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E se fosse possível curar-se com o poder da mente?

Falamos do efeito placebo, um tema controverso, que não é novo, mas que pode ser a solução para alguns dos seus problemas. saúde. Pílulas mágicas?

E se fosse possível curar-se com o poder da mente?

Comecemos por partes. O que é afinal esta coisa do efeito placebo? Em palavras de médico, “o placebo é um efeito positivo atribuído a um comprimido ou tratamento que não resulta diretamente do seu efeito farmacológico ou das suas propriedades”. Assim explica Tiago d’Oliveira, médico de Medicina Geral e Familiar na USF S. João do Pragal. No fundo, é aquilo que acontece quando acreditamos que um tratamento terá um efeito positivo no nosso mal-estar, ainda que essa prescrição não tenha em si um verdadeiro medicamento. O problema surge quando esta prescrição é feita sem o conhecimento do paciente, que se sente enganado. Mas não será esse o segredo da coisa?

Na máquina do tempo

Para entender como uma pessoa pode estar tão desesperada por um analgésico que chega ao ponto de se convencer a si própria de que um suposto medicamento alivia a sua agonia, é necessário entrar na máquina do tempo e fazer uma breve viagem ao passado.

Estamos, então, no ano de 1772, altura em que a febre tifoide fazia os horrores de milhares de pacientes. Claro está, nesta altura as farmácias que hoje conhecemos eram uma autêntica fantasia. É nesta altura que o médico escocês William Cullen acaba de desenvolver duas ideias, digamos, estranhas.

A primeira diz-nos que a atitude mental pode curar doenças e a segunda, que uma substância inerte, como a água mentolada, pode aliviar a dor. Foi a primeira vez que se ouviu falar daquilo que, hoje, conhecemos como efeito placebo. Mas o boom só se deu verdadeiramente séculos mais tarde, em 1955. Foi neste ano que o cirurgião Henry Beecher publicou um artigo, em que assegurava que mais de um terço dos pacientes podia curar-se usando unicamente pílulas sem relação terapêutica.

Apesar do seu estudo ter provocado grande alvoroço e muitas discussões, cimentou o efeito placebo enquanto feito científico. Hoje, o método continua a ter uma reputação duvidosa, é encarado com relutância e as farmacêuticas gastam milhões para provar que os seus medicamentos têm efeitos mais eficazes do que as substâncias inertes. Ainda assim, por que não explorar o poder curativo da mente? É que há quem defenda que enganar o cérebro pode ser a chave para solucionar pequenos mal-estares, antes de atacar em fúria o armário dos medicamentos.

Um jogo mental

Quando se fala em placebo, o mais comum é pensarmos imediatamente em pastilhas de açúcar, mas nem sempre isso é o mais correto. Quase todos os tratamentos médicos – cremes de uso tópico, inaladores ou injeções – podem, na verdade, produzir este efeito. E, de facto, quanto mais evasivo é um procedimento, maior sensaão de melhoria é associada.

A prová-lo está um estudo sobre a doença de Parkinson, desenvolvido na Universidade do Colorado (E.U.A.), no qual foram transplantados neurónios produtores de dopamina para o cérebro de pacientes com doença de Parkinson, através de uma broca que perfurava o crânio. Apenas metade do grupo levou o tratamento até ao fim, sendo que a outra metade se ficou por pequenos furos provocados pela broca. O resultado? Uns quantos cérebros bem enganados! Como acharam que tinham recebido um tratamento igual, os pacientes do segundo grupo revelaram melhorias significativas, mesmo sem terem recebido os neurónios.

Resposta antecipada?

“O efeito placebo resulta das expectativas que temos sobre determinado tratamento. Nesse sentido, ainda antes desse mesmo tratamento, o cérebro começa a produzir uma resposta congruente com o efeito esperado. Neste momento, liberta endorfinas e hormonas indutoras desse estado”, explica Inês Custódio, psicóloga na Oficina da Psicologia, em Lisboa. Surge a dúvida: o efeito placebo é, então, real ou meramente psicológico? A especialista responde: “É muito difícil separarmos real de psicológico, uma vez que mentalmente todos nós criamos a nossa realidade e aquilo em que acreditamos, mesmo sem nos darmos conta disso. Desta forma, podemos considerar que o efeito placebo é real e psicológico, na medida em que acreditarmos que algo nos pode ajudar, efetivamente torna essa uma via mais real e eficaz para nós”.

E funciona se soubermos que estamos a recorrer a este método? “Alguns estudos têm mostrado que a capacidade de visualizarmos um resultado positivo pode ser determinante para que a nossa mente e corpo se comportem dessa forma”.

O seu eu hipocondríaco

Uma investigação levada a cabo pelo British Medical Journal revelou que 55% dos médicos estadunidenses já receitou placebos para satisfazer pacientes mais inseguros.

Mas, se nos Estados Unidos a prática é encarada com alguma normalidade, em Portugal o placebo é ainda uma espécie de tabu. A verdade é que não há sequer dados estatísticos sobre o mesmo. “A prescrição de placebos é um assunto ainda muito controverso. As vozes da crítica apontam as questões éticas, na medida em que a prescrição destes produtos seria como que enganar o paciente”, afirma Tiago d’Oliveira. O especialista acrescenta que, ainda que a prescrição isolada de placebos não seja uma prática, o efeito placebo está muito presente no nosso dia-a-dia.

“Os médicos geralmente prescrevem medicamentos que tenham fundamento científico racional. Mas nestes fármacos, o efeito placebo pode estar sempre associado e reforçar o efeito esperado”, sublinha. É difícil aceitar que um médico pode estar a passar uma receita que não tem um verdadeiro medicamento. Mas, às vezes, o nosso eu hipocondríaco só precisa de ser descansado.

Avaliar os casos um a um

Isto, claro está, pode ter os seus riscos e cabe ao profissional de saúde avaliar bem a situação. “Quando nos deparamos com estas situações, mais importante que dar um medicamento, é perceber a razão para o sintoma. Muitas vezes estas queixas podem ser o cartão de visita de uma situação mais complexa”, alerta Tiago d’Oliveira.

Por norma, uma visita de rotina tem a duração de 10 minutos (ou seis quando se trata do serviço público). Em muitos casos, essa é toda a atenção médica recebida durante o ano e uma das razões para o mau resultado de alguns tratamentos. Segundo um estudo da Universidade de Harvard, a efetividade de um procedimento médico sobe entre 44% a 62% quando o médico atende os pacientes com proximidade e segurança em si próprio.

“A forma como algo nos é explicado tem impacto na credibilidade que damos ao tratamento. Estamos largamente dependentes das nossas impressões. Por isso, terá impacto para nós o reconhecimento que temos pela pessoa que nos faz essa descrição”, defende Inês Custódio. Segundo a psicóloga, é, por isso, essencial que o profissional de saúde seja competente. O essencial é que se sinta esclarecida, lhe reconheça credibilidade e que o ambiente lhe proporcione boas sensações.

Há males e males

Ter fé num tratamento não é, obviamente, suficiente para solucionar todos os problemas de saúde. E, claro está, o efeito placebo não pode sozinho curar uma perna partida ou travar um cancro da mama. O placebo pode sim ajudar quando o assunto é um mal-estar físico, como as dores menstruais, por exemplo.

Quando a menstruação tem início, o útero alerta o sistema nervoso, que envia um sinal de dor ao cérebro… e o resto já sabe (ou sente!). Geralmente, os medicamentos ajudam-na a suavizar as dores. Mas o simples ato de tomar um qualquer comprimido ativa os neurotransmissores que aliviam a dor. Daí se leva à libertação dos seus próprios analgésicos naturais. Mais importante que enganar o cérebro, será trabalhar o poder da mente e manter uma atitude mental positiva.

Em suma, é um tema bastante delicado, mas a que vários médicos admitem recorrer. Percorra a galeria de imagens acima para ficar a par de alguns dados concluídos num estudo sobre o tema.

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