Menu
Inicio Nutrição Todos os verdadeiros prós e contras da dieta cetogénica

Todos os verdadeiros prós e contras da dieta cetogénica

O que acontece, na prática, é uma alteração alimentar profunda, que faz com que o organismo comece a obter energia através dos corpos cetónicos.

Todos os verdadeiros prós e contras da dieta cetogénica

Ora fazendo jejum, ora contado a quantidade de hidratos de carbono, ora comendo apenas a determinadas horas do dia, as dietas multiplicam-se. No entanto, os benefícios para a saúde, de alterar constantemente o regime alimentar, são muitas vezes inferiores aos malefícios. Numa época em que todos os dias surgem novas dietas, apresentamos-lhe mais uma destas soluções que parecem oferecer milagres: a dieta cetogénica.

A dieta cetogénica não é uma novidade no mundo da nutrição, apesar de ter ganho recentemente bastante fama. Na verdade, segundo explica a nutricionista Eduarda Alves, já existem referências a esta dieta na Bíblia. Isto acontece porque, durante os períodos de jejum por motivos religiosos, algumas pessoas que sofriam de epilepsia denotaram melhorias nos sintomas da doença.

Mais recentemente, por volta da década de vinte do século XX, este regime ganhou força devido à vontade de se compreender os efeitos bioquímicos e metabólicos que ocorrem no organismo humano decorrentes do jejum prolongado.

 

O processo de cetose

Esta dieta caracteriza-se por uma redução drástica do consumo de hidratos de carbono e um aumento exponencial do consumo de gorduras. Em alguns casos, a ingestão de gordura pode mesmo chegar a ser 90% da quantidade diária de calorias.

O que acontece, na prática, é uma alteração alimentar profunda que faz com que o organismo comece a obter energia através dos corpos cetónicos, em vez de usar a energia proveniente da glucose.

Há uma compensação dos hidratos de carbono pela gordura, o que provoca alterações ao funcionamento do organismo, que precisa de se reinventar para conseguir obter a energia que, normalmente, obteria através dos hidratos. O nutricionista Bruno Pereira explica que, “nesta situação, a glicemia diminui, originando uma diminuição da libertação de insulina”.

Nos adipócitos [células que acumulam gordura], a diminuição dos níveis de insulina vai promover a libertação de ácidos gordos e corpos cetónicos no sangue“. Deste modo, a energia é produzida através das reservas de gordura e não da glucose proveniente, por exemplo, dos hidratos de carbono. Quando a concentração plasmática de corpos cetónicos é elevada, pode-se dizer que um indivíduo está em cetose. Uma vez atingida a cetose, a maioria das células usará corpos cetónicos para gerar energia até começarmos a comer hidratos de carbono novamente”, continua o especialista.

 

O que pode ou não comer

Este é um regime extremamente restritivo e que é pouco viável a longo prazo devido à pouca quantidade de alimentos permitidos. Os hidratos de carbono, os principais excluídos na dieta cetogénica, podem ser consumidos apenas em quantidades muito reduzidas. Ainda assim, é possível comer hidratos, mas apenas complexos, que, normalmente estão sob a forma de vegetais ou cereais integrais.

a fruta, por exemplo, é proibida, porque contém hidratos simples e de média complexidade. A ingestão deste tipo de alimentos poria em causa o objetivo principal que é atingir o estado de cetose, ou seja, manter os níveis de insulina o mais baixos possível. Todos os alimentos que contenham sacarose, como o açúcar e o mel estão igualmente proibidos porque interferem com a manutenção dos níveis glicémicos.

Até entrar num estado de cetose, o organismo pode demorar mais tempo, quanto mais excesso de peso a pessoa tiver. Ainda assim, Bruno Pereira explica que “quando um indivíduo apenas ingere 20 g a 50 g de hidratos de carbono por dia, num período de dois a quatro dias, o corpo passa a usar a gordura armazenada como fonte de energia”, ou seja, entra em cetose.

dieta cetogénica

Uma ajuda poderosa contra a epilepsia

Apesar dos riscos, Eduarda Alves realça alguns benefícios desta dieta, mas apenas devido aos resultados comprovados na melhoria dos sintomas da epilepsia. Esta doença neurológica caracteriza-se por episódios de convulsões que podem resultar de um trauma ou até de uma tendência genética.

“No caso de crianças com epilepsias graves, resistentes à medicação, já acompanhei alguns casos que tiveram uma melhoria acentuada. A dieta permitiu a redução dos fármacos, o que se refletiu no desenvolvimento cognitivo e no bem-estar geral, quer das crianças como dos familiares”, explica a nutricionista.

Além do papel que a dieta cetogénica pode ter no controlo da epilepsia, Bruno Pereira diz ainda que, a curto prazo, esta dieta pode ajudar a controlar os índices de glicemia nos pacientes com diabetes tipo 2.

 

Perda de peso

Apesar de promover a perda de peso, este pode não ser o regime mais indicado, especialmente se o pretende fazer da forma mais saudável, tendo em vista a manutenção do novo peso a longo prazo. Na maioria dos casos, o que acontece é uma redução do apetite e, por isso, o corpo ganha um estímulo extra para queimar mais gordura.

Bruno Pereira reconhece que este regime pode ser eficaz para a perda de peso, mas o especialista afirma que é extremamente difícil manter estes novos hábitos alimentares. “A diferença na perda de peso parece desaparecer com o tempo. As pessoas têm tendência a aumentar o consumo de hidratos de carbono após alguns dias ou semanas de restrição”. Deste modo, esta alimentação vai favorecer oscilações ao longo do tempo.

Se pretende perder peso, deve optar por um regime que a ensine a comer melhor, fazendo uma reeducação alimentar, com base num acompanhamento nutricional individualizado e assíduo. “É fundamental que a pessoa se alimente com prazer e, com prazer de comer, vai conseguir manter os novos hábitos alimentares e um peso saudável”, explica Eduarda Alves.

Qualquer regime que promova a restrição alimentar, por definição, não promove um estilo de vida saudável. Se, de facto, pretende seguir uma alimentação saudável, deve ingerir alimentos de todos os grupos alimentares. Além disso, um estudo recente publicado na revista The Lancet Public Health sugere que o consumo exagerado ou deficiente de hidratos de carbono está associado a um maior risco de mortalidade. A chave pode, então, estar no consumo moderado destes alimentos. Ainda assim, o mesmo estudo anuncia que a substituição dos hidratos por proteína e gordura de origem vegetal representa menores riscos para a saúde do que a substituição por proteínas de origem animal.

 

Pode este regime promover um estilo de vida saudável?

A resposta é unânime: não. Tanto Eduarda Alves como Bruno Pereira não aconselham este regime se o seu objetivo for a perda de peso. “Não aconselharia a dieta cetogénica para promover um estilo de vida saudável. Existem muitas outras alternativas mais saudáveis para ajudar as pessoas a emagrecer e manter um peso saudável, baseadas num acompanhamento nutricional assíduo, na reeducação alimentar, na instituição de uma alimentação adequada às suas necessidades nutricionais e às suas preferências alimentares”, explica Eduarda Alves. A nutricionista refere mesmo que este deve ser o último recurso de alguém que pretende perder peso.

Para Bruno Alves, “a dieta cetogénica dificilmente consegue promover verdadeiras alterações de hábitos alimentares a longo prazo, favorecendo oscilações de peso (YoYo)”. Falamos de um regime que não promove a fisiologia do organismo humano e, por isso, não pode ser vista como alimentação saudável. Colocar o corpo a funcionar à base de corpos cetónicos, em vez de obter energia através da glucose, é algo contranatura e que exige mesmo um período de adaptação do organismo, promovendo uma série de alterações metabólicas, que não acontecem normalmente.

Devido às alterações profundas na alimentação e até ao facto de ingerir menos hidratos, os efeitos secundários adversos são bastante comuns, segundo se pode ler num estudo da Associação Portuguesa de Nutricionistas. Segundo esta associação, a dieta cetogénica, tal como outras terapias não está isenta de efeitos colaterais.

No processo de adaptação, é bastante frequente sentir “fraqueza, tonturas, insónias, confusão mental” ou até mau humor, explica Bruno Pereira. Emocionalmente, a prática desta alimentação tão restrita pode levar a estados depressivos. A Associação Portuguesa dos Nutricionistas afirma ainda que a desidratação, obstipação e atrasos no crescimento são consequências possíveis deste regime alimentar.

Além disso, esta dieta não é recomendada para pessoas com problemas de saúde preexistentes. Condições renais ou cardíacas são os principais entraves, mas lembre-se de que não deve fazer alterações drásticas à sua alimentação sem antes consultar o seu médico. Um dos principais riscos associados à cetose é o a hipoglicémia. Nesse sentido, a monitorização dos corpos cetónicos, quer no sangue, quer na urina é essencial, para garantir a maximização dos resultados.

 

Nutrientes e suplementos

Este é um regime totalmente desaconselhado a atletas, dado que vai causar um decréscimo na performance. Além disso, a recuperação depois de um treino ou competição também é posta em causa. Isto acontece, porque a limitação da ingestão de hidratos de carbono vai fazer com que o atleta entre “precocemente em processo de fadiga”, dado que sem os hidratos de carbono, vai ter níveis de glicogénio muscular mais reduzidos.

“A probabilidade de lesão ou doença será maior”, pelo que esta dieta é desaconselhada a pessoas muito ativas ou atletas, elucida Bruno Pereira. As consequências apresentam-se também ao nível da memória e do raciocínio, que ficam prejudicadas na dieta cetogénica.

Muitas vezes, a ingestão de nutrientes é bastante reduzida e é necessário recorrer à suplementação. Entre os principais nutrientes de que pode sofrer carências destacam-se o ferro, o cálcio e o ómega 3. Bruno Pereira defende que “o conceito de alimentação saudável implica a ingestão de todos os nutrientes através de alimentos, pelo que não parece ser muito sensato eliminar alimentos (nutrientes) para ingerir comprimidos”.

Apesar de existirem várias correntes da dieta cetogénica, na sua forma mas clássica a restrição de água é também essencial. A água é um bem restrito, dado que põe em causa o processo de cetose. Eduarda Alves explica que “a água pode ter uma ação alcalinizante e estamos a tentar provocar uma acidificação”, pelo que se a sua ingestão não for restrita, os resultados podem estar em causa.

Esta questão anuncia mais um dos perigos da dieta cetogénica, dado que para garantir a hidratação do organismo é necessário beber, pelo menos, 1.5l de água por dia – valor que, claro, varia de pessoa para pessoa.

 

Manter-se saudável

Aposte num estilo de vida saudável e, se tem interesse pela dieta cetogénica, converse com um nutricionista e o seu médico de família, antes de iniciar o processo. Qualquer alteração ao regime alimentar deve sempre ser seguido por profissionais de saúde e acompanhado de análises regulares para garantir o equilíbrio nutricional.

Brand Story