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A importância de não adiar mais as consultas de planeamento familiar

As consultas de planeamento familiar são extremamente importantes para a saúde sexual da mulher, mas a pandemia dificultou o acesso às mesmas.

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Impacto e pandemia são duas palavras em voga nos dias que correm. Com a reabertura do país e avanço das novas fases de desconfinamento, torna-se pertinente avaliar os setores que mais sofreram no último ano.

A chegada do coronavírus afetou o acesso às consultas médicas, nomeadamente as de planeamento familiar. Mesmo após a implantação de normas de segurança, o medo de contrair Covid-19 levou a população a optar por não se deslocar aos centros de saúde. Se antes da pandemia estes valores não eram positivos, com cerca de 40% das mulheres, entre os 35 e 39 anos, a não fazerem qualquer consulta de planeamento familiar, agora a realidade é ainda mais preocupante.

A consulta de planeamento familiar proporciona uma vida sexual plena e segura, dando a possibilidade de decidir se, quando e com que frequência a mulher deseja ter filhos. No entanto este acompanhamento profissional ficou comprometido durante a pandemia, pelo que é essencial esclarecer a importância destas consultas e os riscos associados à sua desvalorização, que implicam dificuldades na obtenção de métodos contracetivos seguros e eficazes, levando a interrupções voluntárias da gravidez. É de salientar que tais consultas são gratuitas, bem como os contracetivos.

Para tal, a Women’s Health conversou com a Dra. Ana Rosa Costa, Vice-presidente da Sociedade Portuguesa da Contraceção e Assistente Hospitalar Graduada de Ginecologia e Obstetrícia do CHU S. João – Porto.

 

Impacto da pandemia nas consultas de planeamento familiar

De acordo com a perceção profissional, a especialista considera que a pandemia veio exacerbar as assimetrias no acesso ao planeamento familiar com dificuldade na marcação de consultas. “Além disso, muitos hospitais adiaram a esterilização cirúrgica, verificou-se uma diminuição no acesso aos métodos contracetivos reversíveis de longa duração e de maior eficácia (dispositivos intrauterinos e implantes) e ficaram muitas dúvidas por esclarecer”, acrescenta.

Em termos de percentagens, “só em 16% dos casos não foram afetados os serviços e em 35% houve diminuição da atividade. As consultas presenciais durante a pandemia ficaram muito limitadas, pelo que é importante implementar, ou expandir, métodos que aumentem o acesso à contraceção, nomeadamente com consultas não presenciais. Apesar de desafiante para as consultas de ginecologia, porque não permite o exame ginecológico, o formato não presencial pode permitir, de forma eficiente, a prescrição de métodos contracetivos, como a pílula, o anel vaginal ou o adesivo, bem como pode ser útil para aconselhamento e prescrição de contraceção de emergência”.

“Se a mulher precisar ou desejar a colocação de um dispositivo intrauterino ou de um implante contracetivo, então deverá ser marcada consulta presencial com a maior brevidade possível. Só assim conseguiremos garantir às mulheres o direito a uma vida sexual saudável e segura e evitar a gravidez não planeada nem desejada e, consequentemente, o recurso à interrupção voluntária da gravidez”.

 

Importância das consultas de planeamento familiar e fertilidade

Ainda que a pandemia tenha modificado muitos hábitos e práticas de cuidados de saúde, não alterou a necessidade de uma contraceção segura e eficaz. A consulta é indicada à mulher quando precisa de iniciar ou alterar o método contracetivo, quando tem queixas do foro ginecológico ou quando surgem efeitos adversos associados ao método utilizado.

“A consulta de planeamento familiar destina-se a fornecer informação e aconselhamento contracetivo correto, de forma clara, para que a mulher possa optar livremente pelo método que melhor se adapta às suas necessidades e expectativas, permitindo-lhe planear quando e quantos filhos quer ter. Na consulta de planeamento familiar, os riscos e benefícios dos diferentes métodos disponíveis são avaliados de forma individual para cada mulher, abordando questões relacionadas com valores (incluindo a aceitação de uma gravidez não planeada em caso de falha do método), crenças, frequência de administração do método, questões económicas (no caso de contracetivos não comparticipados), entre outras”, diz a Dra. Ana Rosa Costa.

“Esta decisão informada e partilhada entre médico e utente irá permitir uma aceitação e maior adesão ao método, reduzindo, assim, a taxa de gravidez não desejada. A consulta de planeamento familiar constitui também uma oportunidade para informação e rastreio de infeções sexualmente transmissíveis”.

 

Riscos de desvalorizar ou adiar tais consultas

A desvalorização ou adiamento destas consultas pode não só acarretar o risco de uma gravidez não planeada, mas também perigos para a saúde, nomeadamente infeções sexualmente transmissíveis. Tudo advém da seleção de métodos não adequados ou da falta de informação correta.

“Resultados das consultas da interrupção da gravidez por opção das mulheres mostram que 75% das utentes referem a utilização de contraceção, pelo que a questão que se impõe é: será adequada? Apesar da variedade de opções contracetivas, as taxas de gravidez não planeada ou indesejada permanecem globalmente elevadas, nomeadamente na adolescência, com consequências pessoais, familiares e sociais, e recurso a interrupção de gravidez por opção, que muitas vezes deixa sequelas a nível psicológico”.

 

Conselhos para jovens mulheres

A Dra. Ana Rosa Costa não pode deixar de partilhar conselhos práticos para as jovens mulheres na fase inicial da vida sexual:

– “Antes de iniciar a atividade sexual, se possível, recorrer à consulta de planeamento familiar para informação, de forma que possam optar por métodos de elevada eficácia, seguros e dos quais possam também usufruir de benefícios não contracetivos”.

– “Aconselhar o uso concomitante de preservativo como forma de diminuir o risco de infeções sexualmente transmissíveis”.

– “Evitar comportamentos de risco e fazer o rastreio de infeções sexualmente transmissíveis”.

– “Ter um estilo de vida saudável, que se irá repercutir na sua saúde futura. Este conselho é válido para qualquer mulher, independentemente da idade”, conclui.

 

Como fica quem se vê obrigada a aguardar meses?

Sabemos que esperar por uma consulta já causa um grande transtorno no ser humano. Ora, no caso de uma consulta com tamanha relevância, o efeito agrava-se. Se for uma mulher cujo objetivo é engravidar, por exemplo, e não sabe porque não consegue, pois ainda não teve consulta de fertilidade, o resultado não é nada agradável.

“A Covid-19 aumentou os níveis de ansiedade na população em geral, e em doentes de diversas patologias, que viram as suas consultas serem adidas, sentindo-se perdidos face à sua saúde física e consequentemente à sua saúde mental”, comentou Andrea Costa, psicóloga a trabalhar em regime online e presencial em Aveiro, Mira, Febres e Águeda.

Dada a situação, a profissional deixou à Women’s Health algumas estratégias que pode adotar para gerir a ansiedade que sentir.

 

Estratégias de gestão

Concentre-se no presente e invista em coisas que possa controlar – “O adiamento das consultas não foi culpa sua, e não controla isso. Em vez de pensar consecutivamente no assunto, foque-se no aqui e agora. Cuide de si, do seu bem-estar. E recorde-se que esta situação continua a ser nova para todos”.

Mantenha-se informada – “Esteja atenta às notícias do telejornal. Visite o site do SNS e DGS”.

Tenha uma rede de suporte – “Fale com a família ou com amigos. Partilhe o que está a sentir e pergunte a opinião dos outros. Eles podem também ter tido uma consulta adiada e ajudá-la”.

Pratique o relaxamento – “Ficar sob tensão e ansiedade, face ao facto de ter sido adiada uma consulta só vai prejudicar mais o estado de saúde. Praticar o relaxamento é essencial para se sentir melhor. Pode fazê-lo através da respiração diafragmática, do relaxamento muscular, da técnica de grounding. Pode ainda escrever os seus sentimentos e pensamentos num caderno e ou diário. Estas técnicas são excelentes para acalmar a ansiedade e os pensamentos automáticos”.

Procure ajuda – “Existem várias formas de procurar ajuda para aos sintomas ansiosos e de incerteza que está a sentir neste momento. Pode fazê-lo através de plataformas online, onde vai encontrar diversos profissionais de saúde, nomeadamente psicólogos, disponíveis a ajudar ou através de linhas de apoio como a linha SNS 24”, conclui.

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