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Graças a Christie, “ser careca foi finalmente celebrado”

Christie Valdiserri foi uma das 17 mulheres que participou num desfile onde provou que é mais forte do que a doença que lhe deixou sem cabelo.

Graças a Christie, “ser careca foi finalmente celebrado”

Alopecia. Uma palavra pouco dita e talvez ouvida em menor número do que aquele que representam quem vivem com esta condição. Falamos de uma doença autoimune, de origem genética e sem cura, que leva à perda parcial ou total de cabelo.

Se estivéssemos a apresentar um combate num ringue, no lado oposto ao da doença estaria Christie, autora do blog com o mesmo nome. Dançarina, instrutora de fitness, vegan e vítima de alopecia. É este o tema de que fala a jovem de 25 anos, que assumiu a missão de provar que a perda de cabelo não é impedimento para nada.

É pois num registo muito otimista, de poder e amor-próprio, que somos recebidos nas redes sociais de Christie. Com ou sem peruca, mantém em cada foto o sorriso que a carateriza, sem ofuscar a história que a trouxe ao palco da Sports Illustrated.

Pela marca, desfilou juntamente com outras mulheres que não se deixam ofuscar por quaisquer barreiras que a sociedade por vezes impõe a nível de tamanhos, deficiências ou outras caraterísticas que são cada vez menos relevantes.

Veja um dos vídeos partilhados pela marca, onde se percebe a positiva vibe que este grupo de mulheres proporcionou:

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YOU. ARE. ENOUGH. ❤️ Here’s a sneak peek of the #SISwimSearch runway show @wsouthbeach. Full show coming to IGTV soon.

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Mas até chegar a este momento, em que Christie se permitiu celebrar enquanto mulher, independentemente da doença que a acompanha, muito se passou. E a Women’s Health procurou contar a sua historia. Para melhor entender a condição, fomos também nos esclarecer junto de Rui Oliveira Soares, coordenador da Unidade do Cabelo do Centro de Dermatologia do hospital CUF Descobertas. O especialista, que é também Secretário-geral do Grupo de Tricologia da Sociedade Portuguesa de Dermatologia começa por esclarecer que “alopecia significa falta de cabelo”.

Por ser pouco conhecida, muitos são os que sofrem da doença e “nem sequer procuram ajuda médica”. Para o especialista, esta falta de ‘denúncia’ da condição torna mais complicado perceber quantos portugueses a doença afeta. Ainda assim, estima-se que, “para a população em geral, a probabilidade de padecer alopecia areata em alguma altura da vida ronde os 2%”.

Embora haja centenas de tipos de alopecia, os mesmos enquadram-se em dois grandes grupos: alopécicas cicatriciais (em que existe destruição do folículo e, por isso, sem capacidade de recuperação) e alopecia não cicatriaciais, em que é possível recuperar o cabelo, uma vez que não há destruição total do folículo. A alopecia areata, de que sofre Christie, insere-se neste segundo campo.

Três anos de mil e uma mudanças

Foi em 2016 que começaram a surgir os primeiros sintomas de alopecia. Christie preparava-se para ir de férias de verão com a melhor amiga, como forma de celebrar também a sua licenciatura. Antes de seguir viagem, deparou-se com uma falha de cabelo no couro cabeludo que não era de todo normal.

Ignorou, aproveitou as férias e mesmo quando outros círculos lhe surgiam na cabeça, focou-se na ideia de que era uma reação ‘qualquer’, que iria passar com o tempo. Só quase um ano depois é que a jovem recém-licenciada viria a descobrir que aqueles eram os efeitos da alopecia areata de que sofria.

Mais tarde, a doença de Christie que se pronunciava sob a forma de círculos sem cabelo em várias zonas da cabeça, evoluiu para alopécia areata totalis, quando lhe caiu todo o cabelo, e depois para alopécia universalis, fase em que não lhe restou qualquer pelo no corpo. “Felizmente, apenas metade da minha sobrancelha direita e um pedaço da esquerda caíram. E, de alguma forma, mantenho a grande maioria das minhas pestanas. Estarei eternamente agradecida por isto”, desabafou no seu blog.

A culpa é do stress

As fases cada vez mais agressivas da doença acompanhavam o estilo de vida evolutivamente stressante de Christie: um culminar de situações que começou em Nova Iorque onde fazia viagens diárias de 2 horas para chegar ao estúdio onde dançava, participava constantemente em castings – para tentar fazer da dança a sua única profissão – enquanto agilizava o tempo com outros trabalhos que a sustentassem. A par de tudo isto, estava numa relação tóxica que manteve por três anos.

O stress é, de facto, um dos fatores que mais desencadeiam esta doença que se deve sempre a uma predisposição genética mas pode ser desencadeada por outros fatores, reconhece Rui Oliveira soares. “Frequentemente observamos pacientes que associam fases piores da doença a períodos em que a vida familiar ou profissional lhes trouxe mais ansiedade”, aponta o especialista.

“Muitos pacientes associam fases piores da doença a períodos em que a vida lhes trouxe mais ansiedade”

O caso da jovem americana reflete esta mesma realidade. Após por fim à relação, num momento em que se esforçou por focar em si própria, a par dos tratamentos contra a queda de cabelo – que não funcionavam -, a alopecia parecia criar várias barreiras ao avançar da sua vida, de uma forma que Christie sabia ser ilegal:

Após uma breve melhoria (após a qual o cabelo voltou a cair), Christie dedicou toda a sua energia à sua carreira de dançarina. Decidiu que, por seis meses, ia juntar-se a uma equipa de dançarinos, que pertenciam à animação de um cruzeiro. Para tal, demitiu-se do restaurante onde trabalhava, vendeu o apartamento e arriscou. Depois de seis semanas a bordo, recebeu um email a informa-la de que estava dispensada e teria de voltar a casa. Embora tenha lutado por respostas por parte dos superiores, nunca recebeu qualquer informação sincera nem uma reunião cara a cara. Christie sabia que não havia qualquer motivo para a mandarem embora que não fosse o aspeto do seu cabelo… ou falta dele.

Dois meses após tal injustiça Christie sentia-se sem chão. E para dar rumo à própria vida, marcou um bilhete só de ida para Los Angeles. Foi lá que se instalou e encontrou aquilo a que hoje chama de casa.

Vulnerável, mas…

“Desde 1 de junho de 2016 que não há um único dia em que não pense no meu cabelo. Alguns dias são melhores, outros piores. Lembro-me de todas as noites em que chorei e rezei para que o meu cabelo voltasse a crescer”, desabafa.

Apesar de mostrar a sua vulnerabilidade, o blog é um espaço onde espera que a sua mensagem chegue a quem esteja a passar pelo mesmo. A jovem é prova de que nem a alopecia nos pode travar quando temos confiança e acreditamos que somos capazes.

Ainda assim, não esconde que os mais de 350€ gastos mensalmente em perucas a ajudaram a chegar onde está hoje.

E com esta informação, deixa uma mensagem: “Se tens cabelo comprido, pensa em doá-lo. Estas perucas de cabelo humano mudaram a minha vida da forma mais bonita e positiva possível”.

“Se tens cabelo comprido, pensa em doá-lo. Estas perucas de cabelo humano mudaram a minha vida da forma mais positiva possível”.

É que, se a alopecia “tem um comportamento parecido em ambos os sexos”, o impacto psíquico e social é, na maioria dos casos, maior no sexo feminino”, reconhece Oliveira Soares.

Poderemos prever uma cura?

Por ser esta uma doença de predisposição genética, levanta-se a questão de ser ou não possível prever o seu desenvolvimento. O dermatologista admite que sim, “é possível detetar por análise genética um maior risco de padecer a doença”. Contudo, “não existe atual forma de prevenção, mesmo nos casos em que conhecemos um elevado risco familiar.

Quanto a cura, ainda não há. Mas “a atual investigação determina elos cada vez mais fortes entre genética, mecanismo fisiopatológico de inflamação e doença”, refere o especialista. Tudo isto coloca a alopecia entre as doenças com maiores avanços. Por isso, prevê-se ter, nos próximos anos, medicamentos muito mais eficazes”, garante.

A par disto, resta seguir o exemplo de Christie que continua a fazer por inspirar quem a rodeia. Fá-lo com uma atitude que assumimos como espelho do nosso movimento #oMeuCorpo. Afinal, somos todas mulheres capazes, livres de barreiras e abertas a receber a força de histórias como esta.


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