difícil mudar a mentalidade”.

Os números

Entre agosto e setembro de 2019, 355 mulheres portuguesas com uma idade média de 30 anos confessaram o que sentiam quando se viam ao espelho e como olhavam para o próprio corpo.

Gosto do meu corpo quando me olho ao espelho?

Critico frequentemente o meu próprio corpo?

A parte do corpo que mais gostaria de mudar é…

O que me deixaria mais feliz?

Brand Story