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Enxaqueca: a patologia que nos deixa ‘fora de serviço’

Dra. Elsa Parreira
Enxaqueca: a patologia que nos deixa 'fora de serviço'
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Por: Dra. Elsa Parreira, Presidente da Sociedade Portuguesa de Cefaleias

A Enxaqueca é uma patologia que se caracteriza pelo aparecimento, ao longo da vida, de crises recorrentes de dores de cabeça, alternando com intervalos livres de sintomas. É muito frequente, estimando-se que atinja cerca de 15% da população adulta, a nível mundial. Embora não sendo uma doença grave, pois não coloca em risco de vida ou de sequelas permanentes aqueles que dela sofrem, como é extremamente frequente e os seus sintomas surgem de uma forma imprevisível, acaba por ter importantes repercussões pessoais, sociais e económicas. Acredita-se ainda que, nas últimas décadas, a sua prevalência tenha vindo a aumentar. A Enxaqueca é considerada, a nível global, pela Organização Mundial de Saúde, como a segunda doença responsável por mais anos vividos com incapacidade, isto porque durante a crise de Enxaqueca, que podem durar entre poucas horas a vários dias, a pessoa está incapaz para o exercício de uma atividade física ou intelectual normal.

A Enxaqueca pode ter início logo na infância, mas apresenta um pico de prevalência, para ambos os géneros, entre a segunda e a quarta década de vida. A sua prevalência vai diminuindo a partir da quinta década de vida. Ela é cerca de 3 vezes mais frequente na mulher do que no homem, mas essa diferença apenas se verifica a partir da puberdade. Na infância atinge de igual modo meninos e meninas.

A frequência com que as crises de Enxaqueca surgem é muito variável de indivíduo para indivíduo. No entanto, a maioria das pessoas que sofrem de Enxaqueca têm em média várias (6 a 12) crises por ano. De um modo geral, a frequência das crises é maior entre os 20 e os 40 anos de idade. São, pois, os adultos jovens, em especial mulheres em idade fértil, quem mais sofre de Enxaqueca. Na mulher, a Enxaqueca é significativamente influenciada pelo ambiente hormonal: agrava-se na altura do período menstrual (podendo as crises ocorrer exclusivamente nessa altura), melhora habitualmente após a menopausa ou durante a gravidez (mas nem sempre) e é agravada com a utilização de medicação hormonal, nomeadamente com a pílula contracetiva.

A dor de cabeça típica é uma dor latejante, que pode atingir apenas um lado da cabeça, habitualmente na fronte, têmpora ou à volta dos olhos. Dura de poucas horas até 3 dias, ou excecionalmente mais dias, e pode ser acompanhada de náuseas e vómitos. Os sintomas da Enxaqueca são agravados pela luz, ruídos e movimentos da cabeça bem como com esforços e atividades físicas de rotina, tais como subir escadas, andar, etc. O que obriga muitas vezes ao repouso em local escuro e sossegado, ficando a pessoa incapaz para a sua atividade normal nesse período A intensidade das crises é, no entanto, variável ao longo da vida de um indivíduo.

Mas a crise de Enxaqueca pode ser muito mais do que a dor de cabeça. A crise pode ser constituída por 4 fases distintas, em que surgem outros sintomas : a fase prodrómica (que pode surgir 24 a 48 horas antes da fase de dor, em que se podem manifestar cansaço, adinamia, dificuldade na concentração, bocejo, irritabilidade e outras alterações do humor); a fase de aura (que surge em um quarto dos casos e manifesta-se por sintomas visuais, como visão turva ou pontos brilhantes, formigueiros e outros sintomas que são reversíveis, durando habitualmente menos de 1 hora) e que ocorre mais frequentemente antes da cefaleias; a fase de dor que é aquela que é mais constante (em que se manifestam a dor, as náuseas e/ou vómitos, a intolerância à luz , aos ruídos e aos movimentos); e, finalmente, a fase pós-drómica, em que já não se sente dor mas em que ainda não se recuperou completamente e que pode durar mais de 24 horas. Estas 4 fases não surgem em todas as pessoas e podem variar de crise para crise, na mesma pessoa.

Sendo a Enxaqueca uma patologia com uma prevalência tão elevada e que atinge, predominantemente, adultos jovens, ou seja, o segmento da população em idade mais ativa, tem necessariamente consequências económicas e sociais consideráveis. Ela gera não só elevados gastos em cuidados de saúde, mas também incapacidade e diminuição do rendimento profissional e escolar. A incapacidade gerada pela enxaqueca vai depender da frequência com que as dores ocorrem e da sua intensidade, bem como dos sintomas acompanhantes.

A sua causa é ainda desconhecida. Apresenta uma forte predisposição hereditária, ou seja, ocorrem vários casos na mesma família, mas a sua génese será multifatorial, intervindo fatores genéricos e ambientais.

Embora não haja uma cura definitiva para a Enxaqueca, existem tratamentos bastante eficazes e assiste-se, atualmente, ao desenvolvimento de novos medicamentos, fruto de investigação científica, que irão seguramente permitir tratar ainda melhor as pessoas com Enxaqueca. O seu tratamento visa melhorar a qualidade de vida das pessoas.. Isso consegue-se reduzindo a duração e a intensidade das crises e também prevenindo o seu aparecimento. Algumas medidas simples podem ser adotadas pelas pessoas com Enxaqueca, de modo a diminuir a intensidade da manifestação da doença: deve-se ter um estilo de vida saudável; uma dieta equilibrada; prática de exercício físico aeróbico; manter os horários das rotinas do nosso dia-a-dia; manter uma hidratação adequada; evitar excesso de cafeína, álcool e tabaco; ter uma boa higiene do sono e evitar o stress e a ansiedade.

A escolha de qual o tipo de medicamento a utilizar pelo seu médico vai depender de uma série de fatores, tais como: tipo de Enxaqueca; número, intensidade e duração das crises; incapacidade associada e repercussão da Enxaqueca sobre a qualidade de vida; a preferência do próprio doente; e a existência de comorbilidades, ou seja, da presença de outras doenças que frequentemente surgem nas pessoas que têm Enxaqueca e que também a podem agravar, como é o caso da depressão.

Para o tratamento agudo, ou seja, para tratar a crise quando ela surge e para encurtar a sua duração, podem ser utilizados analgésicos comuns (paracetamol), o ácido acetilsalicílico ou anti-inflamatórios. Estes fármacos, se tomados precocemente, são bastante eficazes e devem ser utilizados como primeira linha nas crises não muito intensas. Quando as crises são mais intensas, podem ser usados medicamentos especificamente produzidos para o tratamento da Enxaqueca -os triptanos-, que são bastante eficazes no tratamento agudo da dor e sintomas associados.

Quando as crises são muito frequentes (mais do que 2-3/mês) ou não respondem à terapêutica aguda, temos ao nosso dispor as chamadas terapêuticas preventivas ou profiláticas. Nestes tratamentos, os medicamentos, que devem ser tomados durante largas semanas ou meses, destinam-se a reduzir a frequência e a intensidade com que os episódios de Enxaqueca surgem (mas não os abolindo por completo), melhorando significativamente a qualidade de vida destas pessoas. Existem muitos medicamentos utilizados para a profilaxia da Enxaqueca. A maioria são de toma oral diária, mas recentemente surgiram medicamentos injetáveis (chamados medicamentos biológicos) de toma mensal ou trimestral. A medicação preventiva é posteriormente suspensa, após a melhoria do sofrimento e incapacidade provocada por esta doença, mas não de modo demasiado precoce (mínimo 6 meses) para evitar recaídas.

As respostas terapêuticas que se obtêm variam de pessoa para pessoa, mas registam-se, na maior parte dos casos importantes melhorias que podem fazer toda a diferença na vida de cada um. Por isso é de extrema importância que, se sofre de dores de cabeça incomodativas, não desvalorize as suas queixas e as relate ao seu médico assistente, para que este lhe prescreva o tratamento mais adequado e eficaz.

 

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