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Desafio WH: uma semana sem alimentos de origem animal

Uma jornalista da Women’s Health aceitou o desafio de seguir uma alimentação vegan ao longo de uma semana. Foi difícil? Saiba a resposta neste testemunho.

Desde que vim para Lisboa, há nove anos, que a carne e o peixe deixaram de ser protagonistas das refeições cá de casa. Os motivos foram muitos, mas apresento aqui os dois principais.

Primeiro: os animais. A produção exaustiva de gado para consumo alimentar é das coisas mais surreais e está nas nossas mãos (bocas) travar isso. O mesmo em relação ao peixe. Durante a pesca são apanhados na corrente peixes ainda jovens que não chegam a reproduzir-se, o que compromete a espécie. Menos consumo, mais felicidade animal.

Segundo: a qualidade. Nunca fui grande fã da ideia de ter um pedaço de músculo no prato e a qualidade não ajuda. Há uns anos que noto que há carne que fica mergulhada em ‘água’ assim que a levo à frigideira. E é só um exemplo.

Os aliados

O principal: planeamento (o que é válido para qualquer tipo de alimentação). Ora, planeei as refeições para a semana – como faço sempre -, variei os almoços e os jantares, continuei fiel à sopa todos os dias, tive o cuidado com a junção de vitamina C às refeições com leguminosas e resisti ao café após as refeições.

Consultei alguns dos livros sobre alimentação vegan que tenho em casa, mas confesso que fui vezes sem conta ao Instagram das nutricionistas Ana Isabel Monteiro e Bárbara Oliveira para tirar algumas dúvidas e copiar receitas.

Para o desafio contei ainda com a ajuda do kit Plant Power da Iswari, que me foi oferecido pela marca. A ideia era fazer o desafio por conta própria, tal como fiz com o plástico, mas, honestamente, ainda bem que aceitei a oferta. Achei que seria algo que não iria fazer qualquer diferença, mas faz, sobretudo pelos alimentos que não são de consumo único.

O kit tem um custo de 172€, traz 31 produtos – que são muito variados! – e um manual ao estilo bê-à-bá da alimentação vegan, com um menu quinzenal com receitas super rápidas e fáceis de fazer – fiquei fã da omeleta vegan e da levedura nutricional, que nunca tinha experimentado! É um investimento, mas vão por mim, pode compensar: fiz o desafio no início de fevereiro e estou a escrever em abril e ainda com alguns dos produtos na minha despensa, mesmo a cozinhar refeições vegan com regularidade.

Dito isto, informação e alimentos certos são aliados, sendo que por alimentos certos refiro-me aos que respeitam as necessidades e limitações de cada um. Falem com um nutricionista antes de qualquer aventura!

O que comi

As refeições principais foram as seguintes e todas elas confecionadas por mim, à exceção do hambúrguer que comprei feito no supermercado: sopa (variei entre cremes de brócolos, de cenoura e de beterraba), pataniscas de grão com arroz de tomate (vejam a receita da Vânia do Made By Choices, é só incrível); bowl de quinoa com cebola roxa, espargos, ervilhas e sementes de abóbora; omelete vegana com beterraba, tomate e espargos; massada de feijão preto, cenoura, grelos e tomate; esparguete com almôndegas de tofu e cogumelos com brócolos; rissóis de vegetais feitos no forno (obrigada, mãe!) com massa de lentilhas; hambúrguer de tofu e algas em bolo do caco com salada e batata frita; noodles de arroz com mistura chinesa e cogumelos; chili de dois feijões com arroz basmati; seitan à portuguesa e empadão de lentilhas com cogumelos.

Tentei beber sumo de laranja e limonada às refeições, mas numa delas rendi-me à bela da sidra (sou team equilíbrio, já sabem). Quanto aos pequenos-almoços e lanches, variei entre o pão feito em casa com manteiga de frutos secos e banana, iogurte vegan com frutos secos, pudim de chia, papas de aveia e panquecas. A fruta esteve presente em todas as refeições, como habitual, assim como os frutos secos e as sementes, sobretudo de cânhamo e abóbora, que coloco na sopa.

Os prós e contras

Leguminosas (sobretudo secas), frutas, vegetais, massa e arroz são, por norma, alimentos económicos e facilmente ganham destaque numa refeição vegan – embora, convenhamos, o que se passa com o preço da fruta?! Mesmo com uma inflação à boleia da pandemia, o preço destes alimentos ‘base’ é um ponto positivo: além de fáceis de cozinhar e combinar, não têm um impacto tão grande no orçamento como a carne, o peixe e os ovos.

O mesmo já não posso dizer dos cogumelos e dos frutos secos, que acabam por ter um custo mais elevado e são importantes para um regime alimentar variado. De qualquer modo, a relação qualidade-preço está no topo dos de motivos para que cá em casa se façam mais refeições vegetarianas do que as ditas convencionais.

Como seria de esperar, não fosse eu a pessoa que passa horas no Google a pesquisar tudo e mais um par de botas, fui ao supermercado analisar os rótulos e comparar os preços, qual Sherlock Holmes. Sem surpresa, o nome ‘vegan’ faz o preço disparar. A minha alimentação é simples, não costumo ir por modas ou por opções muito processadas, mas uma coisa é comprar pontualmente um alimento destes, outra é consumi-los diariamente. E isso fica caro.

Se, por um lado, temos a base da alimentação vegan a bom preço, por outro, qualquer extra pode custar uma pequena fortuna. Paguei 2,50€ por dois (!) iogurtes. Havia mais barato? Sim, mas com quantidades assustadoras de açúcar (e não estou a exagerar, há iogurtes vegan com mais de 15 gr de açúcar por unidade). O mesmo em relação às alternativas ao queijo, que acabam por ser mais caras, tal como as bebidas vegetais são mais dispendiosas do que o leite de vaca e as bolachas vegan custam três vezes mais do que as convencionais.

Um pacote de biscoitos de alfarroba 100% vegan custa 2,10€, a título de exemplo. E não vou falar nos chocolates e enchidos vegan, que existem em grande variedade, pois são alimentos que não consumo, nem mesmo na sua versão ‘original’.

Ao seguir uma alimentação vegan, percebi que ler os rótulos é determinante e isso fez-me
evitar muitos alimentos processados, não só porque, lá no fundo, se ganha uma maior consciência do que faz bem e mal e se come mais alimentos ‘naturais’, mas também, once again, quis ser extremista e nem sequer alimentos com derivados ou vestígios de leite e ovos consumi.

Vão por mim, se quiserem ir por aí, então preparem-se para ter uma lista de compras bem mais reduzida do que estavam à espera, o que não é mau, comem menos alimentos processados. Outra coisa que notei é que há muito produto vegan de má qualidade, demasiado processado ou nutricionalmente pobre. E, mais uma vez, informação é poder, vai na volta e pensam que estão a trazer um hambúrguer bonzinho e a verdade é que vão comer à garfada quantidades exageradas de óleos, amidos e sabores artificiais.

Um conselho? Antes de irem às compras pesquisem tudo o que querem comprar no site do Auchan, que revela sempre o valor nutricional e os ingredientes de toda a comida que vendem. Foi remédio santo para mim, a minha lista de compras reduziu antes de sair de casa.

E agora?

A meu ver, são mais os prós dos que os contras, sobretudo quanto ao impacto que tem – pelo menos em mim – na consciência de que se está a fazer algo pelo bem dos animais e do ambiente (embora uma dieta vegan não seja ecologicamente tão inocente como o esperado). Mas esse foi talvez o aspeto que mais me marcou durante o desafio.

Apesar de não usar roupa, calçado e acessórios feitos com materiais de origem animal há vários anos, senti que estava a dar mais um passo nas causas que defendo. Mas percebi também que não quero passar os dias com cálculos e combinações para ter sempre uma refeição nutricionalmente completa.

Como pouca carne e peixe, não gosto de enchidos, não bebo leite, não sou fã de queijo e assim continuarei. Quero uma alimentação variada, equilibrada e descomplicada. Quero ser flexível, ir ao norte e comer a comida que a minha família prepara, sem alterações, sem pedidos especiais. Assim como quero que os meus familiares continuem a comer as refeições vegetarianas que preparo.

É tudo uma questão de equilíbrio e consciência. Acho que, para mim, este é o caminho.

 

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