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Aprenda a ficar offline nas férias

Com uma rotina frenética que a faz sentir que precisa de um dia com 27 horas, nada como parar, desligar e conectar-se consigo mesma.

Ficar offline

Online na rede, offline na realidade. A verdade é que já não vivemos sem internet. Nem sequer conseguimos imaginar tal cenário. O que seria não ter uma rede social para partilhar o nosso dia e ver o dos outros. O que seria se não existissem espaços digitais de partilha e de conversa. Outrora já vivemos assim, mas seríamos agora incapazes de o fazer.

Porquê? Porque estamos empenhados em construir uma identidade virtual, que já nem sequer é uma extensão na nossa identidade real. É um alter-ego que não conseguimos despir. “Estando conectados e online nesse mundo virtual. Diria que estamos muitas vezes desconectados uns dos outros e essa talvez seja a maior implicação em termos de bem-estar. Passamos muito tempo a alimentar a ‘identidade virtual’, que procuramos que seja perfeita, ao invés de construir uma identidade baseada nas experiências concretas e partilhadas. Com isto, é frequente o comentário ‘se não aparece nas redes sociais é porque não aconteceu’”, começa por explicar Marina Marques, psicóloga no Espaço Psicológico (Coimbra) e no Centro Hospitalar Universitário de Coimbra.

A identidade virtual que criamos neste mundo digital tem um propósito que vai além da sensação de satisfação e felicidade

A identidade virtual que todos criamos neste mundo digital tem um propósito que vai além da sensação de satisfação e felicidade: a necessidade de pertença. Algo que está na génese do ser humano e ganhou força nesta era em que deixam de existir barreiras físicas e espaciais. “As plataformas digitais, muito particularmente as redes sociais, apenas nos colocam na mão uma forma exponencialmente maior de o conseguir fazer com imediatismo e estendendo a noção de tribo a todo o mundo que nos pode ‘ver’. E isso coloca uma pressão elevada: de mantermos o ritmo e de mantermos o alinhamento com um ‘eu também’ e a necessidade de nos destacarmos. Daqui, pode-se criar situações problemáticas”, lamenta Madalena Lobo, psicoterapeuta e membro da direção-geral da Oficina de Psicologia.

Estar física e mentalmente presente

É certo que um like, uma partilha, uma menção traz felicidade – e, quanto a isso, não podemos ser hipócritas. Mas é certo que essa felicidade é tão fugaz que quase sempre nos passa despercebida. Daí a importância de estar física e mentalmente presente em qualquer momento do dia – e não o estamos em 47% do tempo, revela a psicóloga Marina Marques.

Estar física e mentalmente presente traz felicidade de uma forma bem mais duradoura e significante do que um like. Temos de viver “de forma consciente, momento a mo-
mento, em vez de vaguear para o passado ou para o futuro (como o planear a próxima viagem ou a próxima foto)”, aconselha Marina Marques, continuando: “Se estamos conectados online em vez de presencialmente, será bem menos provável que possamos apreciar, desfrutar e saborear verdadeiramente de todos os momentos.

Ora, a vida vivida no aqui e no agora é realmente preciosa, cheia de ‘pormaiores’ que escapam (que nos podem escapar anos a fios) se ‘não olhamos à volta’. É como se vivêssemos uma vida paralela e não a nossa vida, é como se não vivêssemos.”

Na verdade, lamenta a psicóloga Lídia Craveiro, que dá consultas num consultório particular em Évora, “as pessoas não dão importância a si próprias. Dão mais importância a tudo o que as rodeia”.

Porque somos incapazes de desligar

A necessidade de estar sempre on e de partilhar o lado mais belo do nosso dia “está profundamente enraizada no desejo mais profundo de sermos amados. Se a cada foto, a cada frase escolhida ‘a dedo’, a cada instastory recebermos feedback do outro, vivenciamos validação e valorização. É como se o ego fosse massajado. O desejo de ser amado e o medo de mostrarmos que somos imperfeitos e vulneráveis, explica a necessidade de divulgar, na sua maioria, elementos bonitos”, elucida a psicóloga Marina Marques.

E, por falar em ego, continua Lídia Craveiro, “o espelho da vida adulta tem que ver com a infância. Se a pessoa foi bem educada, não vai expor a vida social e não espera que a rede social alimente o ego. Se a pessoa gosta muito, não precisa de dizer no Facebook, diz diretamente à pessoa. É tudo uma questão de ego incipiente, de pessoas que têm pouca autoestima, mais propensas a depressão. Nas redes sociais há um benefício secundário, que é elevar a autoestima, mas é algo momentâneo”.

Out of office… todos os dias

Temos de estabelecer limites, definir prioridades e separar a vida laboral da pessoal. Não estamos a dizer-lhe uma novidade, é certo. Mas está mais do que na hora de voltar a colocar o dedo na ferida de todos nós. “Estar sempre ‘ligado’ ao trabalho tem que ver com a mudança de regras ao longo dos anos. À medida que as pessoas foram perdendo direitos a nível laboral, foram criando essa ideia de que tinham mais obrigações”. Assim aponta-nos Lídia Craveiro, psicóloga clínica em consultório privado em Évora. E o facilitismo que caracteriza a internet veio agravar ainda mais isso. “A pessoa não consegue desligar porque, assim, acha que é melhor pessoa. Com isso, consegue desligar-se do que está à volta. Isto é uma patologia. É preciso que as pessoas estabeleçam prioridades”.

Mindfulness como caminho para estar mais presente

Segundo Nuno Mendes Duarte, psicoterapeuta e diretor clínico da Oficina de Psicologia, “mindfulness significa prestar atenção a um determinado objeto. Fazê-lo com intenção, no momento presente e de uma forma não avaliativa. Cultiva-se esta atitude dirigindo a nossa atenção, de forma intencional, a coisas às quais normalmente não dedicamos muito tempo”. Entre os principais benefícios da prática regular de mindfulness estão os seguintes:

  1. Maior consciência das sensações corporais, sentimentos e pensamentos que se dão momento a momento. “Ao aumentarem esta consciência podem desenvolver maneiras diferentes de se relacionarem com as sensações, pensamentos e sentimentos. Em específico a aceitação consciente e o reconhecimento dos sentimentos e pensamentos indesejados. Esta é a alternativa ao habitual, automático, que reage de forma consciente ao que lhes provoca stress.”
  2. Maior capacidade de escolha da “melhor resposta aos seus sentimentos e pensamentos indesejados ou às situações que os originam”.
  3. Melhor concentração e foco em tarefas, “sendo menos conduzidas pelo vaguear da mente, que fica afetada em situações de stress prolongado”.
  4. Maior consciência e contacto de melhor qualidade com as situações do dia-a-dia. Assim “retira-se mais prazer de todas elas, o que funciona como um escudo para o impacto do stress no nosso corpo”.
  5. Desenvolvimento de capacidade para enfrentar as dificuldades “de uma forma que conduza a soluções eficazes. Ao mesmo tempo, alcança-se maior harmonia interior”.

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