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Do ato natural à crítica fácil. Há liberdade para amamentar?

Este foi um dos temas das talks do Women’s e Men’s HEALTH FEST by Vitalis.

( Filipa Bernardo/ Global Imagens )

A amamentação é dos momentos de maior intimidade que uma mãe pode ter com o seu filho. É o primeiro contacto físico pós-parto, o início de uma ligação que se diz eterna. É um ato natural, uma escolha da mulher (ou do casal, dependendo dos casos), mas, mesmo assim envolto numa onda de estigma que cada vez mais é difícil de compreender.

Há liberdade para amamentar? Há. Há liberdade para não querer amamentar? Há. Mas o que também existe nestas duas situações é uma tremenda pressão social e uma crítica digital fácil que recaem nos ombros da mulher, aumentando a incompreensão e a impaciência em torno do tema.

Nas redes sociais, multiplicam-se as publicações sobre o tema. Só no Instagram, por exemplo, são já três milhões as imagens publicadas com a hashtag #breastfeeding (amamentação, em inglês) e há de tudo, desde mães a amamentar naturalmente os seus bebés, mães que recorrem a equipamentos de extração de leite, mães que relatam a sua incapacidade de amamentar e mães que explicam o porquê de não quererem alimentar o seu filho com leite materno.

‘Liberdade para amamentar’ foi o tema de uma das talks do Women’s e Men’s HEALTH FEST by Vitalis, que aconteceu no passado fim de semana na LX Factory, e contou com a presença da psicóloga Catarina Lucas (do Centro Catarina Lucas – Psicologia e Desenvolvimento) e de duas caras bem conhecidas das redes sociais: a atriz Júlia Belard e a artista Blaya. Coube ao jornalista da SIC e SIC Notícias João Moleira moderar esta conversa que está ainda longe de acabar.

 

Quando se fica aquém da expectativa, a mente é que paga

Catarina Lucas já teve em clínica “casos de mães a amamentar, mães que sofrem a pressão da amamentação e, muitas vezes, nem é esta pressão de ‘ainda estás a amamentar?’, por vezes é o contrário, outro tipo de pressão: ‘não estás a amamentar? Porquê? Tens de conseguir amamentar!’”. Durante a talk, a especialista lamentou o facto desta pressão ainda ser “recorrente, até numa fase inicial, em que a mãe está a ter dificuldade e não consegue amamentar. A mãe sente-se culpada por não estar a conseguir corresponder aquilo que é a expectativa dela, algo que já idealizou, à expectiva da família e àquilo que é a expectativa dos profissionais de saúde, que ainda incentivam muito para a amamentação”.

A pressão existente e que teima em não desaparecer – muito menos agora, em que as redes sociais servem de arma de arremesso para tudo, especialmente para a crítica – leva a que muitas mulheres procurem profissionais na área da Psicologia e Catarina Lucas tem lidado de perto com alguns “casos dramáticos de mães que se sentem obrigadas a amamentar a todo o custo, causando dano psicológico”. O recomendado pelos profissionais é, por vezes, “não amamentar, não passar por este processo e, assim, evitar este dano psicológico. O tema desta conversa é a liberdade para amamentar e isso é uma decisão da mulher, do casal”.

Se a mulher amamenta ou não, se o consegue fazer ou não, o importante é que a pressão social deixe de existir. Segundo Catarina Lucas “tem de haver esta liberdade para amamentar e para não amamentar, pois, por muito que o desejem, e, por vezes, o problema está mesmo nesse desejo, há muitas mães que não conseguem amamentar”.

Mas, como é que a mulher pode gerir a pressão social para amamentar e não querer fazê-lo ou não conseguir fazê-lo? “Acho que é importante que as mães pensem por elas, o que querem, o que conseguem fazer, como se sentem bem, deixar de lado o que os outros dizem, porque, na verdade, vamos ser sempre criticados. O importante é que a mulher e o casal haja em conformidade com aquilo que sente e com o que são as capacidades. É preciso desdramatizar toda esta situação”, frisou.

 

Liberdade, sim (mas q.b. aos olhos dos outros)

Ora não quer amamentar, ora não consegue, ora amamenta e já devia ter parado, ora fá-lo num local público. Tudo é motivo de crítica, tudo é motivo de crítica.

Quando questionada pelo jornalista João Moleira sobre o porquê de tornar pública – via redes sociais – a sua ligação à amamentação, a atriz Júlia Belard confessou que “não sentia necessidade” em fazê-lo até ter chegado a uma altura em que começou “a ser tão criticada por ainda estar a amamentar, sobretudo pela minha família e amigos, que me diziam ‘mas ainda amamentas? O miúdo já está quase na faculdade’”. Esta é, no entanto, umas das críticas que as mulheres que amamentam mais ouvem. Mas, há um limite para amamentar? “Não”, respondeu a psicóloga Catarina Lucas, “não há um limite, a mãe amamenta até querer e conseguir e até a criança também querer, porque há uma altura em que a criança pode já não querer. Não há uma idade certa ou errada para parar de amamentar. É uma liberdade que assiste a cada mulher, sem culpa, sem pressão, sem a pressão que existe à volta, seja da sociedade ou da família”.

No seguimento da conversa, Júlia Belard afirmou que, de facto, gosta de amamentar, “sinto que me tranquiliza como mãe e sei que tranquiliza o bebé. Além de todos os nutrientes, [o leite materno] tem as hemoglobinas e todas as vantagens imunológicas, estimula o desenvolvimento emocional do bebé e a relação que cria com a mãe, além de outro tipo de vantagens que estão comprovadas cientificamente, como combater a obesidade. Isto não é uma brincadeira”. Apesar de estar a amamentar porque “gosto e quero”, Júlia admitiu que “às vezes não é fácil, às vezes durmo mal porque o bebé quer leite à noite, mas em vez de ter apoio, estava a ser muito criticada, então decidi dizer às pessoas que é uma coisa boa. Quero passar essa mensagem e dar forças às mulheres para não desistirem”. E tem Júlia um limite imposto na amamentação? “Tenho, no máximo até aos 20 anos”, disse em tom de brincadeira.

Também Blaya já foi alvo de críticas, especialmente online. “Gosto muito de animais e sempre quis habituar a minha filha a estar na presença deles e não acho que seja falta de higiene estar a amamentar com os meus animais à volta, acho que é uma coisa super normal. Mas se recebi críticas? Claro. Para muitas pessoas era como se estivesse a mostrar um pedaço do meu corpo que não é normal as pessoas verem. Mas como já estou habituada e as críticas vêm sempre das mesmas pessoas, acaba por me passar ao lado. Em relação à minha família, a minha mãe não me amamentou muito, mas não comenta sobre isso, são mais críticas nas redes sociais, mas não dou muita margem para continuar o assunto. Vai haver sempre pessoas a criticar seja sobre o que for, especialmente sobre a amamentação porque as pessoas não estão habituadas a ver os seios da mulher assim expostos diariamente e, ainda por cima, com um bebé, mas é uma questão de hábito, temos de habituar as pessoas a verem isso, é um ato super natural”.

Quanto à amamentação em público, tanto Blaya como Júlia mostraram-se apologistas, mas salientam que tal é uma decisão da mulher, pois nem todas se sentem à vontade em amamentar em frente a outras pessoas, seja num autocarro, num centro comercial, num centro de saúde, etc.

 

A importância da ajuda… que nem sempre existe

Apesar de se tratar de um processo natural, o ato de amamentar nem sempre é fácil e há mulheres que sofrem para conseguir fazer subir o leite, pegar na mama corretamente ou fazer o bebé habituar-se ao momento. Procurar ajuda especializada é um dos primeiros passos – até porque existem técnicas para pegar na mama que facilitam o processo e limitam a dor -, mas há também a possibilidade de recorrer a ombros amigos ou a testemunhos distantes. Foi o que fez Júlia Belard. Mesmo assumindo que gosta de amamentar, a atriz confessou que já desenvolveu algumas mastites (inflamação da glândula mamária, que causa sensibilidade e dor do mamilo, vermelhidão e inchaço da mama) e que recorreu, por exemplo, a grupos de Facebook para pedir ajuda e procurar outros depoimentos semelhantes. “Não é dada a devida importância à amamentação e, sobretudo, não é dado o devido acompanhamento”, disse, salientando que “tal como a Blaya, no início também tive uma subida de leite muito complicada, fartei-me de sofrer, mas recorri às Conselheiras de Aleitamento Materno e também a uma série de grupos no Facebook, que são agora uma tremenda mais-valia, e a uma série de profissionais de saúde e consegui superar essa fase”.

 

 

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