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Ansiedade pós-confinamento: Sintomas e formas de a reduzir

Se o regresso à rotina desconfinada a deixa ansiosa, saiba que não está sozinha nesta luta.

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Há dois meses que o Governo apresentou o plano de desconfinamento para Portugal que temos vindo a seguir. À medida que as restrições vão diminuindo em todo o país, a tendência, e esperança, é reaver alguma ‘normalidade’. Contudo, a capacidade extraordinária de adaptação do ser humano transformou o confinamento no novo ‘normal’, pelo que o levantamento das medidas pode ser deveras desafiante e ativar a ansiedade pós-confinamento.

Sem deslocações para o trabalho ou escola, sem compromissos ou eventos sociais, o dia parecia ter mais que as habituais 24 horas. Muita gente se acomodou a seguir um ritmo de vida mais pausado, enquanto se desviava das preocupações causadas pela pandemia de Covid-19. Ora, o desconfinamento veio exigir uma (re)adaptação para a qual pode não estar preparada, mas saiba que não está sozinha.

A Women’s Health conversou com Filipa Cameirinha, psicóloga clínica a dar consultas online e presenciais na Clínica Equilíbrio e Bem Estar (Vila Franca de Xira) e no Centro Médico na Universidade de Lisboa, e com Rita Pereira, psicóloga clínica e da saúde a fazer acompanhamento online e presencial no Centro de Bem-Estar: Alexandra Fernandes, Psicologia & Terapias Integrativas, no Pachamama Sines, sobre os sintomas e causas por trás dessa ansiedade, bem como dicas para ajudar a atravessar este período penoso.

 

Quais são os sintomas de ansiedade pós-confinamento?

O surto de coronavírus não deixou ninguém indiferente, perturbando até o mais calmo de nós. O corpo e a mente reagem a qualquer mudança, tanto positiva como negativa, e, embora sentir-se ansiosa seja uma resposta natural quando confrontada com incertezas e situações que não consegue controlar, há certos sinais de alerta indicadores de dificuldades com ansiedade e que não deve ignorar.

Filipa Cameirinha partilhou os indícios reveladores que tem observado na prática clínica:

1. Preocupação excessiva com o futuro

Após 14 meses de incertezas abundantes e aberturas dos telejornais com notícias catastróficas, estranho seria não ter algum receio. É compreensível sentir-se ansiosa perante o desconhecido, mas as preocupações, sejam elas reais ou infundadas, não podem comandar todas as atitudes e ideias.

2. Comportamento extremamente cauteloso

“Nesta fase, observo muitas preocupações e receios relacionados com a saúde própria e das pessoas queridas”, diz Filipa Cameirinha. O cuidado é bom, principalmente depois de experienciar um acontecimento tão impactante. No entanto, em demasia acaba por ter o efeito contrário ao pretendido, impedindo-a de fazer coisas que normalmente faria.

3. Medo de sair de casa

Só de pensar em pôr os pés fora de casa já sente falta de ar e o pulso acelerado? Se o “medo de sair à rua ou de retomar atividades presenciais” domina todos os pensamentos desde que acorda, talvez seja melhor procurar ajuda.

4. Tendência para o isolamento

Distanciamento social é imperativo. Isolamento total, “mesmo quando já são permitidos pequenos encontros sociais e deslocações mais livres”, é desaconselhado e sintoma geral de ansiedade pós-confinamento. Somos seres cujas necessidades básicas passam por interação interpessoal, que já nos foi privada durante tempo suficiente.

5. Mudanças de apetite e dificuldade em adormecer

“Com este sentimento de insegurança, é comum verificarem-se alterações de apetite e de sono”, afirma a psicóloga que dá consultas na Clínica Equilíbrio e Bem Estar. Não é novidade que o início da pandemia tirou o sono a muitas pessoas, porém, se com o desconfinamento voltaram as insónias, é importante não as deixar agravar, pois a privação do sono pode afetar todas as áreas de sua vida. O mesmo se aplica ao que come. Tenha atenção se perdeu ou ganhou muito apetite nos últimos tempos, pode ser a ansiedade a falar.

6. Sintomas físicos

“A ansiedade pode, também, manifestar-se no corpo, com tensão muscular, dores de estômago, ou outras que sinalizam que ‘algo não está bem’”, refere a especialista. “Nós temos muito a tendência de funcionar em modo automático, fazer para não sentir. Contudo, a ansiedade acaba por se manifestar onde vê uma brecha, nem que seja fisicamente”, esclarece Filipa Cameirinha, que acrescentou ainda uma nota que considera essencial: “Eu penso que, na parte dos sintomas, o mais importante é com que intensidade ocorrem e a duração que têm. Portanto, não são os sintomas em si, mas o impacto que têm no nosso bem-estar e no nosso dia-a-dia”.

 

Então, o que pode causar ansiedade pós-confinamento?

A psicóloga Filipa Cameirinha apontou várias possibilidades, nomeadamente a mais abundante, “o medo do contágio ou de uma nova vaga”. Após esta, seguem-se as preocupações financeiras e laborais. “Por outro lado, o confinamento trouxe a hipótese de serem desenvolvidos novos hábitos que poderão ser difíceis de manter ou substituir de uma forma satisfatória”.

Sem esquecer o impacto psicológico. A informação mundial indicava o confinamento como um abrigo seguro ao vírus, logo o sair dessa bolha de segurança é motivo de pânico para muitos.

 

Como lidar com a ansiedade pós-confinamento?

A psicóloga Rita Pereira, que é também coordenadora do Gabinete de Psicologia dos Bombeiros Voluntários de Santo André, anotou algumas estratégias para desconfiar sem ansiedade, enfatizando a necessidade de “garantir que esta mudança seja feita com cuidado e que o ritmo de cada um seja respeitado”.

1. Aceitação prática

“Aceite que não está no controle de tudo. Na verdade, nunca esteve”, diz Rita Pereira. Independentemente da situação, é impossível controlar todos os aspetos da vida, principalmente algo tão presente, no entanto tão desconhecido. Pratique a aceitação para a ajudar a livrar-se do stress sobre o que não consegue controlar.

2. Introduza a rotina gradualmente

A alteração da rotina exige sempre um tempo de adaptação. Assim, “procure a exposição em doses pequenas e graduais, de forma que se sinta segura”, explica a psicóloga. “Planeie uma rotina focada na segurança e na baixa ansiedade. Não se sinta pressionada por eventos sociais, pois se não se sentir segura, quando chegar a casa a sua ansiedade vai disparar e vão surgir pensamentos, tais como ‘será que estive exposta ao vírus?’ Ou seja, se não se sente confortável, guarde para mais tarde”, continua a especialista.

3. Tire tempo para si própria

O dia-a-dia não pode ser apenas constituído por deveres e obrigações. É importante que mantenha, o máximo possível, as coisas de que gosta de fazer e que o desconfinamento ameaça tirar. “Dedique-se a atividades prazerosas”, para cuidar de si, seja ler, ouvir música, descansar ou qualquer outra ação, aconselha Rita Pereira.

4. Encontre os próprios limites

Mesmo que não tenha sido afetada diretamente pela pandemia, o stress por si só teve um impacto monumental na saúde mental. Tire tempo, a fim de perceber o que a deixa desconfortável. “Se para si é confortável estar apenas com um amigo, faça para isso acontecer”, sugere a especialista. “A seu tempo, a sensação de segurança irá voltar”. Enquanto isso, aproveite ao máximo as videochamadas com a família e amigos. Tente reformular o distanciamento social como distanciamento físico.

5. Não se compare

A regra que se estende para lá deste problema, numa era governada pelas redes sociais. Basta ligar o telemóvel para encontrar pessoas que veem o vírus como coisa do passado. Ou pode mesmo ser alguém perto de si que deixou de cumprir as regras de segurança, por considerar que o perigo já passou. Todavia, “não se sinta mal por pensar de forma diferente. Essas pessoas têm o tempo delas, tal como você tem o seu”.

6. Não veja o medo como um inimigo

O medo excessivo é prejudicial, além de ser um sintoma já falado. Por outro lado, “o medo na medida certa, vai ajudá-la a proteger-se. Se sente que necessita estar com determinada pessoa e é importante para si estarem ambas de máscara e cumprirem a distância de segurança, partilhe com ela isso”, finaliza Rita Pereira. Isto vai-lhe permitir controlar melhor a ansiedade de estar fora de casa.

7. Pratique exercício

Filipa Cameirinha concorda com os conselhos da colega de profissão, mas não pôde deixar de acrescentar um par de sugestões. “O exercício é sempre um fator positivo na ansiedade pós-confinamento ou pré-confinamento ou durante o confinamento. A atividade física coloca-nos numa posição mais ativa, obriga-nos a realmente ir e estabelecer, por exemplo, um objetivo. A sensação de concretizá-lo é recompensadora e, portanto, é essencial praticar exercício, nem que seja um bocadinho”. Experimente fazê-lo ao ar livre, como uma caminhada, que tem vários benefícios comprovados para a saúde.

8. Compartilhe as preocupações

A psicóloga Filipa Cameirinha concluiu a conversa reforçando a ideia de ‘não está sozinha nesta batalha’. Conversar com alguém em quem confia pode ser o maior auxílio e fazer toda a diferença. “As partilhas com amigos, família ou colegas de trabalho ajudam muito. Não é preciso ir direto ao psicólogo, mas temos que perceber quando é que é preciso, realmente, confiar nesse barómetro interno que nos diz ‘se calhar isto já não está a ser suficiente’”.

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