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Inicio Perder Peso Por culpa da anorexia, “perdi 5 anos da minha vida”

Por culpa da anorexia, “perdi 5 anos da minha vida”

Foi no ano passado que Inês voltou a um peso saudável. O difícil processo durou cerca de sete anos. Hoje, olha para trás com uma perceção diferente daquela que (não) via aos 48kg.

Inês Viana tem 31 anos, pesa cerca de 62 quilos e nunca se sentiu tão bem a nível visual como hoje. Curiosamente, o número que vê na balança é exatamente o que lhe foi apontado como o mais saudável por uma nutricionista quando, com 18 anos e 70 quilos, foi a uma consulta. Mas naquela altura, aumentar de peso era-lhe impensável. Assim chegou aos 48 quilos, com 23 anos de idade.

Em entrevista à Women’s Health, Inês fala-nos de todo o processo em que esteve doente. Sem medo das palavras e com argumentos certeiros que provam a sua visão segura sobre o tema, não receia em dizer-nos que “é viciada em magreza” ou que “já não há fotos de quando gorda, rasguei-as todas”. Cada corpo é um corpo, esta é uma ideia a aceitar por qualquer um, mas trabalhar para o corpo que se quer, dentro dos parâmetros de saúde, é essencial para o bem-estar psicológico. Inês tem tudo isto bem definido.

“Não é ‘não consigo’, é ‘não quero’”

Esta é a resposta que frequentemente dá às mensagens que recebe, pelo menos, uma vez por semana por parte de quem passa pela mesma doença. As mensagens chegam-lhe pelo Instagram à página ‘Inês Get’s Healthy’ que criou quando entrou no ginásio, já durante o processo de tratamento.

“Muitas miúdas perguntam-me o que fazer para ficar boas. O primeiro que lhes digo é ‘estás a ser acompanhada?’. A maioria não está”, conta Inês, ciente de que a ajuda não está nas redes sociais, mas de que é aí que muitas jovens a procuram.

“Acontece muito frequentemente e não pode ser. Eu nunca estaria recuperada se me focasse em alguém do Instagram. Este é um tema grave, e é preciso um conhecimento psiquiátrico para o ultrapassar”, garante.

O estigma associado ao psiquiatra, que “apenas trata de malucos”, é a primeira barreira a ultrapassar. E é pela retração a este obstáculo que Inês toma uma postura mais ríspida para com quem lhe pede ajuda. “Já fui muito bruta com miúdas doentes, porque senti que elas precisavam daquilo, de alguém ríspido e duro. Eu precisei”.

Do querer ao fazer

‘Eu não consigo’, é uma frase em que Inês não acredita. “Podes mentir-te a ti própria, mas a mim não me mentes”, responde a quem alega não ter controlo da situação. “Eu demorei muito tempo a querer ficar melhor. Não foi a conseguir, foi a querer. Costumo dizer que só não deixo de fumar porque não quero. Se eu quisesse, eu conseguia. Lá está, é o controlo de que precisamos. Enganar-nos a nós próprias é que não vale a pena”, reconhece, lembrando que nem sempre teve esta visão clara sobre a sua vida.

O diagnóstico da doença aconteceu em 2011. Mas o ‘choque de realidade’ aconteceu “numa hora de conversa e muito choro”.

As minhas amigas diziam-me que estava muito magra, mas eu achava que o meu corpo estava normal. Mas “no verão de 2011, uma amiga minha – que nem era muito próxima – fez-me ver que estava de facto doente. Ela também tinha sofrido de anorexia, ainda que num padrão em nada parecido ao meu. Todos os argumentos que eu arranjava, ela refutava. Conseguia-o, porque já tinha tido a mesma mentalidade que eu. Como ela não era assim tão próxima de mim, teve a frontalidade e a capacidade de chegar a um ponto onde mais ninguém chegou”, conta-nos. “Ela é uma das pessoas que me salvou a vida, se não fosse ela a conversar comigo, nunca tinha tido a capacidade de tratar de mim. Foi assim que comecei a tratar-me: com uma hora de choro a ouvi-la falar.

“Esta doença não é um capricho”

Dos nutricionistas, queria distância. Mesmo atualmente, admite que não foi mais do que três ou quatro vezes a um nutricionista, por considerar serem muitos os que se limitam a adaptar uma mesma dieta a qualquer corpo, sem grandes cuidados. Vai apenas àqueles de sua confiança, mas este foi um passo apenas dado mais à frente.

Em 2011, a ajuda passou pelo acompanhamento psiquiátrico que Inês repete ter sido fundamental, “esta doença não é um capricho! A ajuda médica que recebi foi fundamental”. A par disso, foi seguida por um endocrinologista, pela necessidade de regular as hormonas que perderam o controlo como resultado da má alimentação. “Estas foram as únicas duas ajudas que tive na altura”.

Porque era especializada em distúrbios alimentares, foi a própria psiquiátrica com quem esteve que lhe passou um plano alimentar mais rico em calorias. Inês teve de o adaptar. “Ainda hoje faço isso, sou incapaz de seguir à risca um plano alimentar”. Mesmo assim, aceitou as ‘imposições que sabia ser essenciais à sua saúde, mesmo o consumo de uma banana por dia, que lhe era um martírio: “Se já não gostava do sabor, hoje lembra-se aquela fase por que passei”.

Durante o período de anorexia, nunca deixou de comer, mas negava qualquer hidrato e gorduras. Não comia calorias, comia volume. Assim, não a chateavam por não comer, admite Inês, certa de que este “era o truque”. Além do iogurte de manhã – a única comida mais calórica que ingeria – comia saladas, legumes e sopa. “Era capaz de comer uma saladeira inteira só com alface. Eu nem imagino qual seria o meu consumo diário de calorias”, lembra.

O yoga como ajuda ao corpo e mente

Além da ingestão de mais calorias, era fundamental que Inês parasse de treinar. Treinava três vezes por dia. Era tanto, que por vezes ficava indisposta ao ponto de não conseguir comer.

“Dei a minha elíptica. A terceira, porque as outras parti de tanto usar, e passei a praticar yoga. Fi-lo durante dois anos e posso dizer que me ajudou imenso”.

Inês não é uma pessoa calma, pelo contrário, é bastante agitada, mas foi no yoga que encontrou a liberdade mental de que precisava. “Foi essencial para perceber que não estava bem, para perceber como é que a minha vida podia andar para a frente e quais os limites do meu corpo”.

Quando atingiu um peso mais saudável, passou do yoga para o ginásio. Mantém a prática de algumas posturas em casa, mas manter as duas modalidades não era financeiramente possível, por isso optou pelo ginásio.

Estas foram as grandes mudanças – comer mais e parar de treinar para recomeçar da forma mais saudável. “Comecei em 2011 e posso dizer que só em 2018 alcancei um peso saudável.

Embora admita que quem sofre de um distúrbio alimentar nunca fica totalmente curado, a anorexia com que foi diagnosticada em 2011 faz parte de um passado para onde olha como uma má fase.

“Naquela altura não tinha a perceção de que estava mal, não consigo apontar um momento em concreto como o pior. Se calhar aponto todos os jantares a que faltei porque não queria comer ou as relações que não tive porque não me senti bem, não gostava do meu corpo.” Em suma, tudo o que implicasse mudar alguma coisa no seu plano mental, era evitado. “Basicamente, posso dizer que perdi 5 anos da minha vida. São anos que passaram, não há um momento só a apontar”.

“Só me pesarei quando sentir que há necessidade”

Um distúrbio alimentar é uma doença que fica para sempre, no sentido em que cada um tem de manter o equilíbrio físico e mental para se controlar. Para Inês, este equilíbrio é a maior luta e é por isso que evita a balança.

A última vez que se pesou foi há 2 meses. Antes disso, há 4 meses, foi à balança porque não se sentia bem. Achava que estava quase com 70 kg, o que mostra a má perceção que ainda tem do seu corpo. Tinha 63kg, mas queria melhorar e por isso recorreu à ajuda de uma nutricionista da sua confiança. Voltou aos 61kg, de forma saudável e sem dizer não aos hidratos. A partir daí, decidiu que ia deixar de lado a balança e focar-se no que via e em como se sentia.

“Eu sou viciada em magreza, é um facto. Eu gosto de ver modelos magras, não gosto de rabos e pernas grandes. Mas eu sei que qualquer corpo que tenha como referência, tenho de adaptar a mim. Por isso digo a mim mesma ‘tu podes ser magra, mas tens de ser uma magra com saúde’. Se não for assim, vou voltar a deixar de viver, como aconteceu naqueles cinco anos”.

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