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Comprimido pode substituir o exercício físico? Ciência analisa a questão

Será que um comprimido pode mesmo substituir o exercício físico?

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Um facto desconhecido? O primeiro estudo sistemático quantitativo sobre exercício físico aconteceu num autocarro panorâmico de dois andares, em Londres. Na década de 1940, um jovem epidemiologista chamado Jerry Morris estava a estudar alguns casos de mortes nos hospitais londrinos. Nesta pesquisa, reparou num aumento alarmante do número de ataques cardíacos durante a primeira metade do século XX.

À época, ninguém tinha uma explicação para tal facto. Mas Morris suspeitava de que podia dever-se ao aumento do estilo de vida sedentário. Assim, o especialista decidiu estudar a atividade dos motoristas de autocarro londrinos, que passavam 90% do tempo sentados. Analisou também a atividade dos ajudantes que faziam a comunicação entre o condutor e o que se passava no autocarro. Depois da análise à atividade dos dois grupos, estudou os registos médicos de ambos. Morris ficou espantado com as conclusões a que chegou. A sua pesquisa indicava que os condutores dos autocarros tinham o dobro das probabilidades de ter um ataque cardíaco em comparação com colegas que passavam o dia de pé.

A partir daí, começou a existir uma ligação entre a atividade física, a saúde e longevidade, o que nos levou ao Stalk Institute, em San Diego (EUA). O átrio estava vazio e o relvado desprovido de vida. Mas havia duas mil jaulas nas divisões debaixo da terra. Algum tempo depois, já no gabinete do biólogo Ronald Evans, conhecemos dois destes habitantes ‘em pessoa’: os ratos Couch Potato e Lance Armstrong.

Mensagens difusas

O rato Couch Potato foi criado para ser o equivalente ao homem comum, fora de forma. O seu exercício físico diário estava limitado a caminhar até à taça da comida, onde tinha a versão de laboratório da dieta ocidental. O rato estava num estado de letargia, com gordura visível por baixo da sua camada fininha de pelo. O rato Lance Arm­strong, por sua vez, foi criado sob as mesmas condições, mas o seu corpo estava magro, os seus olhos eram brilhantes e a sua mente estava alerta.

O segredo para a sua saúde, aparência e energia juvenis? Uma dose diária de GW501516 (ou 516 para abreviar) – um medicamento que alegadamente confere os mesmos benefícios do que o exercício físico, sem que o recetor tenha de mexer um músculo. A inatividade foi responsável por 7,5% das mortes na Europa em 2015 – mais do dobro das mortes causadas pela obesidade. Se alguma vez houve necessidade de atuar é agora!

O medicamento

Este medicamento funciona ao replicar os efeitos do exercício de resistência num gene particular, o PPAR-delta. Como todos os genes, este imana instruções na forma de químicos que dizem às células como devem comportar-se. Ao alterar a mensagem que os genes enviam, esta medicação dá um boost ao organismo para queimar gordura em vez de açúcar.

Quando o professor Evans começou a dar o composto 516 a ratos, descobriu que, depois de apenas quatro semanas, os animais tinham aumentado a sua resistência em 75%. Entretanto, o rácio da composição dos músculos mudou em direção à fibra de contração lenta – o tipo que domina nos corpos dos corredores. É o equivalente, em roedores, a ser uma pessoa comum que corre no parque e acordar, numa manhã, com o corpo da Jéssica Augusto. Os animais que tomaram o medicamento correram mais, devido ao facto de os seus músculos terem sido instruídos para queimar gorduras e salvar hidratos
de carbono.

Não é novidade…

Assim, demoraram mais tempo a chegar ao limite, quando os músculos já gastaram todas as reservas de glicose. Na verdade, o 516 não é uma novidade, tendo sido desenvolvido no final dos anos 90 do século XX pelo químico e biólogo Tim Wilson, nos laboratórios Glaxo Smith Kline, no Reino Unido. A sua capacidade para reduzir os níveis de insulina além de triglicéridos, inicialmente, fizeram que parecesse um tratamento promissor para a síndrome metabólica. Em 2007, a Glaxo Smith Kline deixou de testar esta substância, depois de os animais terem contraído cancro em taxas superiores aos que não estavam a tomar tal fármaco.

No entanto, no mesmo ano em que o projeto foi colocado de parte, o professor Evans começou a estudar o 516 no Instituto Salk. Desde então, tem estado a desenvolver uma nova versão, que, espera, seja menos tóxica. Evans não é o único cientista a investigar este gene. Na verdade, faz parte de uma série de especialistas mundiais que estão na corrida para encontrar o Santo Graal.

A ciência da transpiração

Ali Tavassoli, professor de Biologia Química na Universidade de Southampton (EUA), descobriu ao acaso um elemento denominado composto 14. Tal provou ser capaz de equilibrar os níveis de açúcar no sangue em ratos obesos, queimando 5% do seu peso. Isto acontece ao iludir as células para que pensem que estão a ficar sem energia, levando à queima das reservas de gordura. Enquanto isto, em Harvard, o biólogo especializado em células, Bruce Spiegelman, descobriu duas hormonas do exercício.

Uma delas, a irisina, converte gordura branca em gordura castanha que queima energia. Spiegelman afirma ter provas de que esta hormona pode aumentar os níveis de proteínas saudáveis na região do cérebro associada à aprendizagem e à memória.
O especialista está a estudar um novo composto e, quando visitámos o seu laboratório, Spiegelman convidou-nos a ver, no microscópio, fibras musculares à espera de tratamento com o químico. As fibras estavam a contrair-se e a ter espasmos, porque “as membranas estavam eletricamente ativas”, explicou.

“É quase como a energia estática num rádio”, ou fazer exercício numa placa de petri.

Enquanto investigadores tentam compreender os mecanismos por detrás dos medicamentos em desenvolvimento, o que ainda não sabem é como é que estes processos são desencadeados durante o treino. Ninguém sabe. Na verdade, um dos desafios mais importantes para alguém que pretende desenvolver um comprimido que substitui o treino é o facto de o processo biológico que acontece durante a prática desse exercício ainda ser um mistério. Os cientistas ainda são incapazes de explicar os efeitos da atividade física.

Se houvesse algum produto que reproduzisse os benefícios do treino, provavelmente seria o fármaco mais valioso no mundo. Nesse sentido, as pesquisas em desenvolvimento podem redefinir o exercício do mesmo modo que estudos nutricionais alteraram entendimento sobre a comida. Essa mudança conceptual permitiu o crescimento dos superalimentos e a criação de recomendações diárias. Nos próximos anos, à medida que os estudos vão arranjar novas formas de qualificar a atividade física, o relacionamento das pessoas com
o exercício vai também mudar.

Fora dos limites

Dentro da competição para desenvolver o comprimido do exercício, o professor Evans é quem está mais perto da linha final. A sua empresa, Mitobridge, lançou a primeira fase de testes do composto que pretende substituir sessões de ginásio. Evans está muito perto, mas, ao mesmo tempo, longe. Se a síndrome metabólica ainda não é considerada uma doença, a falta de exercício físico também não será. Isto significa que quem quiser comercializar tal comprimido tem de garantir que a substância é capaz de tratar alguma patologia. Um exemplo semelhante é a estatina, um químico que inicialmente foi aprovado para pessoas que tinham sofrido um ataque cardíaco. Mas, depois, virou medicamento de rotina para pessoas com colesterol elevado.

Por isso, o medicamente está a ser testado como tratamento para a distrofia muscular de Duchenne. Uma doença genética que implica perda de massa muscular. Tanto Evans como Spiegelman estão confiantes de que tais medicamentos vão estar legalmente à venda dentro de 15 anos. No entanto, o professor Tavassoli é mais cético. Tavassoli teme que aumentar artificialmente a velocidade a que as células queimam energia não tenha bons resultados a longo prazo. Além disso, nem todas as células crescem saudáveis. Valerá a pena o risco?

Para alguém com distrofia de Duchenne, por exemplo, este medicamento pode fazer sentido. Mas a análise entre as vantagens e as desvantagens é mais complicada para a maioria das pessoas.

Porquinhos-da-Índia

Assim que a estrutura de um novo composto é publicada, os laboratórios são livres de sintetizá-la. Mas apenas para fins de pesquisa. Os primeiros a adotar estes métodos foram os atletas de elite. Foi por isso que a Agência Mundial Anti-Doping adicionou o 516 à lista de substâncias proibidas, já em 2009. Desde então, pelo menos seis ciclistas profissionais foram suspensos por tomarem esta substância. Mais recentemente, o 516 tornou-se popular em grupos de conversação online, maioritariamente compostos por homens.

O verdadeiro ‘Não tente isto em casa’

Encomendámos uma embalagem online e chegou uma garrafa de 20 mg, num envelope selado. Era do tamanho dos champôs de hotel e continha um líquido branco turvo com ligeiro aroma a acetona. O rótulo incentivava a leitura da informação complementar para saber as dosagens, mas não havia nenhum.

Ligámos ao professor Willson, que desenhou, originalmente, o composto para lhe perguntar se ele tomaria o conteúdo daquela embalagem. E a resposta foi um ‘não’ categórico. Contactámos os outros investigadores com quem tínhamos falado e descobrimos que nenhum deles havia tomado o comprimido do exercício. Spiegelman segue um regime exigente de kickboxing, corrida e elevações; Tavassoli é surfista; Evans é ciclista e Willson completou a sua décima primeira prova de triatlo.

O que diz o Infarmed…

A Women’s Health contactou o Infarmed (Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde), responsável pela autorização e a inspeção dos medicamentos para uso humano em Portugal. O objetivo? Tentar perceber se este composto é legal e em que contextos pode ser utilizado.

A entidade optou por não comentar formalmente. Mas deixa o alerta: é preciso ponderar os riscos e benefícios associados à toma de qualquer substância.

Não existe uma solução mágica para ter um corpo de sonho. Por isso, opte por consultar o seu médico de família, fazer um check-up de saúde e manter uma rotina alimentar e de treinos saudável e adequada aos seus objetivos. Comprar substâncias na internet também não é boa ideia, uma vez que não obtém garantias de segurança e veracidade dos compostos. Segundo o Infarmed, “em Portugal só é possível adquirir medicamentos pela internet nos websites de farmácias e locais de venda de medicamentos não sujeitos a receita médica devidamente registados no Infarmed”.

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