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Desafio TikTok: Chá de alface combate as insónias?

A nova moda do TikTok prometa pô-la a dormir com um chá de alface. Será mesmo assim ou mais um arriscado desafio?

Unsplash

A internet é constantemente bombardeada com novos desafios e truques que se tornam virais do dia para a noite. É o caso da nova moda do TikTok: o chá de alface. Um vídeo publicado na rede social propagou-se de tal forma que as pessoas começaram a testar a receita e a gravar o efeito da mesma. Alegadamente, este chá é o perfeito aliado no combate às insónias, prometendo induzir um sono rápido e mais profundo.

A fórmula é tão simples como ferver algumas folhas de alface e beber a água resultante. Talvez seja demasiado simples, por isso a Women’s Health conversou com nutricionistas a fim de comprovar a veracidade desta tendência. Os especialistas partilharam ainda quais os riscos de seguir cegamente as modas nutricionais partilhadas por não-profissionais sem suporte científico.

 

Chá de alface como aliado de um sono melhor

Quando se pensa em saladas, o primeiro ingrediente a surgir na nossa mente é a alface. Mas será que conhecemos tudo sobre este vegetal presente nas nossas vidas? “Ao longo da literatura científica, é referido que antigamente o consumo de alface em saladas no Egipto era usado como uma estratégia para melhorar o sono”, diz Pedro Gracias, nutricionista a dar consultas via online e presenciais na Figueira da Foz. Contudo, séculos separam a atualidade desse período, pelo que já nada é como antes.

“Encontramos facilmente a informação de que o chá tem efeitos sedativos e calmantes e, por isso, ajuda a dormir. Essa alegação vem do facto de a alface conter uma substância chamada lactucina que tem esse efeito, apesar de numa concentração muito pequena”, afirma Ana Luísa Mousinho, nutricionista num projeto próprio de acompanhamento online em parceria com várias clínicas médicas e consultoria para marcas na área alimentar.

“A alface tem lactucina, mas só existe no talo, e o chá de alface costuma usar as folhas”, completa Inês Aparício, nutricionista em Carcavelos, Sintra, Massamá e Mem-Martins. “De qualquer forma, não tem o efeito da melatonina, por exemplo, que realmente ajuda a adormecer”. Somando isto à capacidade de centilitros limitada de uma chávena de chá, a concentração de lactucina é bastante reduzida, logo é provável que ingerir uma ‘xícara’ não seja suficiente.

Os especialistas referem um estudo sobre o potencial da alface na melhoria do sono, realizado numa população de idosos, em 2011. Embora a análise tenha obtido resultados significativos na melhoria do sono, especialmente em idosos que sofrem de diferentes formas de ansiedade, os próprios autores admitem que o ensaio tem muitas limitações metodológicas. É importante salientar que foi utilizado uma grande quantidade de óleo extraído das sementes da alface, em vez de apenas algumas folhas em forma de infusão.

 

Então, em que ficamos?

A bem dizer, o chá de alface mal não faz”, assegurou Inês Aparício em conversa com a Women’s Health. “Pelo menos do ponto de vista da hidratação, uma vez que é rica em água. No entanto, relativamente à questão sobre o consumo de chá de alface e a indução do sono, considero ser uma afirmação sem suporte científico consistente”, continua.

Também a colega de profissão, Ana Luísa Mousinho, não vê perigo em seguir a receita viral, todavia “a quantidade de alface utilizada nos chás é muito pequena até para obter qualquer benefício nutricional. A quantidade de lactucina é muito baixa, pelo que parece que, neste caso, estamos a falar de uma moda segura que, cientificamente provado ou não, faz quem o toma mais feliz e relaxado, nem que seja apenas por acreditar nos efeitos ou querer estar na moda”.

“Tendo em conta a evidência científica atual, são necessários estudos robustos investigando o consumo de chá de alface e a melhoria do sono em diversas populações, de forma a poder formular uma recomendação”, expressa Pedro Gracias. “Por estas razões, atualmente, não existe evidência científica forte que recomende o consumo de chá de alface na melhoria do sono. É só uma hipótese”.

Parece que é unânime considerar esta moda como falácia, ainda que inofensiva. Porém, o mesmo não se pode dizer de tantas outras que aparecem na timeline dos nossos smartphones.

 

Riscos das modas nutricionais do Tik Tok

O interesse populacional em relação à alimentação e nutrição é global. Não obstante, o desejo de estar dentro das tendências mais recentes é superior. Se por um lado muitas das modas são inócuas e até positivas, promovendo maior consumo de hortícolas e menos processados, outras podem realmente ser perigosas, pois todos comemos.

“Convém saber que a ciência não se faz de modas e um estudo não é verdade científica, é apenas um estudo”, alerta Ana Luísa Mousinho. “Os distúrbios alimentares começam a ser mais comuns, não só pela pressão social para um corpo bonito e magro, mas por estas modas que falam dos alimentos como soluções milagrosas ou venenos sem que isso seja verdade”.

“Ao contrário dos medicamentos, que trazem sempre a bula com os possíveis efeitos adversos, os alimentos e suplementos alimentares não disponibilizam tais informações, à partida”, diz Ana Luísa Mousinho. “Muitas das modas alimentares promovem alterações alimentares drásticas ou o consumo de alimentos ‘especiais’ com recurso ao medo ou promessas de valor completamente irrealistas e sem base científica, podendo pôr em causa a saúde da população. Naturalmente, quem está mais vulnerável, doente ou emocionalmente sensibilizado é quem provavelmente sentirá as maiores consequências”.

Posto isto, a nutricionista Inês Aparício concluiu partilhando algumas formas de aguçar o sentido crítico, para não sermos levadas a acreditar na (des)informação que lemos todos os dias, especialmente nesta altura de pandemia em que estamos sedentas de informação que vá de encontro às nossas necessidades.

 

Aguce o sentido crítico e previna os riscos

Fique atenta quando estiver a ler coisas do género:

– Crenças apaixonadas e emocionais: ‘Nunca se sentirá tão bem, como com um shot de água com limão e outro de gratidão’.

– Usar testemunhos como justificação de uma abordagem, alimento ou suplemento, sem recurso a ciência para justificação: ‘30 pessoas já fizeram a dieta do chá e adoraram. Experimente, vai ver que não se arrepende’.

– Abordagens milagrosas e cheias de efeitos especiais: ‘Perca 10kg em duas semanas’ ou ‘cure o cancro com apenas 3 ingredientes’.

– Uso de palavras científicas ou explicações fisiológicas complexas para aumentar a credibilidade do discurso. ‘A vitamina D é a principal vitamina para a imunidade pela sua hidroxilação em macrófagos, monócitos e linfócitos T e, portanto, é a melhor suplementar’.

– Verdades absolutas e justificação com ciência que não prova nada: ‘Está provado que o ovo aumenta o colesterol’ ou ‘os vegetais curam doenças’.

– Recurso a estudos imaginários para justificar alegações: ‘Um estudo mostra que a cerveja hidrata mais que a água’.

“Aqui vai uma alegação que nada tem de científico, mas vale o que vale: Seja crítico que faz bem à saúde”, conclui.

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