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Cancro do colo do útero em Portugal: alguma novidade?

Dra. Paula Ambrósio
Cancro do colo do útero em Portugal: alguma novidade?

Por Dr.ª Paula Ambrósio, Ginecologista/Obstetra no Hospital Lusíadas

Sim. E das boas. Habitualmente, estamos à espera de ouvir ou ler o pior: que estamos na cauda da Europa, do Mundo ou do Universo; que os indicadores são desanimadores ou que as medidas continuam à espera de ser implementadas. Mas desta vez é diferente…

Segundo os últimos dados disponíveis, o cancro do colo do útero afecta praticamente 1000 mulheres e mata quase 400, por ano, em Portugal. Mata mulheres jovens, mulheres saudáveis, mães de família, irmãs, primas, avós, amigas. Mata porque não foi identificado e tratado a tempo; porque não se chegou ao médico a tempo; porque foi passando o tempo desde a última consulta, com tantos afazeres e tantas outras preocupações, ou porque simplesmente não se sentia nada de especial. Pois…

É triste morrer-se de um cancro evitável. A maioria dos outros cancros não dá tempo para agir nem tem um agente responsável. Não é o caso do colo do útero, em que praticamente 100% de todos os casos são causados pelo HPV (papilomavirus humano) e que leva 10 a 20 anos a desenvolver-se. Durante muitos anos, e antes da descoberta do HPV, a prevenção do cancro do colo do útero baseou-se na identificação das alterações que antecedem o cancro, através da colheita e análise das células do colo do útero – o célebre teste de Papaniculau. Este método de rastreio permitiu baixar a mortalidade de forma impressionante nos países com taxas de cobertura elevadas e foi o primeiro passo a favor da erradicação do cancro do colo. Infelizmente, até há alguns anos o rastreio não estava implementado de forma consistente e durante muito tempo tivemos a taxa de incidência de cancro de colo mais elevada da Europa Ocidental. Nos últimos anos, melhorámos muito e podemos finalmente dizer que todo o território continental está abrangido pelo rastreio. Mas atenção, é preciso não faltar às convocatórias. É preciso arranjar tempo e disponibilidade para tratarmos de nós.

Em 1986, após a descoberta do HPV como causador do cancro do colo do útero, tudo mudou. O rastreio evoluiu para a detecção da infecção a HPV e foi possível desenvolver uma vacina eficaz e segura contra os tipos de HPV envolvidos no cancro do colo do útero e noutros cancros, em mulheres e homens.

É importante perceber que todos, ou quase todos, vamos entrar em contacto com o HPV. Sendo um vírus de transmissão sexual, é quase certo que nos vamos cruzar com pelo menos um tipo. Pelo menos um porque há muitos, uns piores e outros menos maus (como eu costumo dizer, existem os super-vilões e os vilões). Já agora, não é preciso uma vida de devassidão ou maus hábitos para se ficar infectado, na realidade basta uma vez, se tivermos azar e dermos logo de caras com um bem agressivo. Ainda assim, ter uma infeçcão a HPV não significa que vamos ter uma doença. As infecções são muito frequentes, mas só as persistentes (as que o nosso sistema não consegue eliminar) por vírus de alto risco é que têm a capacidade de causar estragos e apenas se não forem identificadas a tempo.

Em 2006, foi comercializada uma vacina contra os tipos de HPV mais graves (os super-vilões 16 e 18) e, mais tarde, uma que também protege contra outros tipos de alto risco (os vilões 31,33,45,52,58). A partir deste momento, foi possível ir directamente à fonte do problema. Inicialmente, o objectivo era evitar o

cancro do colo, mas, à medida que se foi sabendo mais sobre o HPV, foi possível aumentar a capacidade de protecção contra outros cancros e em ambos os sexos. Chegamos ao ponto em que a vacinação contra o HPV passou a ser recomendada em todo o mundo (em termos e condições diferentes em função da capacidade económica de cada país e da visão – ou falta dela – dos seus governantes) e nasceu o sonho de erradicar o cancro do colo.

Desde 2008 que Portugal tem um programa de vacinação gratuito contra o HPV, para as meninas entre os 9 e os 17 anos de idade. E é agora que vêm os parabéns. A nossa taxa de vacinação contra o HPV é superior a 90%, um valor bem acima da maioria dos países desenvolvidos, o que implica que, com as meninas que começaram a ser vacinadas em 2008, quase todas as mulheres com menos de 28 anos estão protegidas contra os principais tipos de HPV que causam cancro. Isto significa que, de acordo com a evidência actual, estas mulheres não vão ter cancro do colo. Objectivo cumprido? Provavelmente sim, mas não nos podemos esquecer de todas as mulheres que não fizeram a vacina (e que a podem fazer, a título individual, pelo menos até aos 45 anos – é tudo uma questão de investimento financeiro). Por outro lado, é importante perceber também que temos de continuar a fazer o rastreio, tanto nas mulheres vacinadas como nas não vacinadas. Só a junção da vacinação com o rastreio é que nos vai permitir erradicar o cancro do colo do útero. Impensável há uns anos atrás e, particularmente, num país como Portugal, onde tudo o que é bom e bem feito parece sempre tão longe lá na Europa e no resto do mundo… Well done.

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