Menu
Inicio Saúde Desmistificamos a diabetes na Semana Europeia do Desporto

Desmistificamos a diabetes na Semana Europeia do Desporto

Falámos com a presidente da Associação de Jovens Diabéticos de Portugal para desmistificar algumas questões relacionadas com a diabetes.

diabetes

A diabetes é uma doença crónica que se caracteriza pelo aumento da concentração de açúcar no sangue. Apesar de existirem vários níveis desta doença, são o tipo 1 e o tipo 2 os mais comuns e os que afetam a maior parte da população com esta condição.

Para ajudar a desmistificar a diabetes é essencial a promoção de iniciativas como a Semana Europeia do Desporto, que este ano se celebra entre 23 e 30 de setembro. Esta é uma atividade da Comissão Europeia, com o objetivo de promover o desporto, a atividade física e a vida saudável dos cidadãos europeus. Durante esta semana, vão realizar-se uma série de iniciativas e atividades, cujo programa pode consultar no site do Instituto Português do Desporto e da Juventude, o coordenador do projeto em Portugal.

O objetivo é que haja atividades inclusivas, em que a população em geral possa participar e, portanto, também as pessoas com diabetes. Com o lema “be active”, a Comissão Europeia pretende que as comunidades se mantenham ativas, praticando desporto durante todo o ano.

Falámos com Paula Klose, presidente da Associação de Jovens Diabéticos Portugueses (AJDP), para entender a diabetes. Esta associação nasceu há 22 anos da vontade da endocrinologista Sílvia Saraiva e o objetivo central mantém-se ainda hoje: “desmistificar a diabetes como doença incapacitante”. Para Paula Klose, é necessário desmistificar e sobretudo educar a população sobre as premissas da doença. É essencial chegar ao máximo de pessoas possível, para evitar mal entendidos e explicar às pessoas no que consiste, de facto, esta doença.

Ainda que esta seja uma doença vulgarmente associada a maus hábitos alimentares e a um estilo de vida destrutivo, atinge também crianças saudáveis. Em Portugal, segundo dados do Relatório Anual de 2016 do Observatório Nacional da Diabetes, existem certa de 3300 jovens diagnosticados com diabetes. Estes jovens, com idades compreendidas entre os zero e os 19 anos, têm, maioritariamente diabetes tipo 1.

 

Tipo 1 Vs. Tipo 2

São vulgarmente confundidos, mas estes dois tipos de diabetes são bastante diferentes. Além da diferença na forma como surgem, o tipo 2 é ainda muito mais frequente. O tipo 1 é o que “não produz nenhuma insulina e é muito mais frequente nos jovens, não havendo um fator genético muito acentuado” que justifique o aparecimento da doença, explica Paula Klose.

O tipo 2 é muito mais derivado do estilo de vida sedentário, falta de exercício físico e uma alimentação descuidada“, continua a presidente da AJDP. Ainda assim, esta estirpe da doença tem uma carga genética bastante mais pesada. Esta é uma forma que se revela especialmente em pessoas com mais idade, fruto de anos de escolhas erradas. Devido ao aumento da obesidade, a diabetes 2 também está a aumentar entre as populações mais jovens.

“Eu tenho diabetes tipo 1, mas, por falta de informação, as pessoas assumem que eu tenho diabetes tipo 2, que existe em muito maior quantidade. Isto faz com que haja comentários desfasados da realidade“, explica Paula. Segundo o Observatório Nacional da Diabetes, a incidência de diabetes é quatro vezes superior em pessoas obesas do que em pessoas com o índice de massa corporal dentro dos valores normais (IMC<25).

 

Como saber se sofro de diabetes?

Nos casos de diabetes 2, a pessoa vai sentir algum cansaço e sintomas leves, mas não os vai associar diretamente à diabetes. Já o tipo 1 é impossível não ser detetado pouco tempo depois do seu aparecimento. Paula foi sempre uma criança saudável até aos 13 anos, quando começou a sentir uma série de sintomas intensos. “Eu bebia muita água e quando digo muita é à volta de 5L por dia. Era magrinha, mas fiquei ainda mais magra, comia imenso e sentia-me sem energia e doía-me a cabeça. Não havia forma de não notar”, conta a presidente da AJDP.

Quem tem diabetes pode viver uma vida perfeitamente normal, desde que tenha alguns cuidados básicos, mas ” os cuidados de alguém que tem diabetes são os cuidados de uma pessoa que queira ter um estilo de vida saudável, quer tenha ou não diabetes”, continua Paula.

É fundamental ter uma alimentação saudável e até praticar exercício físico, tal como qualquer pessoa considerada saudável. “O que temos de fazer, extra, é perceber quais são os níveis de açúcar no sangue e dar insulina de acordo com aquilo que vamos comer ou com a atividade física que vamos fazer”. Ainda assim, em alguns casos, seguir um estilo de vida saudável não é suficiente e a pessoa pode ter de tomar medicação, pelo que ainda se torna mais essencial o aconselhamento médico.

Tratamentos

Esta é uma doença que pode ser controlada com recurso à toma de insulina e através de alguns medicamentos, mas para a qual ainda não existe cura. A solução mais extrema seria um transplante de pâncreas, nos casos em que o órgão não tem capacidade de produzir nenhuma insulina. No entanto, Paula Klose adianta que os riscos associados a este procedimento são muito elevados.

Quem tem diabetes pode viver uma vida perfeitamente normal, desde que tenha alguns cuidados necessários “como levar sempre a insulina e fazer os testes, percebendo qual é o nível de açúcar que tem no sangue”. A presidente da AJDP afirma que é possível estar muitos anos sem ter nenhuma complicação decorrente da diabetes tipo 1, desde que a doença esteja controlada. Esse é um cenário mais difícil quando pensamos no tipo 2, já que é uma doença silenciosa, ou seja, “a pessoa pode ter tipo 2 durante muitos anos sem saber, porque o pâncreas ainda produz alguma insulina“. Quando finalmente a pessoa toma conhecimento do estado da doença, algumas consequências como a perda de visão podem já ter sido exacerbadas.

Um cuidado especial com a alimentação

No que toca à alimentação, é essencial aprender a contar as quantidades de hidratos de carbono presentes em cada receita. Paula Klose afirma que esta é uma adaptação e nunca uma limitação, reforçando mesmo que não vê nenhum tipo de limitação decorrente da diabetes. “O meu marido, que também tem tipo 1, diz que esta é a melhor doença crónica que se pode ter, porque temos tudo à nossa disposição para podermos ter uma vida saudável”.

No dia-a-dia, é necessário perceber quais são os níveis de glicemia no sangue, contar a quantidade de hidratos de carbono que vão ingerir ou ainda o nível de exigência do exercício que vão praticar. São estes fatores que determinam a quantidade de insulina que devem injetar, sendo que este é um processo que é aperfeiçoado com o tempo, à medida que conhecem melhor os seus corpos.

Para um diabético, tal como para alguém sem a doença, é fundamental ter uma alimentação saudável e variada. Ainda assim, é possível desviar-se dessa linha e, por exemplo, jantar numa cadeia de fast food. “O meu pâncreas não tem capacidade para libertar insulina e eu tenho de o substituir, mas não sou tão boa a substituí-lo como ele próprio. Às vezes as pessoas, quando estou a comer algum bolo, perguntam-me sempre se posso comer aquilo. Se elas podem eu também, desde que tenha a insulina“.

 

Diabetes e a maternidade

Paula é mãe de uma menina e um menino. Apesar de ser diabética, isso não a impediu de ter duas gravidezes normais. Na verdade, sente que foram gravidezes até mais seguras, dado que por ser diabética tinha um seguimento médico mais frequente.

Apesar de os filhos não terem diabetes, é possível que venham a desenvolver a doença, mas não é algo que a preocupe. “Foi parto normal dos dois, doeu como à maior parte das mulheres, mas correu tudo bem e não houve problemas relacionados com a diabetes”.

 

Diabética e atleta de alta competição? Sim, é possível!

Tal como quem não sofre de diabetes, quem tem a doença pode e deve praticar desporto. Isto, porque com a alimentação, os níveis de açúcar no sangue vão subir e o exercício físico é uma forma eficaz (juntamente com a insulina) de controlar esses valores.

É importante explicar que, para quem tem diabetes, é possível praticar desporto também ao mais alto nível. “Podem fazer tudo e mais um bocadinho, só para provar que não há realmente limitações. É preciso ter um controlo bom da doença e não descorar. É desaconselhado fingir que não tem a doença e não fazer os testes”.

Na Associação de Jovens Diabéticos de Portugal, o incentivo à prática de atividade física é essencial e chegam mesmo a promover uma série de atividades tanto para as crianças e jovens que sofrem com a doença, como para os familiares. Algumas dessas atividades têm mesmo o objetivo de testar os limites e provar que quem sofre de diabetes não está, à partida, condicionado. O melhor exemplo são as expedições de montanhismo, tendo já subido algumas das maiores montanhas do mundo como o Monte Branco ou o Kilimanjaro.

Para desmistificar a questão de que os diabéticos podem ter uma vida desportiva ativa, existe mesmo uma competição europeia de futsal. Também neste sentido, a Semana Europeia do Desporto tem bastante importância, dado que promove a ideia de que a prática de desporto não tem limitações.

Na AJDP existe ainda uma colónia de férias desportivas de verão, exclusivamente para os jovens com diabetes e ainda atividades de fim de semana, como caminhadas que incluem toda a família e amigos.


Leia também

https://www.womenshealth.pt/saude/combater-diabetes-5-passos/

 

Brand Story