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A pandemia obrigou-nos ao afastamento físico. E agora?

A ausência de abraços e outras formas de interação física, a que fomos impostos por culpa da pandemia pode afetar a nossa saúde. Como contornar o problema?

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Reencontrar um amigo que já não víamos há algum tempo era motivo mais que suficiente para um caloroso abraço. Mas 2020 veio mudar esta realidade. Fez-nos trocar o contato afetivo por toques de cotovelos, beijos lançados ao ar ou outros gestos que nos sabem a pouco.

No estudo ‘O impacto social da pandemia’ levado a cabo pelo ISCTE e pelo ICS e publicado em junho de 2020, a terceira preocupação mais apontada pela amostra face ao futuro relaciona-se com a incerteza sobre quando se poderá voltar a estar com os familiares, amigos e colegas. Esta foi a resposta de 37% dos inquiridos, que se seguiu às preocupações relacionadas com a situação económica do país (67%) e situação de saúde pública (46%). Tal demonstra que os relacionamentos físicos são uma preocupação e uma necessidade para muitos portugueses, independentemente da idade.

No mesmo inquérito era apresentado um espaço para resposta aberta, de entre as quais destacamos as respostas que se relacionam com “a incerteza sobre o modo como a pandemia se reflete na relação com ‘o outro’”. Uma preocupação que muitos inquiridos apontam, questionando se “as medidas de distanciamento social, por exemplo, vão conduzir-nos a comportamentos típicos dos escandinavos, mas pouco populares em países onde prevalece a cultura do abraço ‘mediterrâneo’? Em suma, nenhum de nós sabe como ficarão os afetos após esta pandemia, e esta incerteza preocupa-nos a todos.

Não sabemos como ficarão os afetos após a pandemia, e esta incerteza preocupa-nos

Isabel Amorim, psicóloga e terapeuta de casal e familiar da clínica PositiVus, na Maia, não tem dúvidas de que “o abraçar e o beijar é algo muito importante para a nossa população. O facto de a nossa segurança e dos outros neste momento depender da ausência de afeto físico está a ter um enorme impacto na nossa saúde mental. Crianças, jovens, adultos e idosos sentem solidão e falta de afeto porque as palavras raramente são suficientes”. Assim reconhece, certa de que este é um problema que ganha dimensão por grande parte da população sentir dificuldade em expressar verbalmente emoções positivas que sente pelo outro.

“Esta é sem dúvida uma situação desafiante e de forte impacto ao nível da saúde mental”, alerta a psicóloga. “Cabe-nos a todos fazer a nossa parte pelos nossos entes queridos. Devemos mostrar os nossos afetos por palavras e olhares doces, estando verdadeiramente aqui para eles. A verdade é que estamos nisto juntos”.

A incerteza domina. Mas o afeto nunca foi menosprezado, ainda que a falta de contato físico afete mais uns do que outros. “Felizmente, tanto quanto tenho tido conhecimento, nos infantários a educação pelos afetos continua a existir. Mesmo com a presença da máscara por parte das educadoras, o abraço, o colo, continuam a estar presentes”, aponta. “Nas crianças em idade escolar, jovens e adultos, cabe à família com quem se coabita compensar de alguma forma esta ausência de afetos que existe ao nível da rede mais alargada”, diz a especialista.

Como fica a vida social de quem receia?

Em relação aos relacionamentos, a psicóloga da PositiVus aponta que, em algumas situações, os casais podem estar mais condicionados. Principalmente aqueles que não vivem juntos “e veem-se neste momento condicionados a sair à noite e aos fins-de-semana”. Ainda assim, aos olhos da psicóloga, esta vivência da pandemia “estará mais difícil para pessoas que estão solteiras. Casos em que, por receio de contrair o vírus, neste momento se isolam em termos de vida social. Ou então casais em que um elemento pertence ao grupo de risco e o outro se afasta para o proteger”.

Como superar esta limitativa realidade? “Reforçando a expressão verbal do que sentimos pelo outro, tornando mais frequentes as chamadas e videochamadas; ou então mostrando afeto apoiando em compras ou outro tipo de suporte prático”, sugere a psicóloga.

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