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Entender a saúde digestiva e a sua terapêutica

Dra. Marta Gravito Soares
Saúde Digestiva

Por Dra. Marta Gravito Soares – Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia

O microbioma intestinal é o tema que assinala o Dia Mundial da Saúde Digestiva. Arranca também hoje e prolonga-se durante o mês de junho o Mês da Saúde Digestiva, uma iniciativa de responsabilidade social corporativa da SPG, que tem por princípio informar sobre a Saúde Digestiva e a sua importância ao nível da prevenção, diagnóstico precoce e tratamento das doenças do Aparelho Digestivo.

O Sistema digestivo é complexo abrangendo a mucosa absortiva, transporte epitelial, motilidade gastrointestinal, sistema imunitário e microbioma intestinal. Um sistema digestivo saudável só é possível com o funcionamento adequado e equilíbrio de todas as componentes que dele fazem parte. Qualquer defeito ou anormalidade na estrutura ou função de um dos seus constituintes pode predispor ao desenvolvimento de doenças.

Aproximadamente 1/3 da população apresenta sintomas relacionados com a saúde do sistema digestivo, como a flatulência, sensação de distensão e desconforto/dor abdominal, náuseas, vómitos, obstipação, diarreia, incontinência ou intolerâncias alimentares. A maioria destes sintomas ocorre na ausência de alterações estruturais do sistema digestivo, mas podem afetar negativamente a qualidade de vida do indivíduo.

O ser humano é considerado um indivíduo holobionte, composto não só por células do próprio, mas também por microrganismos. O microbioma humano compreende o total de microrganismos vivos que coloniza o sistema digestivo, sistema urinário, cavidade oral, nasofaringe, sistema respiratório e pele. O microbioma intestinal refere-se ao total de microrganismos que reside no sistema digestivo, atingindo 106-1012 no cólon, número este que supera o total de células que compõem o nosso organismo. Cerca de 99% dos microrganismos que compõem o microbioma são bactérias, maioritariamente Firmicutes e Bacteroidetes, que se encontram numa proporção harmoniosa por forma a permitir o bem-estar digestivo.

Fatores não modificáveis, como a genética e idade, bem como fatores ambientais, incluindo eventos precoces da vida, dieta, exposição a animais, comportamentos em relação à saúde e stress podem influenciar o microbioma, em particular e a saúde do sistema digestivo, em geral. Hoje, sabemos que o microbioma constitui um novo “órgão” com importantes funções de nutrição, regulação imunitária e inflamação sistémica. A disbiose intestinal, alteração do ecossistema microbiano do intestino, resulta de alterações no tipo e proporção de microrganismos e da resposta deletéria do organismo a essas alterações. Esta tem sido associada a um risco acrescido de desenvolver várias doenças gastrointestinais, incluindo o fígado gordo e outras doenças crónicas do fígado, doenças pancreáticas, intestino irritável, doença celíaca e doença inflamatória intestinal. A compreensão dos mecanismos subjacentes à saúde e desenvolvimento da doença necessitam de ter em conta a componente microbiana e sua interação como o indivíduo.

A saúde digestiva está relacionada com a ausência de doenças ou sintomas do sistema digestivo, preocupantes ou limitantes o suficiente para justificar a procura de cuidados assistenciais. O bem-estar físico e psíquico (eixo cérebro-intestino-microbioma), bem como a adoção de medidas que promovam e mantenham o bem-estar digestivo, ajudam a prevenir ou retardar o aparecimento de doenças associadas ao sistema digestivo. Estas medidas incluem uma higienização adequada das mãos e alimentos, manter uma dieta rica e equilibrada com evicção de gorduras saturadas, ingestão de grande quantidade de líquidos não açucarados e uma quantidade adequada de fibras e ácidos gordos ómega-3. A evicção de alimentos processados, tais como os fermentáveis, oligossacarídeos, dissacarídeos, monossacarídeos e polióis fermentáveis, carateriza a denominada dieta pobre em FODMAPs, associada à saúde e bem-estar do sistema digestivo.

Desta dieta fazem parte a diminuição de algumas frutas (maça, pera, pêssego, melancia, cereja), legumes (espargos, bróculos, couve-flor, leguminosas, ervilha, feijão), produtos lácteos, cereais, trigo, cevada, centeio, molhos e edulcorantes. Uma atividade física moderada e regular, não fumar, evicção do excesso de álcool e estratégias para minimizar o stress crónico também contribuem de forma positiva para o bem-estar digestivo. Adicionalmente, também fármacos, como os anti-inflamatórios não-esteroides ou antibióticos são suscetíveis de lesionar a mucosa do tubo digestivo e modificar a composição da microbiota intestinal, contribuindo para a disfunção do sistema digestivo e vulnerabilidade à doença, pelo que só devem ser realizados se indicação médica.

Tendo em conta a complexidade do sistema digestivo, múltiplas medidas e estratégias são necessárias para estabelecer e manter o equilíbrio das diferentes funções do sistema digestivo ao nível da resposta imunitária, deteção de agentes patogénicos, integridade da barreira mucosa intestinal e exposição do conteúdo fecal do intestino à inflamação.

Estudos atuais e futuros têm procurado avaliar o papel de prebióticos ou probióticos específicos e potencialmente o transplante de microbiota fecal, como uma oportunidade de restituir o microbioma intestinal saudável. Estas estratégias terapêuticas poderão vir a influenciar positivamente a saúde digestiva através da manutenção da homeostasia do microbioma intestinal, prevenção e tratamento de doenças do sistema digestivo.

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