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Os riscos da moda dos (falsos) nutricionistas nas redes sociais

#SomosTodosNutricionistas? Não, e é preciso separar as águas, principalmente agora que as redes sociais são palco para influenciadores da alimentação.

Os riscos da moda dos (falsos) nutricionistas nas redes sociais

Abrimos o Instagram e todo o nosso feed se enche de comida bem apelativa. A cada scroll aparecem torres de panquecas, smoothies coloridos e papas de aveia repletas de toppings. Não resistimos e fazemos um double tap a cada fotografia que vemos; continuamos mergulhadas entre tostas de abacate de fazer crescer água na boca e mesas fartas de pratos verdes. Entre estas publicações surgem uns quantos conselhos de consumo e outros tantos códigos promocionais à mistura. Com tudo isto, o cérebro começa a pensar: “Tens de comer isto! Tens de comprar já isto!’ Revê-se neste cenário? É normal, nós também. É nada mais do que o espelho da emancipação da alimentação que vivemos nos dias de hoje. Mas nem tudo são rosas… comestíveis.

“Há um interesse crescente e global pela alimentação, o que não deixa de ter pontos positivos, nomeadamente na consciencialização da alimentação para a saúde individual e coletiva”, comenta a Dra. Tânia Silva Martins, especialista em medicina geral e coordenadora do Grupo de Estudos em Nutrição e Exercício Físico da APMGF – Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar. Mas onde há interesse há também risco, especialmente quando das imagens de comida passamos para conselhos nutricionais.

Um hábito que se enraizou

“Quando o povo me diz ‘de médico e louco todos temos um pouco’ pretende, de forma sábia até, referir que, facilmente, as pessoas têm tendência para generalizar as suas experiências pessoais e opinar sobre saúde e bem-estar”, diz à Women’s Health o médico endocrinologista Davide Carvalho, presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo.

Quantas vezes recebeu um conselho relacionado com nutrição por parte de alguém que não tem formação nesta área? Algumas, possivelmente. E quantas vezes esteve nesse papel de conselheira? Outras tantas, não é verdade?

“Toda a gente acha que percebe de nutrição e de alimentação. É uma área em que toda a gente acha que pode dar a sua opinião”, começa por explicar a nutricionista Maria Alexandra Cruz, também coordenadora da Unidade de Nutrição do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central.

A força das redes sociais

Embora seja já uma realidade antiga, as redes sociais vieram intensificar esta tendência, trazendo consigo uma série de riscos que nem todos sabem medir. “Há pessoas que já têm algum cuidado com a informação que publicam online, mas há muito a ideia do milagre. Para isso, agarram-se a tudo o que possa prometer o tal milagre e chamar a atenção para as suas publicações”, continua a especialista, salientando que “as pessoas veem estas recomendações [nas redes sociais] associadas a credibilidade porque, muitas vezes, são os ídolos que as fazem e acham que aquilo é a verdade absoluta, seguindo os conselhos sem pensar nas consequências”.

De acordo com o Dr. Francisco Sobral do Rosário, médico especialista em endocrinologia no Hospital da Luz, em Lisboa, “o problema não é o conselho [que é dado na rede social], é, sim, alcançar um conjunto equilibrado de princípios nutricionais e o impacto que este vai ter na construção do comportamento alimentar, com consequências que não se medem muitas vezes no imediato, mas sim no médio/ longo prazo”.

Soa a exagero?

Não é, acredite. E a nutricionista Maria Alexandra Cruz dá um exemplo bem concreto. “Há produtos que têm estimulantes e ingredientes que podem alterar o metabolismo em pessoas que têm problemas de tiroide”. E as pessoas sabem decifrar esses mesmos ingredientes? Não, e por vários motivos: primeiro, não têm literacia nutricional suficiente, depois, acreditam que aquele produto promovido nas redes sociais (de forma remunerada ou não, algo que nem sempre é claro) é realmente bom para toda a gente porque está a ser partilhado por um influenciador digital com um considerável número de seguidores.

Somos todos nutricionistas?

A Women’s Health fez a todos os especialistas a mesma questão: “Está a profissão de nutricionista banalizada?” A resposta foi um não unânime, mas a dra. Tânia Silva Martins, também pós-graduada em Nutrição Clínica, confessa-nos que “têm-se banalizado as temáticas ligadas à nutrição e à alimentação. A população está cada vez mais interessada neste assunto e a quantidade de informação disponível nos diferentes meios de comunicação pode dar a falsa sensação de controlo sobre uma área de conhecimento científico especializada e importante e que não se aprende através das redes sociais”. Mas, porque é que as pessoas se agarram tanto ao que veem nas plataformas digitais? Porque é informação fácil (e conveniente) de digerir.

Mas a culpa não é apenas de quem a consome – a situação é bem mais complexa do que isso.

“Infelizmente, não existem nutricionistas suficientes nos centros de saúde”, lamenta Maria Alexandra Cruz. No ano passado, o Serviço Nacional de Saúde abriu um concurso para a contratação de 40 nutricionistas para centros de saúde, número de profissionais que ainda está aquém do desejado. O facto de se ter de consultar um nutricionista no serviço privado faz que muitas pessoas desistam à primeira consulta – ou até antes –, acabando por procurar estratégias mais económicas, como as pesquisas online ou as próprias redes sociais. Mas cabe a cada pessoa tentar evitar isso mesmo e valorizar a profissão de nutricionista.

“Está na altura de mudar os padrões alimentares e motivar para um estilo de vida ativo, com uma alimentação equilibrada e adequada, mas para isso temos de apostar em literacia em saúde e não na promoção de fotografias de pequenos-almoços coloridos e bonitos, como se vê diariamente nas redes sociais de influencers digitais, que promovem dietas e tipos de alimentos sem haver conhecimento científico robusto na base destas divulgações, com riscos a curto e a longo prazo, nomeadamente nas dietas mais extremas, como a cetogénica, o jejum prolongado ou a dieta paleo”, alerta a dra. Tânia Silva Martins.

O que diz a Ordem dos Nutricionistas?

Contactada pela Women’s Health, Alexandra Bento, bastonária da Ordem dos Nutricionistas, revela que esta “onda de influenciadores digitais sem formação em nutrição que dão aconselhamento nutricional é um problema. Tal merece atenção e grande preocupação. Quem necessita de aconselhamento nutricional deve assegurar-se de que é feito por nutricionistas. É importante alertar a população para consultar o Registo Profissional no site da Ordem de forma a garantir que o serviço é prestado por um nutricionista”.

Ainda relativamente a esta tendência, a bastonária alerta para o facto de que “existe muita desinformação e os influencers digitais muitas das vezes dão dimensão a esta desinformação”. Porém, reconhece que, “por outro lado, as plataformas digitais e as redes sociais podem ser uma oportunidade. Quando bem trabalhadas, podem melhorar os hábitos alimentares da população. Há alguns nutricionistas que trabalham as redes sociais e fornecem informação muito pertinente e de qualidade”.

Esta é, diz, “uma prática que está a ganhar dimensão. As pessoas procuram cada vez mais serviços online de forma a adaptarem o seu estilo de vida”. Para que não sejam feitas falsas recomendações, “o importante é que a informação seja de qualidade e por quem tem formação para a prestar. Acresce que os nutricionistas poderão encarar as plataformas digitais como uma oportunidade de complemento aos acompanhamentos presenciais. A Ordem está atenta, e o Conselho Jurisdicional desenvolveu um parecer nesse sentido.”


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