Menu
Inicio Uncategorized Abordagem multidisciplinar: a chave para o sucesso do tratamento da obesidade

Abordagem multidisciplinar: a chave para o sucesso do tratamento da obesidade

gilfaria
Obesidade saudável? Ciência deita por terra a teoria

POR Prof. Dr. Gil Faria, Cirurgia Metabólica no Grupo Trofa Saúde Hospital

 

Em Portugal, cerca de 57% da população é obesa ou está em risco de obesidade, o que significa que 5,9 milhões de portugueses estão nesta situação. Por diversos motivos (organização dos cuidados de saúde, estigma social, problemas socio-económicos, etc), nem sempre procuram ou têm acesso à ajuda de que precisam. Em tempo de pandemia COVID-19, este cenário tendeu a agravar-se devido ao adiamento de consultas e atraso nos tratamentos que, já em situações normais atingia elevados tempos de espera. É mundialmente reconhecido que o melhor tratamento actualmente disponível para a obesidade grave passa pela Cirurgia Metabólica. Infelizmente, menos de 1% de todos os doentes elegíveis para cirurgia tem tido acesso ao tratamento cirúrgico. Em causa está, muitas das vezes, a falsa ideia de que a cirurgia serve apenas para casos extremos, quando na realidade pode ser uma solução para milhares de pessoas que sofrem diariamente com este problema.

Importa aprofundar o problema de saúde pública que a obesidade representa. Esta é uma pandemia muito mais letal do que aquela que vivemos com a COVID-19 e a tendência é que os números venham a crescer. Só o número de crianças obesas no mundo aumentou 11 vezes nas últimas quatro décadas, o que é motivo suficiente de preocupação, dado que existe uma forte possibilidade de estas se transformarem em adultos obesos. É a patologia isolada associada ao maior aumento dos gastos totais com saúde das últimas décadas, atingindo mais de 1500 milhões de pessoas em todo o mundo e responsável por cerca de ½ milhão de mortos anualmente.

É importante reforçar que a obesidade é uma verdadeira doença. Como tal, existem tratamentos que não devem ser descurados mesmo em tempo de pandemia. E isto é possível através de uma abordagem multidisciplinar , envolvendo profissionais de diversas áreas, com diferentes vertentes clínicas e baseada em equipas disponíveis e experientes para aplicar e gerir tratamentos nutricionais, comportamentais, farmacológicos ou cirúrgicos.

É fundamental desmistificar o preconceito social que existe relativamente à cirurgia, que não deve ser considerada uma saída fácil ou cómoda, nem como sendo adequada para apenas uma pequena percentagem dos casos. Juntamente com a adoção de uma abordagem multidisciplinar (que requer esforço do doente e acompanhamento de uma equipa para ser bem-sucedida a longo prazo), a cirurgia permite devolver aos pacientes a qualidade de vida perdida e vários anos extra de vida saudável.

A verdade é que muitas das vezes as pessoas com excesso de peso tentam perdê-lo através de estratégias comportamentais, terapêuticas e dietéticas sem sucesso. Isto acontece porque, biologicamente é muito difícil perder peso. O organismo humano tem uma série de mecanismos fisiológicos para compensar a diminuição do aporte calórico, de forma a tentar manter uma estabilidade no peso corporal. A cirurgia metabólica surge como uma ferramenta fundamental para inverter esta espiral negativa. Contudo, isto não significa que a longo prazo seja bem-sucedida por si só. O sucesso da cirurgia depende dos hábitos da pessoa em questão, tanto no pré como no pós-operatório, sendo necessária uma mudança de hábitos permanente. É necessário estar preparado para adotar um novo estilo de vida, aprendendo a lidar com os benefícios e também com as limitações impostas pela cirurgia.

A luta contra a obesidade não pode ser descurada, mesmo neste cenário pandémico que vivemos. Devido à COVID-19, muitas das pessoas optaram por interromper tratamentos, adiar a procura por ajuda ou ter as suas cirurgias adiadas. Estamos assim perante dois problemas concomitantes:

· O número de doentes obesos continua a aumentar, enquanto o número de cirurgias diminuiu (apesar de os números associados a esta patologia serem cada vez mais alarmantes, estes tratamentos não são muitas das vezes considerados prioritários);

· A obesidade é um dos principais factores de risco para desenvolver COVID-19 grave. Em caso de infeção pelo vírus SARS-CoV-2, o risco de estes doentes necessitarem de internamento hospitalar é significativamente superior, tendo uma maior probabilidade de necessitarem de cuidados intensivos (74%) e um maior risco de morte (48%).

A pandemia por COVID-19, veio demonstrar a existência de importantes desequilíbrios sociais no acesso à saúde, à educação e ao emprego sustentável. No entanto, existe uma outra pandemia mais indolente, mas mais mortal que é a obesidade, sendo que estes doentes têm a particularidade de serem aqueles mais susceptíveis de sofrer formas graves de COVID-19. Eram já estes os doentes que por vezes a sociedade tende a desvalorizar, com défices importantes da qualidade de vida, no acesso a uma vida social satisfatória, com diminuição da empregabilidade e com uma taxa de mortalidade precoce cerca de 100% superior à da população “normal”. É portanto necessário reequilibrar a oferta dos cuidados de saúde e desmistificar de forma definitiva o preconceito social associado à obesidade.

Brand Story