Menu
Inicio Saúde Cancro da Mama: Tratar a doença e voltar a amar a vida

Cancro da Mama: Tratar a doença e voltar a amar a vida

“Por vezes, o cancro é um renascer para uma nova vida, com construção de novos valores, de forma a fazer as pazes com o seu interior e saber amar-se e aceitar-se como é!”

Estivemos à conversa com a Dra. Cláudia Natacha Costa, Psicooncologista e Porta-Voz da União Humanitária dos Doentes com Cancro (UHDC), responsável pelo trabalho de apoio aos doentes oncológicos.

Qual a prioridade ao lidar com um doente a quem foi recém-diagnosticado cancro da mama?

Desmistificar crenças. Resignação. Isto é, o cancro desorganiza o doente, bem como os seus familiares e pessoas próximas. Através de novos significados a pessoa reorganiza-se e torna-se um aprendizado de uma vida agora diferente. É urgente ajudar a pessoa a aceitar-se.

Essa aceitação passa por muitas antíteses, na medida em que a pessoa deve reconhecer o que é saudável e o que não é. De repente, quando acontece um mecanismo de doença, deve lembrar o que é ter saúde. Esse processo vai levar ao desejo da pessoa se autovalorizar e de repensar valores e prioridades para a sua nova vida. Os técnicos de saúde devem estar disponíveis para o doente, ajudando-o a encontrar-se de forma a promover a qualidade de vida dentro da doença.

 

Na sua opinião, o cancro da mama afeta a feminilidade e sexualidade femininas?

Claramente que sim. A mama é o símbolo da feminilidade e da sexualidade, é um elemento fulcral na autoimagem da mulher.

Muitas das mulheres após o diagnóstico de cancro da mama, são referenciadas para a cirurgia quimioterapia e / ou radioterapia. Muitas das vezes ao depararem-se com a mutilação originada pela mastectomia parcial ou radical, consoante o estádio evolutivo da doença, há outras consequências na imagem corporal, nomeadamente a alopecia como um dos efeitos da quimioterapia. O aumento do peso e a eventualidade de linfedema no membro superior resultante da exérese dos gânglios linfáticos da região axilar correspondente.

Mediante este quadro pós-diagnóstico, a mulher vê-se limitada na escolha de roupas mais atraentes. Por outro lado, normalmente, tem a sensação do membro estranho quando toca nessa parte do corpo, por vezes, negando mesmo a tocar-se ou olhar-se, o que vai ter consequências no seu comportamento. Uma vez que não ultrapassado e não aceite pela própria, terá tendência a isolar-se e não deixar que lhe toquem, evitando o relacionamento intimo, com atitudes de timidez, insegurança, fobia, repugnância e introversão.

Tudo isto pode comprometer a sua qualidade de vida, nomeadamente a satisfação das necessidades básicas, quer a nível físico, quer a nível emocional, como a recusa de ter relações sexuais.
A menopausa precoce é um procedimento habitual na mulher com diagnóstico de cancro da mama, o que resultará também numa disfunção sexual, acompanhados do mal-estar que advém dos tratamentos. A pessoa fica mais vulnerável a depressões e torna-se num ciclo, que conduz ao isolamento social.

 

Que tipo de apoio psicológico é fundamental nestes casos?

É de extrema importância discutir todos os procedimentos a fazer após o diagnóstico. A mulher tem que se sentir útil na sua decisão e deve prevalecer a sua vontade, dando-lhe um papel ativo nas suas decisões médicas. A comunicação com um profissional de saúde mental pode ter um efeito catarse, libertando a pessoa dos problemas reprimidos.

O apoio psico-oncológico deve funcionar numa equipa interdisciplinar, promover a informação sobre os sintomas de menopausa precoce, monitorização e modificação dos fatores precipitantes, adesão aos tratamentos, relaxamento e gestão do stress e reestruturação cognitiva de mitos associados ao cancro.

É importante que na relação entre terapeuta e paciente se encontrem estratégias de coping que promovam uma melhor qualidade de vida. Ir na mesma direção que doente, trabalhar no aqui-e-agora, numa perspetiva holística, vendo o doente como um Ser que está neste mundo para Sentir, não apenas para Sobreviver. Estabelecer um acordo de paz entre o que sente fisicamente e o que sente emocionalmente.

O Cancro é considerado uma doença da emoção, em que traumas, raivas e zangas perduram no tempo e projetando-se no futuro, sabotando o momento presente. Desta forma o cancro é um grito do corpo.
Trabalhar atitudes mindful, construir uma nova vida. Por vezes, o cancro é um renascer para uma nova vida, com construção de novos valores, de forma a fazer as pazes com o seu interior e saber amar-se e aceitar-se como é!

 

Qual o papel da família no processo de tratamento?

O cancro de mama costuma gerar medos, tristezas, angústias, desespero, sentimentos de sentença de morte, negação e envolve tanto o doente como os familiares, levando a momentos de crise. Deve-se encorajar a manutenção da autonomia, da independência e da interdependência.
Os familiares ao depararem-se com este cenário de diagnóstico de cancro, considerado como sendo a doença mais temível e com forte crença de morte, neste caso é habitual, revelarem falta de discernimento de como agir face a esta problemática. As reações, muitas das vezes, são manifestadas pelo desespero e fuga que afetam o equilíbrio familiar. O medo de recidivas constitui uma tensão durante toda a vida.

Por este prisma, é necessário o acompanhamento ao doente e a toda a família. Reorientar os papéis dos familiares, para que sejam adaptativos, para minimizar os sentimentos negativos desenvolvidos pela doença. Para este efeito, a família deve ser enquadrada em todos os procedimentos médicos para proporcionar um melhor equilíbrio familiar.

 

A UHDC tem a primeira linha em Portugal a apoiar doentes com cancro da mama. Como funciona este serviço? Que tipo de apoio é prestado telefonicamente?

Este serviço funciona diariamente, num período entre as 9h00 e as 18h00.
Do outro lado da linha está uma “sobrevivente” de cancro da mama (Raquelinda Magalhães) que irá partilhar a sua história e ajudar a pessoa a ultrapassar os seus medos, desmistificando crenças associadas. Em caso de um apoio mais personalizado, a doente será encaminhada para apoio psicooncológico.

 

Outubro é um mês simbólico na luta contra o cancro da mama. Que mensagem passaria às mulheres atualmente a lidar com a doença?

Incutir a esperança. O cancro da mama é um renascer para a vida. A pessoa deve agarrar esta oportunidade de desenvolvimento pessoal e começar a SER, Sentir e Viver.

Acreditar que também temos uma farmácia natural dentro de nós e fazer uso dos recursos disponíveis também da natureza. Sabe-se que existem 400 substâncias altamente anticancerígenas na natureza. Recorrer a práticas saudáveis, dizer mais vezes não. Assumir o controlo da sua vida. Fazer atividades de relaxamento, prazerosas e dizer não as amizades tóxicas, dizer não à alimentação tóxica e dizer não a emoções tóxicas.

 


Leia também

Garanta a sua saúde íntima em 10 passos

 

Brand Story