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Não é tarde: como sentir-se como no início da relação

Conheceu a sua alma gémea e deixou tudo por ela? Cuidado, as “relações-fusão” podem fazer com que se esqueça de si mesma.

relação, casal

Beyoncé dizia “Me, Myself and I” e Kelly Key “Eu sou mais eu”. As ‘rainhas’ sabem a importância de se estar numa relação consigo mesma! A Women’s Health é da mesma opinião. Queremos por isso mostrar-lhe como se tornar na sua melhor amiga e recuperar a identidade perdida!

“Estivemos juntos 15 anos e, mais do que um casal, somos uma família”, explica Maria G., empresária de 39 anos. “Amo-o imenso, mas a nossa dependência mútua não é algo são”. Não é novidade que a vida a dois pode ser sinónimo de conforto. Mas quando se transforma em acomodação, está aberta a porta para a dependência. As consequências? Perda de identidade, asfixia, aborrecimento, frustração, infelicidade, falta de autoestima e desgosto.

O que dizem os especialistas

“Uma ligação de dependência fusional tende a aniquilar aquilo que se compreende como relação, absorvendo qualquer noção do outro e de si próprio”. Quem o explica é Joana Florindo, psicóloga clínica e psicoterapeuta e especialista em Sexologia Clínica, em Lisboa. Soa-lhe familiar? Então vale a pena continuar a ler.

Espaço, autonomia e individualidade formam um trio essencial para uma relação saudável. Pilar Benítez, especialista em Saúde e Nutrição e autora do livro Sinta-se Radiante, defende mesmo que um dos “12 princípios da mulher radiante” consiste em conhecer “a diferença entre o apego e o amor”, evitando o primeiro e abraçando o segundo. Se sente que enterrou a mulher independente, atrevida e divertida que era, está na altura de (re)encontrar-se!

Fuja das relações lapa

Primeiro, é preciso saber identificá-las e perceber como é possível criar uma dependência fusional com o parceiro. “Quando ambos os elementos do casal funcionam num registo de dependência, a necessidade de dependência tende a sobrepor-se à da independência”, explica Joana Florindo. “É fundamental alimentar a manutenção de algumas singularidades na relação, tais como interesses ou hobbies e até alguns amigos que sejam apenas afetos a um dos elementos”, diz a especialista.

Não pode esquecer-se que ambas as partes do casal não têm necessariamente de partilhar tudo. A proximidade excessiva poderá fazer com que se transforme num clone do seu companheiro. É anulada “a noção do outro e tudo o que lhe está implícito como o respeito, a tolerância e a liberdade, e dessa forma anula-se o espaço de ligação e deixa de existir uma relação”, explica a psicóloga e psicoterapeuta.

Faça das necessidades de autonomia uma prioridade na sua relação

Para tal, utilize a comunicação como ferramenta mediadora. “O mais importante é o diálogo. O sucesso de uma relação faz-se de muitas variáveis e nem todos os objetivos têm de ser comuns”, defende a psicóloga e sexóloga Vânia Beliz. Tirar tempo só para si (e deixar o seu parceiro fazer o mesmo) é uma característica das relações saudáveis. Isto porque importa crescer também de forma individual. “É sempre saudável dosear as nossas atividades, o espaço numa relação é algo muito importante”, completa a especialista.

Nós, as mais dependentes

No caso de Sara, uma advogada de 37 anos, foi ele quem começou a sentir-se sobrecarregado pela excessiva dependência. “Passei-me quando me disse que o problema era, curiosamente, que tivesse deixado tudo por ele”, conta. “Por vezes verifica-se uma discrepância entre os dois quanto a estas necessidades: um a sentir uma maior necessidade de autonomia do que o outro”, diz Joana Florindo.

Segundo a especialista é importante criar uma ligação com o parceiro onde não exista medo de asfixia e em que o distanciamento não está associado a sentimentos de abandono. Em suma, é sentir que quando o outro procura espaço para si mesmo, isso não significa que esteja a afastar-se – pedir tempo para si não é o mesmo que pedir um tempo! Por outro lado, são muitas vezes as mulheres a ter uma maior tendência para fazer do parceiro uma peça indispensável.

“Muitas vezes as mulheres anulam-se e delegam nos parceiros o que conseguem fazer mas que creem não ser capazes”, explica Vânia Beliz. “Isso é muito prejudicial porque se desloca para o outro a ideia de que ele é a peça que falta no nosso puzzle”, acrescenta a psicóloga e sexóloga. Uma vez que a dependência está habitualmente associada à insegurança pessoal, medo da perda e baixa autoestima, a especialista aconselha que a mulher continue a fazer atividades sozinha de modo a evitar este tipo de subordinação.

Está a acontecer consigo?

Este tipo de situação nem sempre é simples ou claro de identificar. Na verdade, pode até acontecer às mulheres mais independentes e com maior personalidade. “Eu que tinha um estilo alternativo, acabei a vestir roupas de mãe, a ir à missa todos os domingos, mesmo sem ser crente e a passar todo o meu tempo livre com a família e amigos dele. Saí de casa de um dia para o outro. Foi um choque para a nossa dinâmica a dois, mas precisava de voltar a ser eu mesma”, conta Joana, uma decoradora de interiores de 42 anos.

Como explica a especialista em Sexologia Clínica, Joana Florindo, a mulher poderá tomar consciência da dependência relacional quando “tal se constitui como um problema e é vivido com dor ou mal-estar, afetando o funcionamento diário e global da relação”. Ou, por outro lado, quando “percebe o quanto abdicou de si mesma, dos seus projetos, interesses e necessidades”.

Contudo, e sejam os sinais mais ou menos visíveis, “a manutenção ou ausência de uma certa individualidade no espaço da relação e a vivência emocional que a acompanha, afiguram-se como sinais relevantes”, revela a especialista. Valerá a pena parar para pensar e olhar para si mesma neste contexto. Seja sincera e analise a relação, assim como a sua posição e desempenho na mesma. Pergunte a si própria se continua a ter uma identidade própria e a sentir-se plena em contextos fora da união a dois em que vive.

As consequências

“Duas pessoas a viverem numa proximidade excessiva e fusional anulam a noção do outro. Anula-se também tudo o que lhe está implícito como o respeito, a tolerância e a liberdade. Dessa forma anula-se o espaço de ligação e deixa de existir uma relação”, explica Joana Florindo. Este tipo de ligação codependente tem um impacto negativo no bem-estar individual e relacional, com as necessidades individuais a não serem reconhecidas ou respeitadas. É afetada a dinâmica entre parceiros a nível emocional mas também a nível sexual.

“Quando a intimidade se traduz fusional é precisamente a proximidade excessiva que sufoca o desejo sexual. É fundamental que se alimente um certo distanciamento e investimento na individualidade. Só assim o desejo pode surgir”, remata a psicoterapeuta e psicóloga. Depois de identificado o problema, é apenas natural que o passo seguinte seja tentar resolvê-lo.

Talvez fugir de um dia para o outro, tal como fez Miriam, não seja a melhor ideia, já que ignorar a situação não irá mudá-la. Procure conversar com o seu parceiro e identificar zonas sensíveis da dependência sentida na relação. A terapia poderá ser uma opção a considerar. Lá, cria-se um momento ideal para falar, num clima de disponibilidade mútua para a compreensão e resolução.

Adicionalmente, e tal como explicam os especialistas da Oficina da Psicologia, a ajuda profissional poderá ser essencial para perceber a diferença entre os três tempos – o individual, o de casal e o do quotidiano – e aprender estratégias para recuperar a identidade.

Regresse ao passado

Chegada a altura de fazer o reset, há uma série de mudanças a fazer. Voltar a sentir-se como si própria é o objetivo final. Mas é igualmente importante promover a estabilidade individual e da própria relação. Comece por voltar a fazer algumas coisas sozinha. Ir ao ginásio, inscrever-se num curso, sair para passear, ir à praia, jantar. Recuperar o seu espaço próprio pode salvar uma relação que tenha caído na rotina e fazer com que volte a conhecer-se a si própria e ao seu parceiro.

Recuperar o seu espaço próprio pode salvar uma relação que tenha caído na rotina

“Por vezes é conveniente que ambos recordem o que os cativou no outro; o que consideraram atraente ou sedutor no outro. Aquilo que o outro pensava, dizia ou fazia que apreciavam, precisamente por ser diferente”, revela Joana Florindo. Autonomia e proximidade deverão andar de mãos dadas. “Dar espaço à individualidade do outro é dar espaço ao respeito, tolerância, confiança, estima e liberdade. É igualmente dar espaço ao desejo e à necessidade de estar com o outro”, complementa.

A especialista recomenda que o casal assuma em conjunto o compromisso de ter projetos individuais. Vai certamente trazer efeitos positivos para a vida a dois. Devem também apoiar e incentivar o outro a investir em si mesmo.

Importa ressalvar que todas as cedências e ajustamentos devem ser realizados numa base de flexibilidade, respeito e amor. Vânia Beliz recomenda “investir nas suas capacidades, valorizar-se, encontrar espaço para fazer algo que goste e que lhe dê prazer”. Segundo a especialista é ainda relevante dividir tarefas, aprendendo a delegar e confiar na execução por parte do parceiro.

Igualmente relevante será encontrar espaços onde cada uma das partes do casal se possa dedicar a coisas que gosta. Na ausência de vontade de voltar ao passado, procure novos interesses e crie novos objetivos próprios. Pode ser uma ferramenta eficaz para a suavização da dependência.

Eu, tu, nós

“Numa relação tem sempre de permanecer o eu, o tu e o nós. No ‘nós’, devemos incluir as coisas que gostamos de fazer juntos – e que fazem parte dos nossos objetivos de casal. Mas não devemos deixar de fazer coisas que gostamos”, finaliza a especialista.

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