Menu
Inicio Saúde “A relação entre treino e enxaqueca é complicada”, mas possível

“A relação entre treino e enxaqueca é complicada”, mas possível

A nível mundial, 17% da mulheres sofre de enxaquecas. Um mal que não é só ‘simples dos de cabeça’, mas que não tem de ser um obstáculo ao treino.

enxaquecas

A nível mundial, 6% dos homens sofrem de enxaquecas. No caso da população feminina, a percentagem sobe para os 17%.

Mais estudos são necessários para entender este comum problema. Mas há algo que se sabe: o exercício físico pode ser um fator desencadeante de crise de enxaqueca. Mas também pode ser uma arma de prevenção contra o mesmo mal. Em que ficamos? A Women’s Health pôs a questão em pratos limpos e garante: o treino é mesmo para todas. Mesmo que sofra de enxaquecas!

Comecemos por definir. Enxaqueca: Doença neurológica com vários sintomas, entre os quais a dor de cabeça. Mas antes deste sintoma, mais comummente apontado, “o doente pode sentir indisposição, irritabilidade, depressão, cansaço, náuseas, desejos alimentares ou intolerância à luz e aos sons”, enumera Miguel Soares Rodrigues, neurologista na Clínica CUF Almada.

O especialista, que é também membro da direção da Sociedade Portuguesa de Neurologia, acrescenta que “a fase da dor de cabeça costuma ser intensa e acompanhada de náuseas ou vómitos, intolerância à luz, sons ou cheiros e agravamento com a atividade física de rotina”.

A solução imediata?

Ficar quieto, normalmente deitado, às escuras e em silêncio. Aceitar que este é de facto um problema que em momentos de crises nos deixa incapacitadas, é o primeiro passo. E já foi dado pela Organização Mundial de Saúde, que identificou as cefaleias (nome científico para dores de cabeça) como um dos 10 transtornos mais incapacitantes para o ser humano. Ainda assim, esta dor continua a ser subestimada e os distúrbios permanecem subdiagnosticados e subtratados.

Tratar o problema JÁ

O diagnóstico atempado é essencial, já que as opções de tratamento são várias e o que resulta num doente pode não resultar noutro. É, pois, com a especificação de cada caso que se garante uma boa qualidade de vida. Uma vida que não se deixa controlar pelas enxaquecas.
Mas não é só de analgésicos que falamos. Levar um estilo de vida saudável é arma preventiva ao desencadeamento desta doença. Como aponta o neurologista Miguel Soares Rodrigues, as crises de enxaqueca podem ser provocadas por stress, cansaço, falta de sono, fome, exposição a odores ou químicos, alguns medicamentos, menstruação ou mesmo exercício físico.

Profissionais de saúde e treino de mãos dadas

À Women’s Health, o neurologista admite que “a relação entre o exercício físico e a enxaqueca não é simples”. Se, por um lado, durante a crise de enxaqueca o doente não consegue treinar, “para a maioria, a prática regular de exercício físico, principalmente aeróbico, melhora a frequência e intensidade das crises de enxaqueca”.

Tal consentimento por parte do especialista leva-nos de imediato a pensar ‘vamos treinar!’. A postura é a correta, desde que a prática seja iniciada de forma ponderada e responsável. Inês Abrantes, personal trainer e instrutora de kickboxing no ginásio The Studio, em Lisboa, sabe da importância que é conhecer as necessidades, objetivos e limitações de cada aluno, antes de lhe prescrever um plano de treino. “Faço sempre um questionário inicial e uma avaliação física para ter bases e informação suficientes para trabalhar com aquela pessoa. As restrições irão sempre depender de indivíduo para indivíduo, pois há outros fatores envolvidos que determinam que um plano de treino é ou não indicado para alguém”.

“O exercício deve promover bem-estar e não piorar as dores de cabeça”

Com base nesta avaliação, saber-se-á qual a intensidade, duração, frequência, tipo de treino e seleção de exercícios mais indicado. Todos estes parâmetros “devem ser cuidadosamente monitorizados por um profissional certificado durante o tratamento da enxaqueca. Só assim se aumentar os efeitos benéficos desta atividade”, aponta Inês Abrantes.

“Habitualmente, exercícios muito intensos não são benéficos para quem tem enxaquecas” começa por apontar Elsa Parreira, neurologista e presidente da Sociedade Portuguesa de Cefaleias, entidade que colabora em várias iniciativas com a MiGRA, Associação Portuguesa de Doentes com Enxaquecas e Cefaleias. “São mais aconselhados exercícios de relaxamentos ou que não impliquem muita força nos músculos cervicais ou abdominais porque isso muitas vezes ajuda a desencadear crises”, acrescenta, indicado que modalidades como corrida, natação ou ciclismo serão, à partida, boas opções.

Acompanhada, sempre

Tal necessidade de especificação leva-nos a focar numa palavra-chave que é de peso nesta temática: treino orientado. Alguém que inicie um qualquer tipo de treino deve garantir o acompanhamento de profissionais – tanto a nível de treino como de saúde.

“Alguns tratamentos para a enxaqueca podem limitar a capacidade de fazer exercício físico e o doente deve ver com o seu médico se é esse o seu caso. Para os restantes doentes, o essencial é que tenham uma boa condição cardiovascular e que pratiquem as atividades físicas que os façam sentir bem de forma geral e melhorem as cefaleias”, diz o neurologista, ao que a personal trainer acrescenta: “há uma correlação positiva entre baixos níveis de atividade física e maior ocorrência de enxaquecas, mas, se este não for orientado de acordo com o objetivo, pode realmente tornar-se um fator desencadeante para a ocorrência de um ou mais episódios. Ninguém, quer seja saudável ou portador de outras condições igualmente limitativas, deve iniciar um programa de treinos que não seja adequado para si. Se o fizer, muita coisa pode correr mal”, garante.

“Ninguém, quer seja saudável ou portador de condição limitativa, deve iniciar um programa de treinos que não seja adequado a si”

Para começar, importa garantir que não estamos perante uma situação em que o próprio exercício físico pode desencadear enxaquecas. Se não for o caso, “uma prática regular de exercício físico inserida na adoção de um estilo de vida saudável tem o efeito de reduzir o número de vezes que a pessoa tem enxaquecas. É uma boa aposta na melhoria das dores”, garante Elsa Parreira.

“Em todos os casos, o essencial é informar o seu treinador de todos os problemas de saúde que sofre. Além disso, consulte o seu médico antes de fazer alterações ao plano de treino e reporte imediatamente qualquer agravamento ou modificação das características da enxaqueca”, atenta Miguel Soares Rodrigues.

Mas “o que é mais perigoso é deixar passar despercebida outra doença neurológica mais grave que a enxaqueca. É possível, e pode se manifestar como cefaleias durante o exercício”, alerta o neurologista. “O exercício deve promover bem-estar, melhorar e não piorar as dores de cabeça. Se as cefaleias piorarem é um sinal de alarme para recorrer rapidamente ao médico”, acrescenta.

Brand Story